Política

Fiori: PT não surpreende ao ser conservador na economia*

29/03/2004 00:00


Rio de Janeiro – Por que, uma vez tendo alcançado o governo central do Brasil, o Partido dos Trabalhadores, que é reconhecidamente de esquerda e historicamente comprometido com as idéias de mudança, aplica uma política econômica ortodoxa e recessiva? A pergunta não tem resposta simples, e foi em busca de maior compreensão sobre a conjuntura atual que os alunos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (Ippur) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) compareceram em bom número a aula inaugural ministrada nesta segunda-feira (29) pelo cientista político José Luís Fiori.

Durante a palestra, no entanto, Fiori surpreendeu ao ampliar o foco de sua análise para além do governo Lula. Traçando uma linha histórica, mostrou que, desde as reformas de Cromwell, na Inglaterra do século XVII, os que defendem uma sociedade igualitária vem entrando em choque com os defensores do acúmulo capitalista sem, no entanto, jamais ter oferecido alternativa econômica à política liberal nos curtos períodos em que estiveram governando: “Com exceção daqueles que Marx viria a chamar de socialistas utópicos (que não pretendiam ser agentes da derrocada do capitalismo) e dos casos onde houve um processo de ruptura revolucionária (Rússia, China e Cuba), os socialistas sempre trataram de administrar o capitalismo quando chegaram ao poder. Isso se dá, sobretudo, pela falta de uma formulação política e econômica socialista ou de esquerda. Na verdade, nunca existiu uma política econômica socialista”, afirmou.

Fiori arrancou risos ao dizer que a idéia de colocar quadros de esquerda administrando o capitalismo “não nasceu na USP”, e citou o partido socialista alemão de Kautsky e Rosa Luxemburgo como exemplo: “Em 1890, a esquerda alemã se deparou com o dilema de ter que governar se chegasse ao poder, pois tinha condições reais de ganhar as eleições. Na hora de fazer o programa de governo, aconteceram pressões semelhantes às que ocorreram com o PT no Brasil”, disse. O cientista político contou que, naquela época, alguns setores do partido já haviam percebido que dois terços dos votos recebidos pelos socialistas não vinham dos operários e sim da classe média, num fenômeno que se repete até hoje. Por isso, coube ao tradicional militante Kautsky elaborar a parte política do programa de governo, mais à esquerda, enquanto um cauteloso Edward Bernstein – famoso pela frase “o socialismo não é um fim, é um processo” – escrevia a parte econômica: “Como vocês podem ver, no século XIX já existiam programas de governo de esquerda completamente esquizofrênicos. Devem ter dado graças a Deus por não terem ganhado as eleições”, disse Fiori, provocando novos risos.

Esquerda administrou capitalismo no pós-guerra
Preocupações com coligações à direita e alianças de governo, segundo a narrativa de Fiori, entraram de vez no cardápio da esquerda nas décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando partidos socialistas se alternaram no poder com a direita nos principais países da Europa ocidental. Esse período que, segundo o cientista político, durou até os anos oitenta, trouxe ondas revisionistas que consolidaram os partidos de esquerda europeus como gerenciadores de políticas econômicas de orientação liberal: “Foi o que se convencionou chamar de anos de ouro do capitalismo, com aumento da produtividade e crescimento econômico. Nesse quadro, os socialistas se contentaram em administrar o crescimento e fazer chegar a toda a população as benesses econômicas que ele propiciava, estendendo a todos o estado de bem estar social”.

O problema do governo do PT, segundo Fiori, é que hoje em dia as políticas econômicas liberais são forçosamente recessivas, não atendendo, mesmo que apenas de forma pragmática, a plataforma básica de igualdade social defendida pelos socialistas: “Assistimos, em nível internacional, a submissão crescente dos partidos socialistas a um modelo capitalista que já não permite aumentar o crescimento de um país ou distribuir renda entre sua população. Da forma como as coisas estão hoje, é rigorosamente impossível atingir no Brasil um crescimento forte e duradouro”, disse.

Política Externa e Capital Produtivo
José Luís Fiori procurou desmistificar dois conceitos que permeiam as discussões sobre o governo do PT: a inovação na política externa e a oposição entre capital produtivo e capital especulativo. Segundo ele, ao se posicionar contrariamente a intervenção militar no Iraque, a esquerda internacional nada mais fez do que “pegar carona no movimento pacifista surgido a partir das manifestações contra a guerra do Vietnã”, pois também nunca teria existido uma formulação tradicional de política externa de esquerda: “Marx pensou em termos internacionalistas, mas não escreveu sobre como fazer a política externa de um Estado”, disse. Segundo Fiori, a elaboração de uma política externa de esquerda pode vir a existir, mas será fragmentada: “Sua maior expressão é o Fórum Social Mundial”, disse.

Afirmando que economia de mercado é uma coisa e capitalismo é outra, o cientista político refutou a aliança entre um governo de esquerda e o chamado setor produtivo da economia contra o capital especulativo internacional: “O grande capital é tanto produtivo quanto financeiro, o resto é blá-blá-blá. Vejam o exemplo do Antonio Ermírio de Morais, que disse que 20% de seus ganhos já vem do setor financeiro”, disse. Para Fiori, os grandes capitalistas “não estão preocupados com a política econômica diária, com quanto custa o pão na padaria”: “Os grandes capitalistas são grandes predadores e estão sempre associados ao poder. Não se iludam: o capitalismo continua usando como armas a desestabilização e a ruptura constante da institucionalidade. Continua trabalhando com a lógica da conquista, da dominação e da exploração”. 

*. Após a publicação desta reportagem, o cientista político José Luís Fiori enviou à redação uma nota de esclarecimento. Clique aqui para lê-la.



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