Política

Dilma Rousseff e as eleições de 2018: 'vamos com Lula até o final'

A ex-presidenta do Brasil mostra todo o seu saber sobre a complexa política de equilíbrios internacionais

15/04/2018 13:21

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Por Elisenda Vallejo, para o La Vanguardia, da Catalunha

Direta, veemente, cativante, a ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff não esquiva perguntas e mostra, fora do microfone, todo o seu saber sobre a complexa política de equilíbrios internacionais. Contudo, sua visita à Espanha é para falar de Lula, passando por Madrid e Barcelona. Logo, irá aos Estados Unidos, para denunciar o que, para ela, é um golpe contra o sistema democrático brasileiro, impulsado pelas elites e pela direita do país para desarmar todos os avanços realizados pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Um golpe cuja primeira fase foi a sua destituição como presidenta, em 2016, e que agora levou à prisão o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acusado de corrupção, porque é o claro favorito para ganhar as eleições de outubro. Rousseff afirma que que Lula “é um preso político” e que sua inocência está demostrada. Ela assegura, ademais, que seu partido não tem um plano B para as eleições: “vamos insistir com Lula até o final”.

Convidada pela Cátedra de Estudos Jurídicos Ibero-americanos – constituída pela Editora Tirant lo Blanch e pela Universidade Carlos III de Madrid – Rousseff foi premiada pela Real Academia Europeia de Doutores. Num encontro com o diário La Vanguardia, na quinta-feira (12/4), ela lembrou dos seus dias na prisão durante a ditadura militar, a tortura que sofreu. Muito próxima a Lula da Silva, desde que ele a nomeou ministra de Minas e Energia, e depois chefa da Casa Civil, Rousseff confessa que chorou quando soube que o ex-mandatário teve sua prisão decretada.
 
La Vanguardia: A situação no Brasil é de extrema gravidade, com Lula da Silva na prisão por corrupção e o país dividido. Como se chegou até aqui?

Dilma Rousseff: Na última década, os governos do PT conseguiram reduzir drasticamente a desigualdade. Tiramos 40 milhões de pessoas da pobreza e conseguimos que o Brasil saísse do mapa da fome. Melhoramos o acesso à educação e à saúde. Ganhamos as eleições quatro vezes consecutivas. Conseguimos driblar uma crise econômica internacional durante seis anos, até que ela finalmente nos afetou, e a partir daí a oposição decidiu aproveitar a situação para chegar ao governo sem ter os votos. É uma tendência golpista muito característica das elites políticas brasileiras, que no passado desenvolveram o hábito de não respeitar os resultados eleitorais. Aplicaram a sua agenda, que não foi a aprovada nas urnas. Ironicamente, nos governos do PT, nós criamos as condições para que se avançassem nas investigações contra a corrupção. Lula fortaleceu o Ministério Público e a Polícia Federal. Eu impus medidas de transparência e aprovei uma lei que permite perseguir não só o corrupto como também o corruptor, além de instituir a delação premiada. Mas isso foi transformado em instrumento político para a destruição do inimigo. O uso da lei como arma. E os meios de comunicação se tornaram um instrumento do golpe, realizando vazamento de informação das investigações com viés político. Isso tudo foi a movimentação política que precedeu o meu impeachment, que foi a conclusão da primeira fase do golpe. Vasculharam a minha vida inteira e não encontraram ainda. Então, me acusaram de gastar demais, de atrasar os pagamentos, embora os documentos mostram operações perfeitamente legais. Depois dessa fase, o alvo passou a ser Lula. A segunda fase do golpe consiste em persegui-lo, construindo uma acusação que não se sustenta. O acusam de receber um apartamento de luxo para favorecer uma empresa, embora ele não seja de sua propriedade e jamais o tenha utilizado.

La Vanguardia: Qual seria o objetivo final desse golpe?

