Política

Guerra, cultura e democracia

É possível impor a democracia em um país através da guerra e da ocupação? Talvez, mas não é o que aconteceu no Iraque, Líbia, Síria, Iêmen e Afeganistão

20/09/2021 11:14

(Reprodução/bit.ly/3lKjuIG)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3lKjuIG)

 

É possível impor a democracia em um país através da guerra e da ocupação? A resposta a esta pergunta não é simples. Em casos como os de Alemanha, do Japão e da Coréia do Sul, é possível dizer que isso aconteceu e que hoje são países que gozam de legitimidade democrática. Porém, o mesmo não aconteceu no Iraque, Líbia, Síria, Iêmen e Afeganistão.

Analisemos caso por caso. No primeiro, a guerra começou em 2003, liderada pelos Estados Unidos juntamente com uma coalizão inusitada formada pela Inglaterra, Austrália e Polônia, e que avançou sob falsos pretextos: a existência de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. O país foi invadido, o ditador Saddam Hussein foi derrubado e executado, mas nem a democracia nem o desenvolvimento econômico surgiram em um contexto de divisões religiosas e culturais entre xiitas, sunitas e curdos. A chamada “Primavera Árabe”, que começou na Tunísia em 2011 e que causou uma espécie de “efeito borboleta social”, derrubando governos, ameaçando autocracias e atingindo regimes autoritários na região, também teve seus efeitos por lá.

Na Líbia, a poderosa OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) liderada pela França, liderou os ataques e bombardeios em 2011 contra o regime de Muammar al-Gaddafi, que foi assassinado, situação que desencadeou uma guerra civil e a instabilidade que perdura até hoje.

No caso da Síria, a guerra civil iniciada naquele mesmo ano de 2011 respondeu ao padrão promovido por Washington, a partir de sua visão geopolítica de defender seus interesses, derrubando ditadores que não os favoreciam, mas sem tocar em governos semifeudais como como a Arábia Saudita. A diferença no caso da Síria é que o regime de Bashar al Assad permaneceu ileso graças ao apoio irrestrito de Rússia, China e Irã. A participação das grandes e médias potências regionais, aliada à precária estabilidade da região, têm prolongado a guerra e a destruição, com mais de cem mil vítimas, cidades devastadas e centenas de milhares de refugiados.

O Iêmen é um país de maioria xiita e um dos mais pobres do mundo. Alcançou sua unificação em 1990 e entrou em guerra civil em 2014. A Arábia Saudita e outros países da região, apoiados pelos Estados Unidos, Inglaterra e França, começaram a bombardear a capital controlada. pelos xiitas houthis, causando uma das piores tragédias e violações do direito internacional humanitário, segundo as Nações Unidas. Nestes últimos anos, grupos islâmicos ganharam posições aprofundando o conflito, acentuando a tragédia e aumentando a intervenção de duas potências regionais antagônicas: o Irã e a Arábia Saudita.

O Afeganistão, com quase 40 milhões de habitantes e uma superfície semelhante à da França, é composto por diferentes grupos étnicos: pashtuns, tajis, uzbeques, turcomenos, baluchis, baouis, nuristanis, hazaras e outros menores. Embora todos estejam unidos pela fé muçulmana em suas diferentes variantes, a maioria é a de pashtuns (sunitas), que apoiam muitas ideias defendidas por grupos como o Talibã, enquanto seus inimigos, os hazaras (xiitas), constituem grupos menos organizados. A república foi proclamada em 1973 e, cinco anos depois, o governo foi derrubado por um setor político que contava com o apoio da poderosa União Soviética, que se sentiu chamada a proteger o país. Foi o início de uma intervenção e ocupação militar, em 1979, na qual os soviéticos tiveram sucesso no começo, mas terminaram derrotados e humilhados no final dos Anos 80 – se retiraram do solo afegão em 1988, com cerca de 25 mil soldados mortos, além de milhares de feridos e mutilados.

Os colonialistas britânicos já haviam tentando invadir o país duas vezes no Século XIX – foram derrotados na primeira e saíram parcialmente vitoriosos na segunda, mas não puderam manter essa vitória por longo tempo, e acabaram sendo expulsos do território afegão. Em meio à Guerra Fria, e devido ao temor dos Estados Unidos por uma possível “expansão soviética na Ásia Central” – um dos pesadelos de Henry Kissinger –, Washington fomentou e apoiou materialmente a resistência de grupos que mais tarde seriam seus inimigos: guerrilheiros islâmicos de diferentes facções que foram amplamente treinados e armados pela CIA (Agência Central de Inteligência), incluindo a Al Qaeda e os Talibãs.

