Política

José Dirceu defende que PT use tática ofensiva na campanha

28/05/2004 00:00

Rio de Janeiro – “Quero dizer à militância petista que ela pode e deve andar de cabeça erguida, que ela pode colocar a estrelinha no peito. Não temos que ter vergonha de defender o governo Lula. Devemos mostrar para a população o orgulho que temos deste governo”. Com energia e bom humor que há muito não se viam – chegou a bater continência para um pôster do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, apresentou quinta-feira (27) no Rio de Janeiro a nova tática de ofensiva do PT com vistas às eleições municipais deste ano.

Dirceu falou para uma platéia de petistas que lotou o auditório do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-RJ), durante um debate sobre conjuntura nacional organizado pelo diretório municipal do partido. O debate – que, na prática, foi o primeiro ato de campanha do candidato do PT à Prefeitura do Rio, Jorge Bittar – reuniu parte significativa da militância e se constituiu no cenário ideal para o ministro mostrar a nova tática do governo: comparar os números dos 18 meses de governo Lula com o desempenho do PSDB em seus oito anos.

Citando o otimismo despertado pelo anúncio do crescimento de 2,7% do PIB no primeiro trimestre de 2004, o ministro falou sobre a recuperação da indústria naval e da malha rodoviária, sobre desenvolvimento social e tecnológico e sobre as reformas agrária e universitária. Falou de economia, citando o saneamento de bancos públicos, a dívida pública e a taxa de juros. Falou também de política, quando procurou deixar claro que o governo Lula é um governo de coalizão, mas que o PT e ele próprio se mantém fiel aos seus ideais de esquerda.

A postura de Dirceu é um sinal de que o objetivo da cúpula petista é aproveitar a maré favorável, depois de longa e tenebrosa tempestade, para minimizar o descontentamento da militância com a política econômica do governo e animá-la para sair em campanha nos pleitos municipais, que serão decisivos para o partido. A reação da platéia mostrou que a tática pode dar certo, apesar de – malgrado os vários discursos da noite saudando a unidade do PT carioca – ter sido notável a ausência de qualquer quadro da chamada esquerda do PT no Rio, com a exceção do deputado federal Antonio Carlos Biscaia.

Sacrifício e espera
Dirceu conclamou a militância a “convencer a sociedade” de que o governo está no caminho certo, e que a cautela do momento atual é necessária para não comprometer todo o projeto petista: “Alguns querem que façamos imediatamente tudo aquilo que desejamos, mas nem sempre isso é possível. O tempo econômico não é igual ao tempo político e social, temos que mostrar às pessoas que esse sacrifício e essa espera serão compensados mais à frente. Toda vez, no Brasil, que se inventaram soluções rápidas por demagogia ou necessidade eleitoral, o povo e o país acabaram pagando um preço alto por quatro ou cinco anos. Não é isso que o governo do PT vai fazer, mesmo que tenha de arcar com um ônus político momentâneo como este, por exemplo, de fixar um aumento de apenar R$ 20 para o salário mínimo”, disse o ministro.

A retomada do crescimento da economia brasileira nos próximos anos será facilitada, na avaliação de José Dirceu, pela capacidade industrial e científica que o país já possui: “Temos capacidade de desenvolvimento tecnológico e temos indústrias de base. O Brasil produz tecnologia e pesquisa de ponta nos meios acadêmicos. Em todo o mundo, apenas 13 ou 15 países tem a capacidade de produzir maquinário pesado como o Brasil”. O ministro afirmou ainda que o país possui uma infra-estrutura de telecomunicações e energia “muito moderna” e elogiou a política para o setor elétrico desenvolvida pelo governo: “A nova modelagem do setor elétrico que fizemos já é uma revolução. O governo anterior praticamente conseguiu arruinar nossa capacidade de produção de energia”, disse.

Baixar juros e recuperar investimentos
Ao crescimento econômico, na opinião de Dirceu, o governo precisa aliar uma estratégia de desenvolvimento social, necessitando para isso produzir saldos comerciais positivos e acumular reservas: “A poupança que o governo faz para garantir a rolagem da dívida pública precisa começar a ser usada em investimentos”, disse o ministro, que ressaltou a importância de recuperar a capacidade de investimento dos bancos públicos: “O governo do PT restaurou o papel fomentador do BNDES, o que já é uma grande vitória. Outros bancos públicos, como o Banco do Nordeste Brasileiro e o Banco da Amazônia foram saneados e já estão voltando a fazer investimentos”, disse.

Reconhecendo que o país atravessa um momento de aumento do desemprego e queda da renda familiar, Dirceu defendeu a redução da taxa de juros sem, no entanto, fazer críticas a política econômica do governo: “Todos sabemos que é preciso baixar a taxa de juros, mas o caminho para isso não é fácil e precisa ser percorrido com cautela. O PIB negativo registrado no ano passado foi menor do que o de outros países na mesma situação e este ano já recuperamos o crescimento. Baixaremos a taxa de juros sempre que for possível. A imprensa parece que se esqueceu que a taxa era de 26% no final do governo anterior e agora está em 16%”, reclamou.

Sobre a reforma agrária, Dirceu afirmou se tratar de uma das prioridades do governo, e contestou as críticas pelo fraco desempenho nessa área: “Falam que só assentamos 36 mil famílias no primeiro ano de governo. Acontece que encontramos 350 mil famílias que foram assentadas pelo governo anterior sem as mínimas condições. Ou seja, além de assentar 36 mil famílias, o governo do PT ainda atendeu, concluindo seus assentamentos, as outras 350 mil”, disse. Outra reforma, a universitária, também foi lembrada: “Podem ter certeza que a reforma universitária vai ser feita pelos estudantes, professores e funcionários das universidades”, garantiu.

“Durmo tranqüilo”
Dirceu pediu calma à militância, lembrando que o governo Lula não é um governo única e exclusivamente do PT: “Esse governo é um governo de coalizão social que ultrapassa a esfera da esquerda. Nós, do PT e de outros partidos de esquerda, e quero dizer esquerda mesmo, viemos das classes populares e médias, e somos sua expressão. Fizemos uma aliança com setores empresariais que querem que o país avance e construímos uma maioria no Congresso, mas a esquerda tem apenas 30% do Congresso”, disse. O ministro também rebateu as críticas de direitizaçao da cúpula petista: “Eu continuo o mesmo. Falam que a gente é moderado, que a gente é de direita, mas eu durmo tranqüilo toda noite”, disse.

Provocado por um militante que afirmara que a saúde pública no Brasil era um caos, Dirceu respondeu de bate-pronto: “O Brasil inteiro está um caos, é muita coisa que pegamos pela frente para consertar. Por isso, é preciso ganhar as eleições de 2004 para continuar governando”, disse. O ministro afirmou que uma das principais falhas do governo e do PT no momento é a comunicação com a sociedade, e disse que cada candidato a prefeito e a vereador, assim como toda a militância, vai receber em breve vídeos e panfletos comparando os números do governo Lula com o governo anterior: “Eles querem comparar? Podem comparar a vontade, pois não tem autoridade moral para cobrar nada de nós. Nosso desempenho é melhor, por isso devemos e queremos prestar contas à sociedade”, disse.


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