Dilma Rousseff: Nos destruir politicamente. Esperavam que o PT desaparecesse, dando a impressão de que toda a corrupção girava em torno de nós. Mas aconteceu o contrário: as pessoas perceberam a manipulação e nós passamos a crescer nas intenções de voto. Lula tem mais que o dobro do segundo colocado em todas as pesquisas. Os golpistas estão desacreditados, porque todo o país sabe de sua implicação, esta sim real, na corrupção. O senhor que concorreu comigo nas eleições (o atual presidente, Michel Temer, que era seu vice-presidente) e que fabricou todo o processo para o meu impeachment, têm gravações comprometedoras. Seu candidato tem somente 5%. Quem ocupa seu espaço político? A extrema direita, com Jair Bolsonaro, que na sessão parlamentária do meu impeachment dedicou seu voto ao meu torturador e à ditadura militar. Eles abriram uma caixa de Pandora. O Brasil tem muitos monstros escondidos em sua história, e o mais evidente é a tendência ao controle violento da população. Devemos lembrar que fomos o último país do mundo em abolir a escravidão, em 1988. Essa história faz com que a exclusão social seja mais dura. Também temos uma tradição de torturas e de violência. Esses são os nossos monstros, nossos fantasmas, daí vem o controle violento da população e um certo desprezo da elite por essa população. Acontece que Lula hoje tem os votos suficientes para derrotar o golpe nestas eleições. Por isso querem impedi-lo, e o colocam na cadeia, porque é uma ameaça. Agora, eles o estão mantendo isolado, porque querem impedir que fale.

La Vanguardia: Mas falar do golpe...

Dilma Rousseff: É um processo complicado, não é como um golpe militar. É como ir podando uma árvore: vão cortando o direito de opinião, imprensa, organização, até que não sobra mais nenhum direito democrático. O golpe parlamentar-judicial no Brasil teve o apoio dos meios de comunicação e dos grandes poderes econômicos. Nossa democracia foi atacada por parasitas, que a foram consumindo por dentro. No caso de Lula, é um golpe fundamentalmente jurídico, o que é muito grave, porque se politizou a Justiça e se acabou com a ideia de que “todos somos iguais perante a lei” e se colocou em xeque o Estado de direito. Por que nenhum investigado do PSDB acabou preso? É uma situação bastante traumática, e creio que Lula tem um papel muito claro: ele não é um radical, é uma pessoa que concilia e cria pontes. O Brasil necessita se reencontrar e a única maneira de fazê-lo é com eleições.

La Vanguardia: Você vê Lula como uma peça fundamental para sair da crise?

Dilma Rousseff: Sim, eu vejo. Eles nos dizem: “Lula está preso, deixem-no, abandonem, não insistam, usem em plano B”. Mas, por que vamos fazê-lo se Lula é inocente? Por que vamos retirar uma candidatura que, em todas as pesquisas é a que tem a maior taxa de aprovação? Para ajudar o trabalho deles, aceitando uma perseguição política? Não, nós vamos com Lula até o final, até que eles resolvam o problema. As candidaturas se decidirão em agosto, vamos até as últimas instâncias judiciais. É muito grave que o Brasil volte a ter um preso político, algo que se acabou nos Anos 90. E eu sei o que é. A ditadura militar tinha o costume de dizer que não existíamos, que éramos criminosos. Hoje, por sorte, temos democracias na América Latina, mas não creio que seja possível manter uma democracia de alta intensidade se a desigualdade continua aumentando. Nos Estados Unidos se produziu uma concentração da riqueza a qual não pode ser atribuída aos trabalhadores mexicanos. É um conto de fadas, e de fadas malvadas. Quando os governos não atendem sistematicamente as demandas da população e alimentam esse mal-estar, acabam aparecendo os salvadores da pátria.

La Vanguardia: Como Donald Trump?

Dilma Rousseff: Sim, como Trump. Estamos vivendo um momento de involução democrática no mundo, o surgimento da extrema direita, que se parece ao período entre as duas guerras mundiais. E no Brasil, se for mantido esse programa impulsado pelo governo ilegítimo, haverá mais violência. Eu voltei a ver crianças na rua pedindo esmola, coisa que havia desaparecido. É muito grave.

La Vanguardia: Nos últimos dias, temos visto um Brasil totalmente dividido.

Dilma Rousseff: Nenhum país sai de uma divisão tão profunda sem eleições que respeitem as regras do jogo. Não se pode dizer “se eu perco não quero mais jogar”, como fez o meu concorrente em 2014. O meu impeachment também foi um processo para semear o ódio político no país, e quando se planta ódio, se colhe violência

La Vanguardia: O que você pensa a respeito do assassinato de Marielle Franco?

Dilma Rousseff: É gravíssimo. Primeiro porque também é a cabeça daquele monstro da escravidão que eu dizia. Era uma mulher nega, uma das excluídas do Brasil. Nossa maior conquista em termos sociais foi a integração da população negra. Há alguns anos, era inimaginável ter médicas negras no país. No meu último ano de governo, 35% dos estudantes da universidade pública eram os primeiros de suas famílias a ter acesso ao ensino superior. É importante que não haja impunidade, que se descubra quem assassinou a Marielle. Além disso, a ação tem como agravante o fato de que ocorreu em plena intervenção do Exército no Rio. É absurdo, matam uma vereadora e ninguém sabe quem foi.