A retirada das forças de ocupação dos Estados Unidos e da OTAN, ocorrida este ano, aconteceu após 20 anos de ocupação do território do Afeganistão, o que custou cerca de 2,5 mil mortes de cidadãos locais e mais de mil soldados estrangeiros. O mundo assistiu às dramáticas e trágicas imagens pela televisão, desde o aeroporto de Cabul, mostrando o desamparo de milhões de pessoas, especialmente mulheres, que durante duas décadas usufruíram de um espaço de maior liberdade pessoal. O fracasso militar é acompanhado pela derrota política de Washington perante seus aliados e os países que confiam na segurança que ela pode proporcionar. Para os libertadores ou portadores da democracia, cada situação é obviamente diferente e também as respostas, dependendo do continente, do país e da diversidade cultural. O Século XX e o atual nos mostram realidades antagônicas. Em um quadro histórico, podemos começar pelos seus opostos, ou seja, as chamadas “democracias populares” que floresceram após a Revolução Russa e sua expansão após a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1945, quando foram impostas na maioria dos países da Europa Oriental, pelo avanço do Exército Vermelho em seu caminho para libertar Berlim e liquidar o regime nazista de Hitler e seus aliados. A exceção foi a ex-Iugoslávia que conseguiu praticamente por si mesma expulsar alemães, italianos e forças fascistas internas e impor sua própria concepção de democracia e socialismo. Nada disso permanece hoje, após a desintegração da União Soviética e do regime do marechal Tito.

Em 1990, ocorreu a unificação alemã, seguida da democratização dos países que compunham o Pacto de Varsóvia e a desintegração da Iugoslávia em seis países independentes. Diferente do que aconteceu com o fim da guerra civil chinesa e o triunfo de Mao Tsé-Tung, em 1949; ou com o fim da Guerra da Coréia após a vitória de Kim Il-Sung, em 1953, que levou à divisão do país em dois. Em Pequim e em Pyongyang, se consolidaram regimes liderados pelo partido comunista, com uma visão particular do conceito de democracia, enquanto em Seul, após governos militares ferozes e uma longa presença de tropas estadunidenses, evoluiu para um sistema político democrático.

No que um dia foi a Alemanha Ocidental, o império japonês ou a atual Coreia do Sul, a democracia também foi imposta pelas armas e pela ocupação do território por forças vitoriosas na Segunda Guerra Mundial, consolidando-se apesar das grandes diferenças culturais. No caso dos dois últimos países, isso aconteceu apesar de esses países nunca terem conhecido um sistema político desta natureza.

A Alemanha passou de um império vitorioso após a unificação em 1871 para uma monarquia expansionista e militarista até sua derrota na Primeira Guerra Mundial, em 1918, que deu lugar à República de Weimar. Ali se realizou uma assembleia constituinte ao mesmo tempo em que se desenvolvia uma verdadeira guerra civil entre a esquerda e a extrema direita. Em Weimar, nasceu uma constituição que era revolucionária para a época, sem precedentes, que se contemplava o sufrágio universal, o voto feminino, a liberdade religiosa e de imprensa, entre muitos outros elementos. Isso durou apenas 14 anos, até 1933, quando a democracia entrou em colapso e Hitler impôs a ditadura nazista, que só terminou em 1945, com a ocupação e divisão da Alemanha em dois países com sistemas políticos opostos, e onde a democracia ocidental terminou prevalecendo com a queda do muro e posterior unificação.

No Japão, com uma cultura milenar, um império também se desenvolveu a partir da segunda metade do Século XIX, conhecido como Era Meiji, baseada no culto ao imperador e na religião xintoísta, bem como a perda do poder feudal do samurai como única força militar. O rápido desenvolvimento da indústria bélica e sua economia exigiam matérias-primas, de modo que o expansionismo imperial os levou a ocupar a península coreana, as províncias chinesas de Taiwan, Manchúria e outros territórios, até seu colapso e rendição com as duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos, que resultaram na ocupação do país por sete anos, a perda de suas colônias e uma nova constituição – escrita pelos norte-americanos – que impôs um sistema político democrático que se consolidou até o país se tornar uma potência econômica mundial. Parte desse sucesso foi fruto da decisão política de não julgar o imperador e os principais responsáveis %u20B%u20Bpela guerra, por causa da adoração que os japoneses sentiam por ele.

