Política

História reverencia imagem de JK e relega Jango à polêmica

30/03/2004 00:00


Agência Carta Maior - O objetivo dessa conversa é fazer uma reflexão com base no aniversário de 40 anos do Golpe de 64, tentando estabelecer uma trajetória, a partir do passado, para fazer uma prospecção sobre o futuro. Qual é a relação que existe entre o que aconteceu em 64 e o que está acontecendo hoje?

Flávia Biroli - O que é predominante na memória acerca do período anterior ao Golpe de 1964 é que o presente dá as mãos com muita facilidade ao Juscelino Kubitschek, mas jamais ao João Goulart. Eu tenho uma questão sobre isso e uma hipótese. Durante a campanha presidencial, houve o gancho jornalístico da comemoração dos 100 anos de nascimento de JK. Isso suscitou entrevistas e todos os principais candidatos à Presidência disseram coisas parecidíssimas sobre o Juscelino. E o Lula, entre outras coisas, falou muito do Juscelino como um gerador de esperança, aquela velha interpretação de que foi um governo de conciliação entre estabilidade econômica e democracia, e uma promessa de um Brasil diferente. O Serra dizia: “ali começou a possibilidade de nós pensarmos em um Brasil maior, um Brasil grande”. Sobre João Goulart, naturalmente, todos silenciam. Eu procurei muito isso nesses últimos tempos e não encontrei uma referência das lideranças petistas em relação a João Goulart. Tem uma hipótese inicial bem simples: João Goulart é um perdedor no campo da memória, enquanto Juscelino Kubitschek acabou por tornar-se um vencedor. A minha hipótese é de que essa memória se articula justamente porque o Juscelino representa essa velha promessa de crescimento para depois nos depararmos com os confrontos sociais todos - que são tão fortes e tão permanentes - e que o Jango, não ele pessoalmente, mas aquele momento do governo dele anterior ao golpe é de confrontação muito forte. Essa confrontação ninguém quer herdar, ninguém quer se deparar com ela, ninguém quer lidar com ela, com o que ela representa em termos, até presentes, de nos confrontarmos com questões que permanecem de lá pra cá. Na questão da reforma agrária – não vou defender o projeto de reforma que estava ali naquela época, não se trata disso, ou de defender a figura do João Goulart, mas existe uma questão colocada, existe uma discussão pública a esse respeito - nós avançamos quase nada de lá pra cá.


Bernardo Kucinski - Acho muito interessante a pergunta que se faz, lá na Secom [Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica do governo federal], por exemplo: Como é que o Lula vai entrar na História? Você falou do Juscelino, você falou do Jango. Eu acho que o Jango entrou como um não-protagonista, no fundo, porque ele era um político menor. Ele dividiu, ele criou uma crise que o derrubou – não queria aceitar o parlamentarismo, ele mesmo derrubava os seus primeiros-ministros. Do ponto de vista do PT, ele representava uma tradição que nós nunca aceitamos, uma tradição do sindicalismo atrelado, instrumentalizado. O Juscelino era um político maior, eu acho, no sentido imagético, da sedução, do carisma, de somar...

Flávia - Da conciliação...

Kucinski - É, mas a conciliação em si não é um valor negativo, depende em cima do que você concilia. O desenvolvimentismo dele não tinha o sentido que tinha o do Getúlio, de industrializar, criar PIB [Produto Interno Bruto]. Ele tinha um sentido muito mais de emulação nacional. Tanto assim, que ele atuou nas mais diferentes áreas. Ele elevou a auto-estima do brasileiro.

Flávia - Mas essa visão do Juscelino é posterior também. O Juscelino não elegeu seu sucessor.

Kucinski - Claro que é posterior, mas não esqueça que eu sou muito antigo. Eu estive em Brasília quando eles estavam amarrando cavalos, com os tratores abrindo caminho.

Ricardo Zarattini - Não concordo com a consideração de que o João Goulart era um político menor. O João Goulart não caiu do governo pelos seus erros e sim pelos seus acertos, basicamente. O João Goulart vinha numa tradição getulista, em torno não só de atender às reivindicações dos trabalhadores. Uma das causas que levaram ao golpe contra Getúlio foi ter mantido João Goulart no Ministério do Trabalho e ter reajustado o salário mínimo em 100%. Tanto é que, se você examinar a curva histórica dos valores do salário mínimo, os índices mais elevados são exatamente naquela época do Getúlio e João Goulart como ministro do trabalho. João Goulart se dedicava bastante a questões sociais, como lideranças de trabalhadores. Essa discussão, se o sindicalismo era atrelado ou não, é relativa. Você tem o sindicalismo americano totalmente “livre”. Livre entre aspas, é controlado pelas máfias. Isso politicamente é o que interessa. Aquele sindicalismo de antes de 64, que eu vivi e conheci bem, politicamente tinha uma direção. Uma direção política de independência frente aos empresários. Tanto é que tinha conquistas que hoje nem a CUT, muito menos a Força Sindical, conseguem realizar. O João Goulart caiu mais pelos seus acertos do que pelos seus erros, porque ele colocava a questão nacional como a questão decisiva no seu programa de reforma de bases. A espinha dorsal desse programa de reforma de bases sempre foi criar uma economia nacional independente. A primeira vez que eu fui preso foi quando eu tinha dezesseis anos de idade, na Campanha do Petróleo é Nosso. O que se colocava na época - principalmente no que era a Globo da época, que era a rede dos Diários Associados, de Assis Chateubriand – é o seguinte: “Nós não temos petróleo. Se tivermos petróleo, não temos capital para explorá-lo, não temos tecnologia”. E dizia: “Isso é coisa de comunista!”. Todas essas coisas foram reprovadas pela história, porque nós demonstramos que tínhamos petróleo, que tivemos capital com a criação da Petrobrás – um projeto em que houve uma mobilização nacional muito grande – e tivemos tecnologia, tanto é que a Petrobrás é pioneira, é a mais avançada em pesquisa de petróleo em águas profundas. E não foi coisa de comunista, não! Participaram da Campanha do Petróleo vastos setores sociais. Não foram só trabalhadores, não. Até o Clube Militar participou. Vejam só o avanço: as reformas de base, a reforma agrária que o Jango propôs ao longo da Rio-Bahia e das grandes rodovias. Ele que queria retirar da Constituição o pagamento em dinheiro das indenizações das terras expropriadas. Foi João Goulart que promoveu a expropriação de refinarias nacionais, como a de Capuava [SP], para integrar mais o monopólio estatal do petróleo – ele queria fazer uma integração maior. Eu nunca vou dizer que ele foi um político menor, que ele foi despreparado pela questão eminentemente sindical.


