Política

Marx 200: Carney, Bowles e Varoufakis

As ideias de Marx continuam sendo relevantes no Século XXI, tanto quando no XIX. Mas compreendê-lo não basta. Como recorda o epitáfio de sua tumba: 'os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo, de diversos modos, mas o importante é saber transformá-lo'

11/05/2018 10:27

 

 
Por Michael Roberts
 
Com o aniversário de 200 anos do nascimento de Marx, apareceram uma série de conferências, artigos e livros sobre o seu legado e sua relevância atual, incluindo a minha própria contribuição. O mais interessante foi sido um discurso pronunciado na semana passada pelo presidente do Banco de Inglaterra, Mark Carney, em sua terra natal, o Canadá.

Nesse discurso, na “Cúpula do Crescimento”, do Foro de Políticas Públicas de Toronto, Carney propôs uma provocação, declarando que o marxismo poderia voltar a se tornar uma força política importante no Ocidente.  “Os benefícios da primeira revolução industrial, segundo a perspectiva de um trabalhador comum, não foram sentidos plenamente na produtividade e nos salários até a segunda metade do Século XIX. Se substituíssem as fábricas têxteis por plataformas, máquinas a vapor por máquinas inteligentes, o telégrafo pelo twitter, teríamos exatamente a mesma dinâmica que existia naquele tempo em que Karl Marx escreveu o Manifesto Comunista”.

Assim como na primeira revolução industrial, no Século XIX, quando a Grã-Bretanha liderou o processo que levou à desaparição dos empregos tradicionais e manteve baixos os salários reais durante uma geração, nas duas primeiras décadas do Século XIX, na atual Longa Depressão a nível mundial, com a chegada dos robôs e da inteligência artificial, uma nova revolução industrial ameaça destruir os postos de trabalho e os meios de vida das pessoas.

Em 1845, Engels escreveu: “a situação da classe operária na Inglaterra descreve a miséria e a pobreza engendradas pela substituição do trabalho manual por máquinas e como elas deprimiram as rendas reais dos trabalhadores”. Agora, segundo Carney, o marxismo poderia voltar a ser relevante diante de uma nova onda “pró capital” – ou seja, um aumento da participação das máquinas, em detrimento do uso da força do trabalho humanos.

A automatização não só pode destruir milhões de postos de trabalho. Para todos, exceto uma minoria privilegiada de trabalhadores de alta tecnologia, o colapso da demanda de mão de obra poderia deprimir os níveis de vida durante décadas.

Sem perceber, Carney estava reiterando lei geral da acumulação capitalista, exposta no Volume I de O Capital (capítulo 25), escrito há cerca de 160 anos por Marx, no sentido de que a acumulação capitalista se expandiria e favoreceria a mecanização, para substituir o trabalho humano, mas que isso não levaria automaticamente a níveis de vida melhores, menos esforço e mais liberdade para o trabalhador, e sim, sobretudo a uma pressão para baixar a renda real, não só para os que perdem seus empregos pela mecanização, como em por todos. Também daria lugar a um aumento do esforço realizado, mas sem melhorar a economia dos trabalhadores com emprego, ao mesmo tempo em que deixaria a milhões de pessoas numa situação de “emprego precário”: um exército de reserva de mão de obra que o capital pode explorar ou jogar fora, segundo as necessidades do ciclo de acumulação.

A previsão de Carney, de que a revolução robótica provocará perdas massivas de emprego, tem um importante respaldo empírico. Entretanto, como já disse Marx em O Capital, não se produz somente uma destruição do emprego. A tecnologia também cria novos postos de trabalho, aumenta a produtividade do trabalho, e, em função da correlação de forças na luta de classes entre o capital e o trabalho, pelo valor criado, as rendas reais também podem crescer. Isso acontece nos períodos nos quais a rentabilidade aumenta e mais mão de obra se incorpora ao mercado de trabalho.