No caso da Coréia, com uma cultura confucionista milenar, com nuances obviamente históricas, o país seguiu o caminho da busca da ocidentalização no final do Século XIX e estabeleceu um império que duraria menos de uma década. Terminou em 1905, com a assinatura do Tratado de Portsmouth, que selou a paz após a guerra Russo-Japonesa, entregando o território coreano ao Japão, que iniciou sua ocupação em 1910. A presença japonesa terminou com em 1945, e poucos anos depois começaria a Guerra da Coréia (1950-1953), que dividiria a península no paralelo 38, criando dois países, situação que se mantém até hoje. Atualmente, a Coreia do Norte é apoiada pela China e mantém um sistema de partido único, com a primeira dinastia hereditária comunista e a chamada “democracia popular” restringindo as liberdades individuais. A Coreia do Sul continua sob o guarda-chuva dos Estados Unidos, depois de sucessivas ditaduras, a consolidação de uma democracia e alguns períodos de desenvolvimento econômico.

A ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice destacou, em uma entrevista anos atrás, que em países como Alemanha, Japão e Coréia do Sul, governados por tiranias e posteriormente libertados por tropas aliadas, foram instituídos regimes baseados na democracia representativa e na liberdade. Acrescentou que isso aconteceu apesar de os dois últimos nunca terem conhecido a democracia, mas hoje, depois de uma longa caminhada, consolidaram um sistema democrático de sucesso.

Foi com essa promessa que os Estados Unidos, sob a presidência de George W. Bush e a partir do ocorrido no dia 11 de setembro de 2001, lançaram sua guerra de castigo contra o Iraque e Afeganistão, para posteriormente incendiar grande parte da região: a convicção de que a derrubada das ditaduras e a presença militar trariam a consolidação do sistema democrático e o desenvolvimento econômico. Isso não aconteceu e o Afeganistão, após 20 anos de ocupação, é a prova de que o uso do chamado “hard power” em sociedades tão culturalmente diversas como as muçulmanas não é suficiente. Ter ignorado as raízes históricas, étnicas, religiosas e culturais, ou as complexidades do Islã e suas variantes, colocando os interesses políticos imediatos em primeiro lugar, foi o grande erro dos Estados Unidos e das potências ocidentais, assim como estiveram errados os soviéticos no passado.

A transformação dos Estados Unidos na primeira potência planetária após a Segunda Guerra Mundial não foi acompanhada, nas décadas subsequentes, pela sabedoria e prudência de seus políticos, que abusaram desse “hard power” e sofreram grandes derrotas militares, como aconteceu no sudeste asiático.

A derrubada de governos democráticos por ações organizadas pela CIA, como aconteceu no Irã, no Chile e em outros países, fomentou o estabelecimento de ditaduras que só prejudicaram a imagem dos Estados Unidos no mundo. O mesmo aconteceu com as falhas de inteligência e a violação de sua segurança nacional com os ataques terroristas da Al Qaeda aos símbolos do poder econômico, militar e político em Nova York e Washington, que exigiram um longo planejamento. A resposta foi, mais uma, vez o uso da força sem saber a quem atacar, para acabar iniciando uma guerra e ocupando o Iraque e o Afeganistão, convencidos de que, com isso, viria a paz e a estabilidade.

Como aconteceu no Vietnã, Laos e Camboja, bilhões de dólares foram gastos para deixar toneladas de armas abandonadas e centenas de milhares de vítimas, que provaram o equívoco de se impulsionar ocupações militares com a desculpa de agir “em nome da democracia”. As complexidades culturais foram a grande barreira que impediu a vitória sobre as forças islâmicas, mesmo se tratando de guerrilhas mal equipadas – comparadas aos soldados dos Estados Unidos e da OTAN.

Fernando Ayala é economista chileno formado pela Universidade de Zagreb e mestre em Ciências Políticas pela Universidade Católica do Chile

*Publicado originalmente em 'Wall Street Internacional'


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