Política

Elogio a Marx, no 125º aniversário de sua morte

Para os que continuam vendo o mundo do andar de baixo, como os olhos dos desgraçados, dos escravos, dos proletários, dos humilhados e ofendidos da Terra, Marx continua tão vigente como Shakespeare ou Cervantes para os amantes da literatura. E há razões para isso

10/05/2018 17:14

 

 
Por Francisco Fernández Buey
 
Embora hoje não se leia tanto Marx como se lia há algumas décadas, as pessoas cultas consultadas na Inglaterra, o país em que o pensador viveu durante grande parte da sua vida e onde morreu, ainda o consideram o filósofo mais importante da história. Para um paradoxo, porque, falando com propriedade, como recordava há pouco Toni Domènech, Marx foi mais científico social que filósofo. E depois porque essa consideração choca com o que muitos intelectuais incubados pelos principais meios de manipulação de massas vêm dizendo nos últimos tempos sobre o marxismo.

Mas, certamente, esse paradoxo tem uma explicação: a maioria das pessoas cultas sabem hoje que a filosofia vem se mundanizando, que o filosofar do nosso tempo é inseparável da ciência social, e que Marx foi precisamente um dos primeiros pensadores em chamar a atenção, ainda no Século XIX, sobre a importância dessas coisas. Se compreende, portanto, a valorização de sua filosofia, aquela filosofia da práxis elaborada por Marx, em conexão com a economia, a sociologia e a teoria política.

Ademais, para os novos escravos da época da economia global (que, segundo estatísticas recentes, andarão rondando os cem milhões), para os proletários que estão obrigados a ver o mundo desde o andar de baixo (um terço da humanidade) e para outros quantos milhões de pessoas sensíveis que, sem ser pobres ou proletários, decidiram olhar o mundo com os olhos destes outros (e sofrê-lo com eles), o velho Marx ainda tem coisas que dizer. Mesmo depois de seu busto cair dos pedestais de culto construídos pelos adoradores de outros tempos.

Que coisas são essas? O que ficou vigente na obra do velho Marx depois que o até aqueles que haviam construído estados e partidos em seu nome?

Embora Marx seja já um clássico do pensamento socioeconômico e do pensamento político, ainda não é possível responder essas perguntas agradando a todos, como as responderíamos, talvez, no caso de algum outro clássico literário. E não é possível porque Marx foi um clássico com um ponto de vista muito explícito, numa das coisas que mais dividem os mortais: a valorização das lutas entre as classes sociais.

Isso obriga a uma restrição quando se quer falar do que ainda há de vigente em Marx. E a restrição é grossa. Falaremos de vigência só para os que continuam vendo o mundo do andar de baixo, como os olhos dos desgraçados, dos escravos, dos proletários, dos humilhados e ofendidos da Terra. Não é preciso ser marxista para ter esse olhar, obviamente. Bastaria ter algo que não anda sobrando ultimamente: compaixão para com as vítimas da globalização neoliberal (que é, ao mesmo tempo, capitalista, pré-capitalista e pós-moderna). Mas algo de marxismo continua fazendo falta para passar da compaixão à ação racionalmente fundada.

Para quem pensa assim, embora nem sempre tenha voz, Marx continua tão vigente como Shakespeare ou Cervantes para os amantes da literatura. E há razões para isso. Vou dar aqui algumas dessas razões, porque esses seres sem nome que, em geral, só aparecem em nossos meios em forma de estatísticas e nas páginas policiais.

Marx disse que o capitalismo criou, pela primeira vez na história, a base técnica para a liberação da humanidade. Entretanto, por sua mesma lógica interna, este sistema ameaça transformar as forças de produção em forças de destruição. O capitalismo vem mudando em muitos aspectos substanciais, mas aquelas ameaças se mantêm ainda mais visíveis.

Marx disse que todo progresso da agricultura capitalista é um progresso não só na arte de depredar o trabalhador como também, e o mesmo tempo, na arte de depredar o solo, e que todo o progresso no aumento da fecundidade da terra para um prazo determinado é, ao mesmo tempo, um “progresso” na ruína das fontes duradouras dessa fecundidade. Agora, graças à ecologia e o ecologismo social, sabemos mais sobre essa ambivalência, mas os milhões de camponeses proletarizados que sofrem por ela no mundo têm aumentado.