Claro, este lado “positivo” da acumulação capitalista é o que a teoria da economia dominante gosta de difundir, contrariando as preocupações de Carney. Por exemplo, o economista Paul Ormerod se refere à opinião de Carney sobre a relevância de Marx. Do seu ponto de vista, Marx “estava completamente equivocado numa questão fundamental: pensava, com razão, que a acumulação de capital e o avanço da tecnologia provocariam o crescimento a longo prazo da economia. Entretanto, acreditava que a classe capitalista expropriaria todos os lucros. Os salários permaneceriam perto dos níveis da mera subsistência: “a pauperização da classe operária”, como a chamou Marx.

Aliás, segundo Ormerod, “os níveis de vida experimentaram uma melhora generalizada no Ocidente desde meados do Século XIX. As horas de ócio vem se incrementando de forma espetacular e, longe de serem obrigados limpar chaminés a partir dos 3 anos, os jovens de hoje não se incorporam à força de trabalho antes dos 18 anos”.  Ao parecer, a prosperidade está na ordem do dia “em cada caso que uma economia inicia o crescimento econômico sustentado pelas economias capitalistas de mercado, desde o começo do Século XIX, na Inglaterra, até o final do século XX, na China. Uma vez que existem, os frutos do crescimento são amplamente compartilhados“.

Há vários aspectos que já abordei em notas anteriores. Em primeiro lugar, Marx não defendeu uma teoria de “salários de subsistência”. Com relação ao argumento de que o capitalismo tirou todo o mundo da pobreza e acabou com a miséria, é uma ideia cheia de falhas. Tenhamos em conta que Ormerod fala de “uma melhora generalizada no Ocidente”, portanto ignora as bilhões de pessoas que vivem fora do “Ocidente” e que permanecem na pobreza, seja qual seja a definição desta.

E, contrariando a opinião de Ormerod (como a de Keynes, antes dele), o auge da tecnologia no capitalismo implicou numa grande redução de trabalho. A maioria das pessoas no “Ocidente” continua tendo jornadas de trabalho (em horas por ano) similares às das décadas de 1880 ou 1930, podem trabalhar menos horas por dia em média e ter livres (alguns) sábados e (alguns) domingos, mas ainda assim trabalham 1,8 mil horas por ano, e trabalham durante muito mais tempo – em geral 50 anos, aproximadamente.

Ormerod também defende que a desigualdade da renda e a riqueza não está piorando, e que a participação do trabalho na renta nacional deixou de diminuir, ao contrário do que defende Carney. Entretanto, há uma enorme quantidade de provas de que a relação entre aumento da riqueza e desigualdade da renda não está melhorando tanto a nível mundial.

Ormerod tem razão, contudo, ao questionar o modelo enviesado de capitalismo de Carney. A participação do trabalho no valor total criado pode subir e cair em diferentes períodos, em função da correlação de forças entre as classes e suas consequências no processo de acumulação, e o próprio Carney admite que os salários reais não só se estancaram na primeira Revolução Industrial, assim como atualmente, como também nos anos entre 1850 e 1860, e no último terço do Século XX. Logo, não se trata só da tecnologia. O atual estancamento dos salários reais no Reino Unido e nos Estados Unidos é mais consequência da Grande Depressão dos últimos dez anos que dos robôs ou da inteligência artificial, que apenas começou a ter um impacto (o crescimento da produtividade do trabalho é baixo ou está se desacelerando na maioria das economias). A rentabilidade do próprio capital e da força dos trabalhadores na luta pelo valor criado são mais relevantes.

Infelizmente, não são só os economistas ortodoxos que distorcem ou rechaçam a teoria econômica de Marx. Num artigo para o periódico Vox, o eminente e veterano economista marxista Sam Bowles escreve sobre o legado das ideias econômicas de Marx para descarta-las. Está de acordo com a opinião de Keynes de que O Capital é “um libro de texto de economia obsoleto: não só é cientificamente errôneo, sequer é interessante ou aplicável no mundo moderno” (Keynes, 1925). E está de acordo com o guru da economia ortodoxa da década de 1960, Paul Samuelson, que “desde o ponto de vista da teoria econômica pura, Karl Marx pode ser considerado como `o economista mais superestimado de todos os tempos´” (Samuelson, 1962).

