Política

Dissidentes se reúnem no PSOL para retomar ideal socialista

31/05/2004 00:00

Cristiano Navarro

Créditos da foto: Cristiano Navarro

Brasília – O novo partido de esquerda encabeçado por parlamentares expulsos do Partido dos Trabalhadores (PT) registrou avanços importantes no último fim-de-semana. No primeiro encontro nacional realizado na capital federal, cerca de 700 militantes de diversas regiões do país participaram da escolha do nome, da definição do estatuto e da aprovação do programa provisório do Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL), pronuncia-se simplesmente “sol”, em referência ao astro rei.
Alternativa partidária dentro do espectro de partidos de esquerda, o PSOL também já tem uma presidente: a senadora Heloísa Helena, eleita pelo PT de Alagoas e atualmente sem partido oficial. 

Acompanham Heloísa, na nova legenda, os deputados federais ex-petistas Babá (do Pará), João Fontes (do Sergipe) e a deputada federal Luciana Genro (do Rio Grande do Sul), filha do ministro da educação Tarso Genro. Todos eles sofreram um processo de isolamento principalmente depois de terem votado contra a reforma da Previdência no Congresso que culminou em expulsão por indisciplina e infidelidade partidária definida pelo Diretório Nacional do PT, em dezembro do ano passado. 

A base dos que estiveram presentes ao encontro inaugural do PSOL é composta por parte de ex-integrantes da corrente Democracia Socialista (DS) do PT – que na nova legenda se autodenomina “Liberdade Vermelha” –, dissidentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU), além de funcionários públicos – com expressiva participação de professores ligadas aos seus respectivos sindicatos -, o movimento camponês Terra Trabalho e Liberdade (MTL) e grupos independentes. De acordo com um dos 16 membros da executiva da nova agremiação, trata-se da “última tentativa” institucional partidária da maioria dos militantes. Entre os “notáveis” que aderiram à nova legenda, destacam-se o sociólogo Chico de Oliveira e o professor Paulo Arantes. 

Para poder concorrer oficialmente em pleitos, porém, o PSOL ainda precisa ser bem sucedido no que vem chamando de sua “campanha da legalidade”. “O dia da eleição [municipal, em outubro deste ano] vai ser um dia muito especial. Nós vamos fazer uma brigada do PSOL no Brasil todo. Vai ser a única boca-de-urna permitida em qualquer lugar para que a gente consiga as assinaturas que possam complementar as 438 mil necessárias. Este mês faremos seminários em todos os Estados, tanto formalizando o “mostrengo burocrático” que nós temos que enfrentar, como aperfeiçoando o programa provisório e o estatuto aprovados. Em janeiro, nós teremos o segundo encontro nacional no Fórum Social Mundial [de Porto Alegre, em janeiro de 2005]”, afirmou a presidente do novo partido. 

A senadora, que disse ter dedicado “os melhores anos da sua vida” para ajudar a construir o PT, critica o governo Lula por passar a operar, enquanto ação de governo, “o aprofundamento neoliberal que estava limitado em função da nossa participação ainda na oposição, ou nos movimentos sociais ou no Parlamento”. “Então nós nos sentimos na obrigação de construir esse abrigo, resgatando as bandeiras históricas da classe trabalhadora, a concepção ideológica e programática acumulada ao longo da história da esquerda socialista”. Veja a seguir, trecho de entrevista que a senadora Heloísa Helena, virtual candidata à Presidência da República pelo PSoL em 2006, deu à Agência Carta Maior logo após o encerramento do primeiro encontro nacional do mais novo partido do país. 

Agência Carta MaiorQual é a principal diferença do programa do PSOL em comparação com os outros partidos de esquerda já existentes?
Heloísa Helena – Hoje, os outros partidos se apresentam como uma ferramenta da propaganda trinfalista do neoliberalismo porque apóiam ou como base de bajulação ou como base de sustentação o aprofundamento do projeto neoliberal viabilizado pelo governo Lula. Qualquer pessoa de bom senso, independentemente de ser socialista ou capitalista, que queira fazer uma análise precisa do significado do governo Lula perceberá a subserviência aos parasitas do Fundo Monetário Internacional [FMI] e das instituições de financiamento multilaterais, o comprometimento do Orçamento público, jogando na lama 60% na especulação, as reformas que nada tem a ver com as reformas de aparelho de Estado que nós sempre defendemos. 