Kucinski - Por que eu digo que o Jango, na minha opinião, foi um político menor? Porque ele herdou um sistema e poder criado por outros, por Getúlio, por Brizola. E, na verdade, o político que era realmente ativo na época era o Brizola. O Brizola foi quem encampou a primeira empresa americana no Brasil, por causa dele se criou uma lei no Senado americano de retaliação. Ele foi o único político brasileiro que conseguiu dividir o exército – dividiu, foi lá, enfrentou e dividiu! Na minha opinião ele foi o grande político do período. Ele também foi um grande governador – inovou no Rio Grande do Sul. Fez reforma agrária no Rio Grande do Sul. O Jango herdou e não se conformou com o Parlamentarismo. E passou a trabalhar ativamente para demonstrar que parlamentarismo era bagunça. Nomeava um primeiro-ministro, daí demitia.

Zarattini - Foram três primeiros-ministros até o plebiscito. Hermes Lima, Francisco da Rocha... Aliás, os três só foram caras de esquerda. Tancredo Neves foi o outro. Tancredo Neves era o mais moderado.

Kucinski - Aí entra essa relação. Ele precisava saber que o imperialismo estava de olho. Então essa não era uma política adequada – é aí que entra a estatura do político.

Flávia - A gente não teve uma tradição liberal, que não fosse golpista.

Kucinski - Mas como é que você quer uma tradição democrática num país que teve 400 anos de escravidão? Um país todo dividido em capitanias. Até hoje dividido, na verdade. São hoje 10 mil famílias que detém toda a terra no Brasil.

Zarattini - Sabe quem mandou no Brasil, de 1.500 até hoje? Foi o PFL [Partido da Frente Liberal] , com suas diferentes grifes.

Kucinski - Democracia não significa nada no Brasil. Ela não é uma cultura, ela não é uma tradição.

Flávia - Há uma ruptura institucional, mas a gente não consegue localizar uma ruptura política. Os autores políticos mais relevantes, ao que parece, estavam dentro de uma perspectiva bastante autoritária. Acho isso muito surpreendente. Nos debates anteriores ao golpe, são vários personagens chamando uma intervenção militar na política.

Zarattini - Mas não da nossa parte. João Goulart nunca chamou. Pelo contrário, nós nunca tivemos tantas liberdades democráticas como no período João Goulart. Não havia repressão a uma greve sequer.

Flávia - O período João Goulart permite um afloramento de confrontação muito mais do que o período JK. A posse de JK foi garantida por um chamado contra-golpe encaminhado por um militar - entre outros - como o Marechal [Henrique Teixeira] Lott [ministro da Guerra de Getúlio]. Depois, tem uma censura à imprensa que se refez durante todo o governo. No período Jango, a conflituosidade se expôs muito. No período JK, por exemplo, tentou-se aprovar uma Lei de Imprensa cerceadora, com uma força terrível, para conseguir algum equilíbrio, baseada num contraponto militar, que vimos durante todo o período. Eles foram chamados a ser agentes políticos de resolução de conflitos, periodicamente, durante todo o período democrático, até que o golpe acontecesse, efetivamente, em 64.

Zarattini - Mas se você analisar o golpe de 11 e 21 de novembro de 1955, não foram golpes reacionários, não. Foram golpes para garantir a democracia, porque o Café Filho [presidente do Brasil entre 1954 a 1955. Foi substituído por Carlos Luz (presidente da Câmara dos Deputados) em virtude de doença] não só ia acabar com a democracia como entregar o Brasil. Levou dez anos para eles darem de novo o golpe, em 64. Mas, eles ficaram dez anos tentando, essa é que é a verdade. E no período Kubitschek, se não fosse a pressão muito forte de um movimento sindical e da opinião pública, poderiam ter conseguido. Tem a famosa fotografia do Kubitschek estendendo a mão ao Foster Dulles [secretário de Estado dos EUA, que oficializou a presença da CIA no Brasil no encontro com JK, em agosto de 1958] quando veio aí. Ele pegou um ministro da Fazenda, o Lucas Lopes [ministro da Fazenda de JK em 1959], e queria fazer um plano de estabilização, tipo desses que são normais, hoje. Um plano altamente recessivo. O Lucas Lopes caiu porque houve uma grande reação contrária a esse plano que era eminentemente recessivo.

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