Bowles considera que a teoria do valor do trabalho de Marx foi “pioneira, mas inconsistente e antiquada”. De acordo com Bowles, a teoria como representação de um sistema geral de intercambio e a tendência decrescente da taxa de lucro “não resolveram os problemas teóricos mais destacados da sua época, mas antecipou problemas que mais tarde seriam abordados matematicamente”. Bowles acredita que a teoria econômica dominante, em particular, o marginalismo neoclássico, foi capaz de solucionar os erros de Marx, substituindo sua teoria do valor, e isso também implica em abandonar a ideia da propriedade social dos meios de produção a favor do modo capitalista: “as economias públicas modernas, o desenho de mecanismos e a teoria da eleição pública também questionam a noção – comum entre muitos marxistas atuais, embora não desenvolvida pelo próprio Marx – de que a governança econômica sem propriedade privada nem mercados poderia ser um sistema econômico viável”.

Ao parecer, tudo o que resta do legado de Marx é o que Bowles chama de “despotismo no ambiente de trabalho”, a natureza exploradora da produção capitalista, que não se deve à exploração da força de trabalho para se apropriar da mais valia e sim da “estrutura de poder”, que faz com que os magnatas e os gestores tenham a batuta sobre os servos-trabalhadores. Portanto, tudo o que nos resta é uma teoria política (e inclusive não tem muito a ver com a teoria política de Marx, para o caso) porque as ideias econômicas de Marx são “antiquadas” ou errôneas.

Analisando todos os argumentos de Bowles (e os de Keynes e Samuelson) em diferentes notas no passado, em comparação com os argumentos que apresento em meu último livro (“Marx 200”), é possível demonstrar que a teoria do valor de Marx é lógica, consistente e está respaldada empiricamente. Inclusive, proporciona uma explicação convincente do movimento relativo dos preços no capitalismo, embora esse não fosse seu principal objetivo, que era mostrar a forma particular na que o modo de produção capitalista explora a mão de obra humana com fins de lucro, e porque esse sistema de exploração tem contradições inerentes que não podem ser resolvidas sem a sua a abolição.

Por outra parte, a crítica marxista do capitalismo se baseia na economia e leva à ação política revolucionária, por isso não é (só) uma crítica moral do “despotismo” no ambiente de trabalho ou em qualquer outro lugar. A economia de mercado (o capitalismo) não pode favorecer o pleno desenvolvimento do potencial humano, porque o despotismo no ambiente de trabalho é em si mesmo um produto da exploração do trabalho pelo capital.

O economista grego Yanis Varoufakis fez um longo artigo sobre o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels para promover sua nova introdução a essa obra magistral. Varoufakis destaca uma mensagem importante do Manifesto: que o capitalismo é o primeiro modo de produção que se tornou global. Ele acredita que esse processo só chegou a esse ponto com a queda da União Soviética e outros estados “comunistas”, o que bloqueava a globalização. É provavelmente um exagero. O capitalismo, desde o princípio, buscou se expandir a nível internacional (como Marx e Engels explicam no próprio Manifesto Comunista). Depois do fim da depressão dos Anos 1870 e 1880, se produziu uma expansão surpreendente do capital em todo o mundo, expansão que agora é chamada de “imperialismo”, a partir dos fluxos de capital e comércio.

Embora reconheça corretamente o poderoso efeito do capitalismo a nível mundial, Varoufakis também insiste em seu lado obscuro: a alienação, a exploração, o imperialismo e o despotismo: “embora celebrem que a globalização tenha tirado milhões de pessoas da pobreza extrema, para situá-las num nível de pobreza relativa, veneráveis jornais ocidentais, estrelas de Hollywood, empresários de Silicon Valley, bispos e até multimilionários lamentam suas consequências menos desejáveis, como a insuportável desigualdade, a cobiça descarada, a crise climática e o sequestro das nossas democracias parlamentares por parte dos banqueiros e dos super ricos“.