Nós defendemos a reforma do Estado brasileiro privatizado a serviço de uma minoria. Entretanto as reformas do Estado implementadas pelo governo Lula, igualmente às do governo Fernando Henrique, nada mais são do que contra-reformas neoliberais que, para dar conta do aumento das despesas financeiras em função da política econômica e da ortodoxia monetária, estabelecem como único mecanismo a diminuição dos gastos sociais. Ora jogando na lama da especulação a poupança dos trabalhadores do setor público – como na reforma da Previdência -, ora saqueando dos cofres públicos linearmente 20% com a Desvinculação das Receitas da União [DRU] para compor o superávit. 

CM Isso tudo irreversível? Não existe alguma chance de que situações de tensão social possam mudar a orientação do governo Lula?
HH – Eu espero - para o bem do Brasil e de milhões de oprimidos, excluídos e marginalizados – que as forças vivas da sociedade, de forma organizada, possam pressionar pela mudança. Mas infelizmente muitos dos movimentos sociais estão burocratizados, ocupando cargos na estrutura governamental, querendo paralisar as suas respectivas bases para impedir qualquer tensão social. 

É claro que eu quero que mude, mas não acredito em mudanças objetivas pelos passos que já foram dados pelo governo. Não que eu seja uma pessoa de pouca fé. Se eu consigo acreditar em Deus que não pode nem ser tocado ou localizado geograficamente, imagina se eu não acreditaria na força e na capacidade de luta do povo brasileiro em pressionar o governo para que ele mude de trajetória.
 
Infelizmente, a análise que eu tenho é que eles [do governo] mudaram de lado. É por isso que nós nos sentimos na obrigação de criarmos esse abrigo para a esquerda. Porque embora eles tenham mudado de lado, não o fizeram legitimados na tradição de esquerda. Eles deveriam ter convocado um congresso, negar as raízes socialistas, se apresentar ou como neoliberais ou como cínicos enamorados da Terceira Via ou qualquer outra concepção programática. A partir do momento que eles mudam de lado, eles não estão autorizados pelo povo brasileiro - e muito menos pela esquerda - a aniquilar, liquidar, soterrar todas as bandeiras históricas que foram consagradas não por uma ou outra personalidade política, não por um ou outro partido político, mas pela luta heróica, pelo sangue, pelo suor e pelas lágrimas da classe trabalhadora e de militantes socialistas no Brasil, na América Latina e no mundo.
 
Essas bandeiras históricas da classe trabalhadora e a concepção programática acumulada pela esquerda socialista não são propriedades de nenhum partido, não será do nosso novo partido [PSOL] também, nem de nenhuma personalidade política. Se foi utilizado um instrumento para disputar no imaginário popular essas vertentes teóricas e eles mudam de lado, nós nos sentimos na obrigação uma nova estrutura partidária. Justamente para disputar no imaginário popular essas bandeiras históricas que ousa questionar o pensamento único. 

CMA senhora espera que mais parlamentares e quadros do PT saiam do partido e venham engrossar as filas do PSOL?
HH – O Sol, nosso querido partido do Socialismo e da Liberdade, receberá todos os companheiros de quaisquer partidos de esquerda que queiram estar conosco de braços abertos, com carinho, com afeto, soldariedade e respeito. Muitos lutadores e lutadoras do povo que saíram do PT, do PCdoB, do PSTU e de outros partidos estão conosco. Mas eu não dedicarei uma única gota de suor da minha energia para buscar militantes dos outros partidos. Parlamentares então, muito menos. Até porque todos os parlamentares sabem exatamente o que está acontecendo. Brinco sempre que o mais inocente deles não anda, voa. 

Se essas pessoas resolverem sair e vierem ficar conosco, receberemos de braços abertos. Dos muitos laços afetivos que construímos ao longo da história, alguns nós fazemos questão de preservar. Mas política com eles não discutimos. Com aqueles que os laços afetivos foram rompidos, isso ocorreu porque não eram tão fortes nem tão verdadeiros para conseguirem se manter além da disputa ideológica e programática da militância política. 

Sinceramente, já sabia e tive mais certeza ainda - nessa travessia no “deserto” para a construção do novo partido, em encontro com “andarilhos” e “caminhantes” - que há vida socialista, digna, maravilhosa, valente, generosa especialmente fora das estruturas partidárias existentes hoje. O que foi para mim um grande aprendizado. Eu vou me dedicar muito mais na conquista dessas pessoas do que na disputa por militantes e parlamentares de partidos alheios.


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