Política

Lições da pandemia

 

12/09/2021 11:59

O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante depoimento para a CPI da Covid  (Sergio Lima/AFP)

Créditos da foto: O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante depoimento para a CPI da Covid (Sergio Lima/AFP)

 
Boaventura de Sousa Santos, em livro recente (O Futuro Começa Agora: da Pandemia à Utopia, 2021), enumera três alegorias sobre a Covid-19: o vírus como inimigo, mensageiro e pedagogo. A metáfora como inimigo responsabiliza o Estado pela propagação da doença. O problema é que abstrai o papel da sociedade civil, isto é, das famílias, associações e profissionais da saúde no combate à pandemia. Ademais, o epíteto de inimigo supõe uma guerra para exterminar o patógeno, quando na melhor hipótese se alcançará uma pacificação com a aplicação de vacinas e a geração de anticorpos.

A metáfora do mensageiro aponta o vírus como um embaixador performativo da natureza, que faz a tragédia acontecer pelo simples motivo de estar aí. A ameaça de morte trazida pelo temível arauto reside na própria presença. Mas muitos se recusam a prestar atenção no conteúdo das más novas, que ecoam o Juízo Final. Esse é o ruído da mensagem. Mais interessante é a metáfora do pedagogo, por reconhecer que os humanos e o vírus são uma cocriação da natureza. A doença não teria surgido e propagado sem o bedelho doHomo Demens nos processos naturais. O mundo atual é fruto da intervenção dominadora que acompanha a saga do capitalismo, com a bênção da Razão iluminista. Na tradição eurocêntrica, o poder colonialista e patriarcal engolfa tudo o que se afigura parte do planeta, o que inclui a dominação aos povos indígenas, aos escravos e às mulheres. Aqueles que reclamam da contaminação pandêmica são os que, há séculos, infectam o meio ambiente. O rompimento da cadeia ecológica, agora, cobrou a conta.

Apenas com o trabalho de intersecção dos saberes orais, indígenas, africanos, camponeses, feministas e populares serão forjadas as ferramentas para o entendimento do que, hoje, espalha o terror. O pedagogo virulento remete à autocrítica pelo narcisismo de uma espécie que se acha o umbigo do universo. Os ideais do modo de vida cotidiana, na modernidade, assentam-se na falsa suposição de recursos inesgotáveis para compensar o consumismo que transformou o lixo das cidades em uma espiral lucrativa e, os catadores de materiais recicláveis, em profetas do Primeiro Testamento por indicarem caminhos alternativos ao desperdício. A realidade mostra que a insustentável produção de insatisfações da sociedade de consumo - conduziu à distopia de uma racionalidade que carrega ameaças ainda mais apocalípticas que o Coronavírus. Como na incontornável epígrafe de José Saramago (Ensaio sobre a Cegueira, 1995): “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

Em vários países (Índia, Hungria, Colômbia, Brasil), o tratamento errático da pandemia deveu-se à falta de vontade política e direcionamento centralizado contra a disseminação viral. Nesse ambiente descoordenado, o negacionismo das autoridades incitou a desqualificação do conhecimento, da ciência e dos alertas emitidos pelo desequilíbrio ambiental. A Pós-Verdade (Oxford Dictionary) sobrepujou la verità effetuale della cosa, para evocar a expressão do florentino Niccolò Machiavelli (1489-1527). A explosão de óbitos, na ausência da logística eficaz de imunização, foi o preço a pagar. Ignorou-se o fato elementar de que não existimos, coexistimos na Terra. Não nos relacionamos só com pessoas e pets, senão com o solo, a água, o ar e a biodiversidade. Não espanta a catástrofe climática e florestal que aflige os insensatos hemisférios. Noutras palavras, a crítica ao comportamento dos governos não deve obscurecer as questões de fundo:

1) Relativas ao passado recente. Sob o mantra do Consenso de Washington (1989), prevaleceu no período “a segurança jurídica para direitos de propriedade privada”. Houve um sequestro da vida em escala internacional pela economia da saúde. Nem o espectro de supressão iminente do ato básico de respirar sensibilizou os laboratórios, embora os Médicos Sem Fronteiras lutassem pela quebra de direitos autorais das descobertas vacinais, que tornaram o monopólio das patentes um comércio bilionário. Cabe à Organização das Nações Unidas (ONU) sopesar o poder em mãos das Big Pharmas e;

2) Relativas ao futuro próximo. A crise sanitária mostrou ser inadiável o desenvolvimento da cadeia produtiva de vacinas, respiradouros, insumos farmacêuticos ativos e UTIs para o SUS. Investimento que representa para o Brasil o que o petróleo significou nos anos 50, por atender demandas sociais e ambientais, de tecnologia e inovação. É a oportunidade de entrar na quarta revolução tecnológica (industrial, infraestrutura, energia, saúde) pela porta da frente. União Europeia, Estados Unidos e Rússia já decidiram romper a dependência do mercado externo, em áreas como a saúde. O futuro acena pragas intermitentes, para as quais é preciso se preparar. Conscientes de que, à equação nacional, soma-se o enfrentamento das desigualdades de classe em busca da “boa sociedade”. Quem vai, quem vem.

Luiz Marques é docente da UFRGS e ex-Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul

Conteúdo Relacionado