Política

Governo Lula se esforça para provar que ama o Rio de Janeiro

23/06/2004 00:00

Rio de Janeiro – Mesmo tendo a audiência que faria na Comissão de Infra-estrutura do Senado adiada em virtude do falecimento do ex-governador Leonel Brizola, o presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, aproveitou os dois dias (22 e 23) que passou em Brasília para encaminhar pessoalmente ao Tribunal de Contas de União um pedido de auditoria nos processos de licitação das plataformas P-51, P-52, P-54 e PRA-1. A ida de Dutra ao TCU foi motivada pelas reclamações públicas da governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus (PMDB), que afirma ter ocorrido uma manobra da Petrobras para excluir o estaleiro fluminense Mauá/Jurong da licitação da PRA-1 em beneficio de um consórcio da Bahia formado pelas empresas Odebrecht e Ultratec.

Além de querer provar no TCU que Rosinha está errada quando afirma que a proposta baiana eleva os custos de construção da PRA-1 em R$ 105 milhões, Dutra está decidido a vir a público quantas vezes se fizer necessário - inclusive na Câmara e no Senado - para acabar de vez com a idéia de que a estatal estaria discriminando o Rio. Sua postura obedece a um pedido do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que anda preocupado com o rumo que a disputa política com o casal Garotinho vem tomando as vésperas do início da campanha para as eleições municipais. Lula, segundo interlocutores, acha que os adversários, apesar de não conseguirem provar o que dizem, estão conseguindo disseminar a idéia de que seu governo não gosta do Rio.

Para acabar com essa lógica, que pode ter efeito devastador tanto na candidatura do deputado federal Jorge Bittar para a Prefeitura da capital quanto em outras tantas candidaturas petistas com chances de vitória no interior do Estado, a ordem da direção nacional do PT é propagandear no volume mais alto possível os investimentos, projetos e outras bondades feitas pelo governo Lula no Rio de Janeiro. Para isso, Lula mandou editar dois documentos que sintetizam em números as ações governamentais no Rio e servirão como uma espécie de manual para os militantes durante a campanha eleitoral. Ao mesmo tempo, algumas empresas importantes subordinadas ao governo federal anunciaram seus planos e investimentos no Estado, com destaque para o BNDES, além da Petrobras.

Produzido pela Assessoria Especial da Presidência, o documento intitulado “Recursos Aplicados no Estado do Rio de Janeiro” traz uma comparação do repasse de verbas efetuado pelo governo federal no último ano de mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (2002) e no primeiro ano do governo Lula (2003). O levantamento mostra que, no primeiro ano da administração petista, o volume de recursos da União destinados ao Rio foi R$ 300 milhões maior do que no ano anterior, o que significa um crescimento nominal de 15% em relação ao último ano da gestão de FHC. Houve aumento do volume de repasses pelos ministérios da Justiça (96%), das Cidades (20%), das Minas e Energia (20%), da Educação (14%) e da Saúde (9%), entre outros. O único ministério onde foi registrado recuo foi Transportes (-3%).

Complementando o primeiro documento, foi produzido a pedido de Lula o relatório “Recursos do Governo Federal e de Empresas Públicas Aplicados no Estado do Rio de Janeiro”, que mostra o total dos recursos para custeio e capital do Orçamento da União destinados ao Rio. Esse documento mostra que o montante total de recursos aplicados no Estado em 2003 foi de R$ 2.348.877.752,97. Mostra também, no entanto, que os investimentos das empresas públicas federais no Rio sofreram no primeiro ano do governo do PT uma redução de 11,2% em relação a 2002, o que contraria discursos recentes como os de José Eduardo Dutra.

Alavancar a campanha de Bittar
Mas Dutra, assim como outros caciques do PT, aposta nas novidades que podem surgir daqui até outubro, mês das eleições. Presente a um ato de campanha de Bittar, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, garantiu que o candidato petista poderá contar a seu favor com “a retomada dos setores naval e automobilístico no Rio” que será promovida pelo governo. O presidente do PT, José Genoino, foi ainda mais longe: “A vitória do PT no Rio será a grande surpresa destas eleições. O Bittar vai apresentar uma agenda completamente diferente da dos adversários e conquistar o eleitorado”, disse, sem especificar que agenda seria esta.

Além de explicitar como se dará o investimento de R$ 4,7 bilhões no Rio, decorrente do plano de construção de plataformas de petróleo, o presidente da Petrobras pretende tornar de conhecimento geral dados que vem repetindo nos últimos dias. Ele afirma que o plano estratégico da empresa prevê investimentos no Estado que, até 2015, totalizarão US$ 24 bilhões (R$ 72 bilhões), o que equivale a mais da metade da verba de US$ 46 bilhões prevista para todo o Brasil.

A ampliação da produção na Bacia de Campos - que passará de 1,2 para 1,7 milhão de barris - também será citada como benfeitoria, pois significará, segundo a Petrobras, um aumento de R$ 2 bilhões nos royalties anuais pagos ao Rio. Esses royalties, no ano passado, já totalizaram a respeitável soma de R$ 4,6 bilhões. O cardápio se encerra com a promessa do início ainda este ano das obras de instalação do gasoduto Campinas-Rio e da conclusão para breve do Pólo Gás-Quimico, que deverão significar a abertura de novos postos de trabalho no Estado.

BNDES apóia projetos
Quem também traz na manga anúncios de projetos que provam o amor do governo Lula pelo Rio de Janeiro é o presidente do BNDES, Carlos Lessa, o mais petista dos não-petistas. Ele anunciou que o banco que dirige negocia com investidores estrangeiros o financiamento da construção de uma usina de aço em Sepetiba, que teria uma capacidade de produção estimada em 7,5 milhões de toneladas por ano. Outros projetos em estudo pelo BNDES dizem respeito à duplicação da fábrica de ônibus e caminhões da Volkswagen em Resende, que deverá contar com recursos da ordem de R$ 1 bilhão, e ao aumento da produção de álcool na região Norte-Fluminense.

Um projeto que agrada a Lessa, no entanto, deve causar problemas com o PT do Rio. Ele quer que o BNDES financie parte da instalação de uma unidade da Aracruz Celulose em Itaperuna, município que faz fronteira com o Espírito Santo. A empresa transnacional é considerada inimiga por boa parte dos petistas fluminenses, que apontam a monocultura do eucalipto para a produção de celulose como atividade predatória ao meio ambiente. Além disso, a Aracruz é acusada de não promover a geração de empregos e atender exclusivamente ao mercado externo, pois cerca 95% de sua produção é exportada para a fabricação de lenços de papel e papel higiênico nos EUA e na União Européia.


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