Política

Futuro do governo Lula depende de mudanças no presente

30/03/2004 00:00

Agência Carta Maior - Tem uma trajetória fatalista aqui, vinda lá de trás, sustentada pela forte influência do imperialismo americano que tem reflexos internos marcados pelo sentimento de frustração. Qual é a alternativa?

Bernardo Kucinski - Eu não acho que a história está escrita. Não existe isso. O que eu quis dizer é que eu enxergo hoje um padrão na América Latina. Uma coisa que eu aprendi quando vim aqui para o governo – é a primeira vez que eu venho para o governo. A Lei que rege a política, a Lei Maior, é a Lei dos Paradoxos. Você sempre tem um governante de direita fazendo coisas que a esquerda deveria fazer, mas se ela fizesse seria derrubada. Por exemplo, o [Richard] Nixon [ex-presidente dos EUA] assina a paz no Vietnã, o Begin vai assinar a paz com o Egito, o Lula vai fazer a reforma da previdência, que se fosse o Fernando Henrique nós não deixaríamos fazer. Sinto que o paradoxo é um fenômeno determinante. Você vai encontrar paradoxo em todo lugar. Por exemplo: no gabinete do Lula, no Ministério. Não tem nenhum ministro, exceto o próprio Palocci, que apóia a política econômica. Nenhum. Mas ela é levada. É um paradoxo. Você tem paradoxo o tempo todo. Então, veja, a política sendo de paradoxo, ela não tem uma lógica, porque o paradoxo é a violação da lógica. Então, tem um padrão, mas esse padrão é rompido, surge um novo padrão, em cada país ele operou de forma diferente, com nuances diferentes. Eu não sei o que vai acontecer. Não está determinado. Aliás, o [deputado] Delfim [Netto, ex-ministro da Fazenda na ditadura militar] tem dito uma coisa interessante: “o futuro nós é que vamos determinar, ele não está escrito. O crescimento econômico desse ano não está dado. Ele vai ser dado por nós”. Tem condições prévias, mas o futuro está nas nossas mãos. Qual é o segredo? É entender bem o presente. É aí que estou um pouco assustado.

Ricardo Zarattini - Pelo contrário, eu estou achando que esse governo Lula está com o pé no chão mais do que teve Goulart no momento em que ele demitiu o Celso Furtado e o San Tiago Dantas.

Flávia Biroli - Vocês citaram várias vezes o Delfim Netto, por mais que seja tomado aí como uma fonte, uma pessoa que conhece a economia brasileira, fez parte do governo na ditadura militar. Tem vários personagens aí que tem sido muito ouvidos pelo PT ou que fazem parte dessa articulação, dessa base aliada, como a presença forte de um José Sarney [presidente do Senado, ex-presidente da República e ex-líder do PDS, partido que sucedeu a Arena e a UDN], que representam continuidades muito fortes em relação ao período da ditadura. Eu tenho uma certa dificuldade de ler isso. Sabe aquilo que vocês disseram sobre o Kirchner. Quando é que nós vamos fazer essa ruptura?

Zarattini - Você acha que é ruptura? O Sarney foi um dos primeiros caras a contestar a política econômica do governo. Lembra da declaração dele no final do ano passado?

Kucinski - Sarney fez a moratória. Não se esqueça de que foi no governo dele.

Zarattini - E botou no governo os melhores economistas, o [João] Sayad, o [Luiz Gonzaga] Beluzzo, essa turma toda. E o PMDB representa interesses de uma burguesia média, que está sendo prejudicada. O que esse superávit fiscal exige? Um cavalar aumento de impostos, Cofins, esse troço todo. Esse pessoal está chiando.

Agência Carta Maior - Qual a alternativa?

Kucinski - A alternativa é lutar pelo sucesso do governo Lula.

Zarattini - Exatamente!

Agência Carta Maior - Mas, se não tem projeto, lutar pelo quê?

Zarattini - Tem projeto e tem rumo.

Kucinski - Tem que lutar para repor o país no rumo.

Agência Carta Maior - Mas o senhor não quer um governo Lula diferente?

Zarattini - Claro. Quero um governo Lula que realmente corrija certas questões da política econômica. Principalmente no campo da política monetária.

Flávia - E que assuma o peso histórico que coincida com as expectativas que o elegeram. Ou que manobre com elas de alguma forma.

Kucinski - A diferença entre eu e o Zarattini é a seguinte: nós todos queremos mudanças na mesma direção. Só que ele acha que isso deve ser discutido internamente. Eu acho que não se criou dentro desse governo um espaço interno. Criou-se um dogma. Por isso que, quando chego nesta mesa para falar o que penso, é uma atitude consciente. Nós precisamos discutir essa coisa em público. É a maneira de fazer o governo Lula dar certo. Porque senão vai afundar. Essa é a diferença.

Zarattini - Tem certos assuntos que a gente deve discutir internamente. Mas tem uma diferença na nossa opinião. Nós saímos de uma situação dificílima no início do governo. Não só no campo econômico como no campo da governabilidade.

Agência Carta Maior - Isso não é passado? O senhor disse: “nós saímos”.

Kucinski - Saímos ou não saímos?

Zarattini - Saímos.

Kucinski - Então. E onde é que nós estamos? Percebe a deficiência lógica do raciocínio: saímos e não saímos.

Zarattini - Você acha pouco que nós vamos fazer esse acordo com a União Européia e o Mercosul?

Kucinski - Esse acordo realmente é importante.

Zarattini - É que não se produzem resultados econômicos em 15 meses. Investimentos podem não se produzir nem em dois anos, três. Mas eu acho que gradativamente nós vamos melhorar a situação, daqui para o final do governo, em quatro anos. Eu acho que o projeto de 10 anos, 12 anos, tal, é um projeto que só é factível, aí eu estou com o Bernardo, se derem certo os próximos quatro anos. Mas nós ainda temos dois anos e meio pela frente. Não vamos ser pessimistas e achar que está tudo falido. Ao contrário, vai estar tudo bem. Vamos fazer o seguinte: que dia é hoje?

Todos - 25.

Zarattini - Vou fazer um desafio: no dia 25 de março de 2005 vamos fazer uma outra reunião para ver quem tinha razão, se o pessimismo ou o otimismo. Tenho certeza que será o otimismo.

Bernardo - Eu vou estar torcendo para você ganhar a aposta.

Flávia - Eu também.

Conteúdo Relacionado