Política

Igreja não deve disputar cargos políticos, recomenda CNBB

25/06/2004 00:00

São Paulo - A Igreja católica nunca escondeu seu interesse pelo debate político “mundano”, transitando com desenvoltura pelas mais variadas colorações ideológicas ao sabor da conjuntura histórica e da correlação interna de forças. No Brasil, desempenhou um papel fundamental no apoio aos movimentos de resistência antes e durante os anos de chumbo, tanto através do trabalho das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da ação das pastorais sociais, como da posterior criação da Teologia da Libertação; mas também foi, muitas vezes, um alicerce do conservadorismo vaticano. Enfim, política é sim da conta dos religiosos, não há como negar.

Já a discussão sobre a participação de membros da Igreja na disputa de cargos eletivos é mais controversa. Na análise de conjuntura apresentada esta semana ao Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o assunto é abordado no contexto das próximas eleições municipais em um comparativo com a estratégia das várias igrejas evangélicas de investir na eleição de seus membros para fortalecer suas instituições.

Ao avaliar as relações de clientelismo e da cristalização da segregação social e política que ainda marcam os poderes locais, o documento sugere que “cabe [à CNBB] indagar sobre o significado de candidaturas para cargos políticos de pastores e até bispos de igrejas evangélicas, cuja teologia afirma ser o mundo lugar de perdição. (...) Os evangélicos de corte pentecostal vivem num universo religioso restritivo, onde convicções intransigentes os congregam numa mesma opção política e fazem das comunidades religiosas bases eleitorais praticamente independentes de partidos. Não questionam, por exemplo, os fundamentos da democracia, mas tampouco questionam regimes autoritários. Formam lobbies e juntam-se a quem conseguir pôr no poder um candidato portador de suas convicções”.

E prossegue: “Diante dessa situação, alguns setores católicos alegam ser necessário usar os mesmos meios para contrabalançar a influência dos evangélicos, e se propõem a mobilizar e agregar fiéis a candidatos que defendam os interesses da Igreja e seus princípios morais. Não percebem que isso desvaloriza a política enquanto campo autônomo de ação em favor do bem-comum”.

Segundo o autor do documento, o sociólogo Pedro Ribeiro, professor da Universidade Católica de Brasília e assessor da CNBB, o fortalecimento de instituições religiosas através do poder político, defendido por alguns setores mais conservadores da Igreja católica preocupados com o crescimento vertiginoso das igrejas evangélicas, é uma questão muito delicada.

“Para os evangélicos, não é problema utilizar cargos eletivos para beneficio próprio, como a obtenção de concessões de rádio, televisão ou vantagens financeiras. Já para os católicos, a ação política deve ser transformadora. Analisamos a realidade para saber se a conjuntura se aproxima de uma situação de justiça social, pregada pelo evangelho. Em caso afirmativo, há que se discutir o que fazer para fortalecer esta realidade. Em caso negativo, como a realidade pode ser alterada. É óbvio que a Igreja também faz lobby político, mas geralmente não é na defesa de interesses próprios, mas das idéias e dos setores da sociedade que apóia, como os movimentos sociais, a reforma agrária, a demarcação de terras indígenas”, diz Ribeiro.

Para o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e bispo emérito de Goiás, Dom Tomás Balduino, a indicação de candidatos “da Igreja” pela Igreja seria um retrocesso ao que acontecia nos anos 30 e 40, quando a Liga Eleitoral Católica (LEC) articulava candidatos religiosos nas disputas eleitorais exatamente na perspectiva de favorecer interesses da corporação, como escolas católicas e benefícios econômicos.

“Hoje, o empenho da Igreja é na defesa dos direitos humanos e da justiça social. Podemos sim apoiar políticos que assumam esse compromisso, mas há desconfiança quando o candidato é religioso; mesmo porque isso é proibido pelo direito canônico. É claro que existem vários religiosos (devidamente licenciados) que ocupam cargos políticos, mas nenhum deles se elegeu com a bandeira da Igreja. Ou seja, a ideologia, nesses casos, é a partidária e não a religiosa. Na verdade, toda essa discussão sobre eleições de representantes de uma ou outra confissão é religiosa e não política. É apenas uma disputa de fiéis, como a praticada pelo Padre Marcelo e sua religiosidade eletrônica”, afirma Dom Balduino.

Um detalhe importante neste debate, principalmente em época de eleições municipais, lembra Ribeiro, é que, nas pequenas cidades, o padre geralmente tem muito mais poder do que o prefeito. Segundo ele, é muito mais proveitoso que os “candidatos da Igreja” sejam leigos comprometidos com as idéias de transformação social do catolicismo ou lideranças comunitárias nascidas dos movimentos eclesiais e pastorais da Igreja. “Mas é claro que não podemos abandonar os candidatos e políticos ligados a nós. Dentro do movimento Fé e Política (pastoral que procura implementar o Evangelho r na realidade sócio-política-econômica na esfera nacional e local), há a proposta da CNBB de criação de uma escola de formação já no ano que vem, para apoiar esses atores. Este é o grande desafio”, explica o sociólogo.


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