Marx disse que a causa principal da ameaça que transforma as forças produtivas em forças destrutivas, e que mina as fontes de toda riqueza, é a lógica do benefício privado, a tendência a valorizar tudo e transformá-lo em dinheiro e viver nas “gélidas águas do cálculo egoísta”. Milhões de seres humanos, na África, Ásia e América experimentam hoje que essas águas são piores, em todos os sentidos (não só o metafórico), do que há alguns anos. Isso é confirmado pelos informes anuais da ONU e outros organismos internacionais sobre a situação mundial.

Marx disse que o caráter ambivalente do progresso técnico científico se acentua de tal maneira sob o capitalismo que obscurece as consciências dos homens, aliena o trabalhador em primeira instância e a grande parte da espécie por derivação, e que neste sistema “as vitórias da ciência parecem pagar com a perda de caráter e com a submissão dos homens por outros homens, ou por sua própria vileza”. Disse com pesar, porque ele era um amante da ciência e da técnica. Mas, pelo que vemos no Século XX, também nisso acertou.

Marx disse que a obscuridade da consciência e a extensão das alienações produzem a cristalização repetitiva das formas ideológicas da cultura, em particular de duas das suas formas: a legitimação positivista e acrítica do existente e a nostalgia romântica e religiosa. Folheando os periódicos do nosso tempo, vejo os pobres divididos essas duas situações: repetindo que vivemos no melhor dos mundos possíveis ou brigando com papas, emires e pastores que condenam os anticoncepcionais na época da aids, enquanto consomem milhões de porcarias.

Marx disse que para acabar com essa exasperante roda gigante das formas ideológicas, repetitivas e alienantes da cultura burguesa era preciso uma revolução e outra cultura. Não disse nem por amor à violência nem por desprezo da alta cultura burguesa, e sim com as convicções próprias do historiador – a saber: que os de cima não cederão graciosamente os privilégios alcançados, e que os de baixo também têm direito à cultura. Não foi o único em dizer isso, mas foi o que melhor e mais claramente o expressou em seu tempo.

Como Marx só conheceu o começo da globalização capitalista e era também um tanto eurocêntrico, quando falava de revolução pensava na Europa. E quando falava de cultura pensava na proletarização da cultura ilustrada. Agora, para falar com propriedade, deveria falar da necessidade de uma revolução mundial, não só europeia. E para falar de cultura, teria que considerar o que tem de bom nas culturas dos povos que ele considerava “sem história”. Talvez porque o momento não permite falar sério disso – ou porque o que seguiu as revoluções desonrou o pensamento de Marx –, se vê muita gente hoje voltando seus olhos novamente às religiões, as quais continuam sendo algo parecido ao que Marx pensava delas: o suspiro da criatura abrumada, o sentimento de um mundo sem coração, o espírito dos tempos sem espírito.

Essa visão científico-filosófica sobre o mundo analisado pelo andar de baixo é parte do que depois se chamaria materialismo histórico. Não há dúvidas de que, como Homero, Marx também cochilava às vezes, e nesses tantos cedia, como disse, aos vacilos eurocentristas. Tampouco se pode ignorar que em seu nome já foram feitas muitas barbaridades. Mas o que fizeram outros em seu nome é coisa desses outros. Tampouco há dúvidas sobre as outras visões que surgiram após a sua morte, talvez mais laicas e mais finamente expressadas. A pergunta, dois séculos depois, poderia ser esta: nós produzimos, nesse período, algo que dê mais esperança aos que não têm nada? E se não o fizemos, o que tem de estranho o fato de que até mesmo no clássico refúgio do capitalismo (o liberalismo e o republicanismo moderno) se pense agora, diferente do que pensam os letratenentes, que Marx foi o maior filósofo da história? Não será que os anônimos a quem se pede opinião agora entenderam melhor que os letratenentes o que significa filosofia mundanizada? – ou seja, diminuir a importância do velho filosofar e voltar a vê-lo “pobre e desnudo”, como queria Dante.

Texto escrito por Francisco Fernández Buey em 2008, em seu livro Marx a contracorriente



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