Política

José Alencar critica juros altos e denuncia ‘economicismo’

25/06/2004 00:00

São Paulo – O vice-presidente José Alencar encerrou quinta-feira (24) seu último dia como presidente em exercício do país com um longo discurso contra os juros altos, o “economicismo” e a existência de “uma incrível força contra uma política desenvolvimentista brasileira”. Em sua intervenção no 3º Congresso da Associação Brasileira de Agribusiness, cujo tema deste ano é “Criando vantagens competitivas”, realizado em um hotel na capital paulista, Alencar disse que o Brasil perde competitividade no mercado internacional porque os custos do capital são muito altos aqui. 

O vice-presidente citou uma pesquisa da consultoria Global Invest que detalha o nível de juros de 40 países. “Do ponto de vista de PIB [Produto Interno Bruto] o Brasil está em 15º lugar. Mas quando se analisam os juros, a média aritmética desse indicador nos 40 países dá 1,5% ao ano como taxa básica real [juro nominal menos inflação], enquanto a nossa é estimada em 10% ao ano. Se separar os países desenvolvidos, a taxa média cai para 0,8%, e se pegar só os países emergentes, ela fica em 2,3% ao ano”, apontou.

Na mesma quinta, o Comitê de Política Econômica (Copom) do governo divulgou a ata de sua reunião da semana passada, quando decidiu manter a taxa básica da economia, a Selic, em 16% ao ano. O texto da ata destacou que a decisão foi tomada pelos riscos de aumento dos preços, pois o cenário externo têm gerado “uma volatilidade de curto prazo que tende a aumentar a incerteza em relação ao comportamento futuro da inflação”.

“Às vezes falam mal de mim porque eu contrario esse discurso de que não podemos baixar as taxas de juros porque volta a inflação. É um falso dilema que eu denuncio ao país”, disse Alencar, que retornou nesta sexta (25) ao posto de vice, após a volta do presidente Lula dos Estados Unidos.

O vice-presidente evitou fazer críticas diretas a integrantes da equipe econômica do governo brasileiro. Mas destacou que o Federal Reserve (FED), o banco central dos Estados Unidos, “tem como objetivo não apenas a política monetária de combate à inflação, com taxa de juros, e antes o aproveitamento da potencialidade econômica do país, com geração de empregos”.

Falando para uma platéia formada majoritariamente por executivos de empresas ligadas ao agronegócio brasileiro, o vice-presidente afirmou que o pagamento de “quase R$ 150 bilhões” em juros no ano passado retirou recursos da área de investimentos em infra-estrutura.

“Apesar da força de nossa agricultura e pecuária, temos contra nós o estado em que se encontram as estradas, a ausência de transporte ferroviário, o desaparelhamento dos portos. Então tem de haver investimento em infra-estrutura de transporte. Mas tem faltado recursos, ainda que a carga tributária seja das mais altas e tenhamos feito um superávit de quase R$ 70 bilhões em 2003. Mas tivemos R$ 150 bilhões para gastar com juros, um valor desproporcional em relação ao mercado internacional”, ironizou.

“Você compra um terreno, prepara o terreno, semeia, colhe, transporta, vai buscar mercado, vende seu produto e, no fim de um ano, é feito o balanço. Se der 5% de retorno sobre o investimento, você abre uma garrafa de cerveja e toma com os companheiros, comemorando. Mas aí chega um cidadão que milita no mercado financeiro, um consultor ou o que for, o diz assim: espera, esses recursos no over dariam 16%. É óbvio que essa coisa tem de mudar”.

O vice-presidente arrancou gargalhadas da platéia quando disse que a Coteminas (Companhia de Tecidos Norte de Minas), empresa têxtil da qual é dono e que é a maior do Brasil, não mantém economistas em seus quadros. “Sem nenhum desapreço aos economistas, mas o economicismo está nos prejudicando”, disse ele. O vice afirmou ainda alguns economistas assinam colunas na imprensa defendendo os juros altos porque “representam os sistemas de banca, até internacional, e se beneficiam com esse cenário”. Questionado sobre quem seriam esses economistas-articulistas, ele respondeu que “basta ler os jornais para saber”. 

Brizola
José Alencar discursou no congresso da Associação Brasileira de Agribusiness depois de comparecer ao velório de Leonel Brizola, em Porto Alegre. Ele elogiou o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. “Fui lá junto com senadores e deputados de vários partidos, como do PSDB e do PP, que a rigor nada tem a ver com Brizola, primeiro porque ele foi governador e nunca houve um arranhão a sua probidade, e isso é um exemplo; e, segundo, porque foi um nacionalista, que pode ter ficado retrógrado em alguma coisa, mas morreu nacionalista”, afirmou.


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