E, contrariando a opinião dominante convencional, Varoufakis sustenta que Marx e Engels tinham razão ao dizer que a luta de classes no capitalismo se pode resumir numa batalha entre o capital e o trabalho. “A sociedade em seu conjunto”, argumenta, “se polariza cada vez mais em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam diretamente”. Na medida que se mecaniza a produção e a margem de benefício dos proprietários de máquinas se torna o principal motor de nossa civilização, a sociedade se divide entre os acionistas que não trabalham e os assalariados não possuem. Já as classes médias são como os dinossauros, condenadas à extinção”.

E entende que o capitalismo deve ser substituído, não modificado ou reformado em seus defeitos. “É nosso dever acabar com a velha noção dos meios de produção privados e forçar uma metamorfose, que inclua a propriedade social de maquinária, terras e recursos. Só através da abolição da propriedade privada dos instrumentos de produção em massa e sua substituição por um novo tipo de propriedade comum, que funcione em sincronia com as novas tecnologias, será possível diminuir a desigualdade e encontrar a felicidade coletiva“.

Varoufakis reconhece a “irracionalidade” do capitalismo como um sistema para o progresso e a liberdade humanas, mas este confesso “marxista errático” não desenvolve a explicação material desta irracionalidade, além da crescente desigualdade e incapacidade para utilizar as novas tecnologias em benefício de todos. O capitalismo também sofre crises periódicas e recorrentes de produção, que destroem e desperdiçam valor criado pelo trabalho humano. Esta crise de “super produção”, específicas do capitalismo, é o que faz, regularmente, retroceder o desenvolvimento humano. Este aspecto da irracionalidade do capitalismo não aparece no artigo de Varoufakis, embora Marx e Engels se refiram expressamente a ele no Manifesto Comunista. Basta recordar a surpreendente passagem do Manifesto Comunista, em que começam por explicar que “preocupada com a necessidade de dar cada vez maior saída aos seus produtos, a burguesia recorre ao mundo inteiro”, e termina “criando crises mais extensas e mais violentas, diminuindo os meios de preveni-las”.

Uma teoria sobre as crises é importante. As pessoas podem lidar com o aumento das desigualdades, da pobreza relativa e inclusive das guerras, sempre que as coisas melhorem gradualmente ano após ano, sem interrupção. Mas a melhora gradual do nível de vida não é possível devido a que o capitalismo tem crises sistêmicas regulares e frequentes na produção, no investimento e no emprego, o que leva a supor depressões que duram uma geração, como demonstram os quadros de Carney. É uma característica fundamental da irracionalidade do capitalismo.

As teorias econômicas de Marx podem ser descartadas ou questionadas, o que é natural num debate que busque a verdade. Entretanto, quando se analisa cada argumento crítico a elas, se pode encontrar sua debilidade. As leis da dinâmica do capitalismo de Marx, a lei do valor, a lei da acumulação e a lei da rentabilidade ainda proporcionam a melhor e mais convincente explicação sobre o capitalismo e suas contradições inerentes. E não me refiro à grande contribuição de Marx e Engels à compreensão do desenvolvimento histórico humano – a concepção materialista e à história da luta de classes – que se encontram na base das ações humanas. “Os homens fazem sua própria história, mas não o fazem por livre arbítrio, sob circunstâncias escolhidas por eles mesmos, e sim sob aquelas circunstâncias nas que se encontram diretamente”.

Como diz o Manifesto (e que Varoufakis ecoa em seu artigo), o capitalismo desenvolveu as forças produtivas do trabalho humano a níveis sem precedentes, mas dialeticamente também levou a novos ápices de depravação, exploração e guerras a escala global. O legado de Marx é mostrar porque isso acontece e porque o capitalismo não pode perdurar se a sociedade humana deseja avançar na direção do “livre desenvolvimento de cada um” como “condição para o livre desenvolvimento de todos”. As ideias de Marx continuam sendo relevantes no Século XXI, tanto quando no XIX. Mas compreendê-lo não basta. Como recorda o epitáfio de sua tumba, no cemitério de Highgate, em Londres: “os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo, de diversos modos, mas o importante é saber transformá-lo”.
 
Michael Roberts é um reconhecido economista marxista britânico e que publica o blog The Next Recession



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