Política

Encaixotando Dilma

Sob chefes homens, os esporros no Palácio do Planalto são cotidianos. Por que, então, quando a chefe é mulher, isso se torna uma reportagem?

05/04/2016 00:00

Lula Marques

Créditos da foto: Lula Marques

A IstoÉ resolveu reverberar as historinhas que sempre circularam no Palácio do Planalto, e que sempre se mostraram indignas de qualquer reportagem séria. Não porque seriam verdades ou não, as versões expostas pela revista já foram devidamente contestadas pelas partes citadas, mas porque o assunto do humor da Presidenta deveria ser uma questão infinitamente menor, e que só ganhou destaque (estou convencido disso) por se tratar da primeira mulher presidenta do país.

Quem trabalhou no Palácio, seja no Gabinete Pessoal, seja nas Secretarias/Ministérios, sabe que aquilo não é um parquinho de diversões. Decisões lá são tomadas e afetam milhões de brasileiros. É um ambiente de trabalho sério, competitivo e, muitas vezes, arenoso. Navegar sobre águas difíceis não é para molengas, tem de haver firmeza para o barco não desandar; e quem se dispuser a trabalhar lá vai sofrer muita pressão, em todas as posições hierárquicas possíveis, da chefa máxima ao suposto assessor que anotava as bordoadas dela no caderninho negro.

Em condições normais, ou seja, sob chefes homens, os esporros são cotidianos. Alguns desrespeitosos, outros justificados, o ambiente central de poder do Palácio coloca todos à flor da pele. Por que, então, quando a chefe é mulher, caberia uma reportagem dessas? Eu acredito que, dada a incapacidade de a imprensa familiar (essa daí que a gente lê) e da oposição em descolar a narrativa do impeachment da narrativa do golpe, só restou o caminho da renúncia. E, para isso, vão desconstruir Dilma ao máximo, ou melhor, vão encaixotar Dilma como encaixotaram Helena (lembram do filme, de Jennifer Lynch?).

Além da IstoÉ, outros dois veículos da imprensa já passaram essa pista. A Folha de S. Paulo admitiu, em editorial, que a pedalada fiscal é um fraco argumento para o crime de responsabilidade, restando a Dilma o "ato de grandeza" da renúncia, inclusive, pasmem, com a renúncia do Vice Temer. O Estadão publicou reportagem sobre um suposto acordo de elites (cavalheiros?) em que a Presidenta apresentaria uma emenda constitucional abreviando seu mandato e convocando eleições gerais e até uma Constituinte. Todos eles lidam com o seguinte paradoxo: um ato de vontade (a renúncia) promovido por uma pessoa que perdeu a capacidade de governar, logo, de afirmar sua vontade. Como resolver esse paradoxo? Encaixotando Dilma, cortando-lhe as pernas, os braços, até que ela se submeta à vontade dos machos, do poder misógino e patriarcal estampado nas entrelinhas das boas intenções desses editoriais.

O que eles não sabem é o quão dependente essa narrativa vai-se atrelando na própria vontade da Presidenta de decidir o futuro da nação, dando-lhe a força política que lhe fora retirada pelas negociações inconfessáveis do Congresso Nacional. Quanto mais o impeachment avança, mais ele se revela golpista, envergonhando seus defensores. Restaria, portanto, a Presidenta, "louca e cretina" salvar a todos com seu ato de grandeza, renunciando para o bem de seus inimigos.

Afinal de contas, quem é mesmo que precisa tomar Rivotril nessa história?






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