La Vanguardia: Ela era bastante crítica a respeito da intervenção militar.

Dilma Rousseff: E esse é um sintoma do que está acontecendo. Colocar o Exército nas ruas do Rio agora é um erro. Esse não é o seu papel, e eles (os militares) tampouco acham isso. No meu governo, não vi nenhum oficial que quisesse praticar a confrontação com a população. Não se pode passar uma imagem das Forças Armadas como golpistas, porque não o são.

La Vanguardia: Mas, com o processo de Lula, também surgiram declarações de militares pressionando a Justiça.

Dilma Rousseff: Sim, houve algumas, mas também teve o caso do chefe da Força Aérea, que disse que não se trata de defender convicções pessoais, e sim de respeitar as instituições. O quadro político no Brasil não é o mais favorável, mas não devemos cair no derrotismo, porque ainda podemos virar esse jogo.

La Vanguardia: Você contou que Lula da Silva a acompanhou no dia que foi aprovado o impeachment, e que ele chorou, mas você não. E desta vez?

Dilma Rousseff: Desta vez eu chorei, mas chorei quando soube que ele iria à prisão. Para mim foi difícil chorar durante o impeachment. Não sei porque. Nem quando estive na prisão eu chorei, mas sim quando me disseram que havia sido decretada a prisão de Lula.

La Vanguardia: Estava com ele?

Dilma Rousseff: Sim.

La Vanguardia: E como ele reagiu?

Dilma Rousseff: Não chorou nem uma lágrima, como eu no dia do impeachment.

La Vanguardia: Você passou por momentos muito difíceis na vida. Qual foi o mais difícil?

Dilma Rousseff: A tortura é a extrema barbarização da persona. Não há coisa mais desumana, não tem paralelo. Depois das torturas, eles me levavam a um centro de detenção. Porque até as ditaduras necessitam um formato de legalidade. Eu entendo desse tipo de prisão, e por isso digo que o que estão fazendo com Lula é uma barbaridade. O pior castigo na cadeia é o isolamento. Se você está sozinho durante dias e dias, perde completamente a relação com o outro. Lula está isolado. Foi proibido de receber a visita de nove governadores, políticos eleitos nas urnas. Por que? A lei não prevê isso. O que estamos vendo é pior que a ditadura, porque naquele então se permitiam visitas. O isolamento é uma tortura psicológica.

La Vanguardia: Como se enfrenta a tortura, a prisão. Como o corpo faz para aguentar?

Dilma Rousseff: Nós encontrávamos forças porque acreditávamos no que fazíamos. Na tortura não há heróis. Quando cheguei ao presídio, que era um antigo mercado de escravos, num edifício que já nem existe mais, eu li uma frase escrita na parece, que havia sido escrita por outra presa: “feliz do povo que não tem heróis”. Era uma frase de Bertolt Brecht, e eu a entendi perfeitamente naquele momento. Feliz do povo que não necessita produzir mártires, porque isso supõe um sofrimento horrível. Se você pensa que aquilo não vai acabar, então não poderá aguentar. Mas se que durará um minuto mais, dois minutos, três, quatro… assim era possível suportar. Uma vez, no Senado, um senador me chamou de mentirosa porque eu havia admitido que menti sob tortura. Quem não mente na tortura entrega seus companheiros. Na ditadura, era preciso mentir. Na democracia, deve-se defender a verdade.

La Vanguardia: Como presidenta, se arrepende de não ter feito algo?

Dilma Rousseff: Quem não se arrepende? Mas não é esta a questão. Teria que me arrepender de ter escolhido um traidor como vice-presidente. Me arrependo de ter reduzido os impostos aos empresários acreditando que eles reverteriam isso em investimentos, mas eles aproveitaram para aumentar os seus lucros.

La Vanguardia: Não queria acabar a entrevista sem perguntar sua opinião sobre a questão da Catalunha.

Dilma Rousseff: É uma situação muito complexa, sobre a qual não posso comentar, porque não tenho todas as variáveis. Seria uma frivolidade. Mas sou contra a existência de presos políticos. Não faço nenhuma concessão nesse caso, porque eu fui presa política.



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