Política

Morte de Brizola é símbolo de um país que deixou de existir

A vida e a trajetória política do líder trabalhista deixam ensinamentos para entender a realidade do país. Ensinamentos sobre a história do Brasil, sobre a luta da esquerda para tentar construir uma nação diferente e sobre fatores que ajudam a explicar o fracasso dessa luta

22/06/2004 00:00

(Ricardo Chaves/Arquivo pessoal)

Créditos da foto: (Ricardo Chaves/Arquivo pessoal)

 

Porto Alegre - Quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República, anunciou que um dos principais objetivos de seu governo seria o de enterrar a era Vargas e seus arcaicos projetos desenvolvimentistas. Os oito anos do período FHC cumpriram boa parte dessa agenda e a idéia de um projeto nacional de desenvolvimento foi soterrada por uma política que apostou nas privatizações e na abertura da economia ao mundo globalizado. Os capitais abundantes desse admirável mundo novo levariam o país, segundo a intelectualidade do PSDB, à modernidade exigida pelo final do século XX. Brizola foi uma das principais personagens desse período que FHC quis – e, em grande medida, conseguiu – enterrar. Ironicamente, no final de seus dias, Brizola costurava alianças com esses setores da política nacional que elegeram o fim da era Vargas como objetivo estratégico. Esse capítulo final de sua vida não é representativo de sua história de luta contra as oligarquias nacionais que se opuseram, política e militarmente, ao reformismo trabalhista e a qualquer projeto de transformação da estrutura de poder econômico no Brasil.

O simbolismo da morte de Brizola é rico por diversas razões. O desaparecimento do último grande símbolo da era Vargas sugere o triunfo do projeto de FHC, triunfo esse reforçado pela metamorfose ambulante que caracteriza os primeiros dezoito meses do governo Lula. A manutenção dos fundamentos da política econômica do governo que elegeu como meta o enterro da era Vargas reforça a percepção de que a intelectualidade antidesenvolvimentista venceu, afinal. A morte de Brizola surge como símbolo mais visível de uma era que chegou ao fim. O trabalhismo, como expressão política organizada, deixou de existir há um bom tempo. A perda da sigla PTB foi apenas um dos primeiro sintomas dessa derrocada. A alternativa do PDT luta para se manter em pé, em meio a uma desintegração programática cada vez mais evidente. No berço do trabalhismo, o Rio Grande do Sul, o PDT foi progressivamente perdendo espaço para o PT, razão que explica, em boa parte, o virulento antipetismo que tomou conta do partido. Antipetismo que justifica alianças com PSDB e PFL, principais artífices do projeto de pôr um fim à era Vargas.

Quem será o herdeiro de Brizola? Essa pergunta encontra um grande silêncio como resposta, pela singela razão de que o herdeiro simplesmente não existe. A constatação pode parecer cruel mas todas as evidências conspiram a seu favor. Muitos, certamente, se candidatarão ao posto, sem ter, porém, envergadura histórica e programática para levar em frente um projeto cada vez mais desfigurado pelo pragmatismo eleitoral e pela flacidez histórica. Nada mais distante da postura média dos trabalhistas atuais do que a conduta de Brizola na campanha da legalidade e no movimento de resistência ao golpe de 64. A ditadura militar desferiu um duro golpe no trabalhismo e a oposição que surgiu, no movimento de resistência a ela, já não tinha a cara da era Vargas. É sintomático que os dois principais partidos hoje no país, PT e PSDB, saídos desse movimento, sustentem, em suas linhas mais gerais, um mesmo modelo econômico, com diferenças cujos contornos ainda estão por ser melhor definidos.

O que parece definido é que o trabalhismo, enquanto articulação programática com um projeto de país, é uma página virada na história brasileira, o que não implica dizer que não deixa influências, repercussões aqui e ali. Deixa influências em setores da esquerda brasileira que travam hoje, no interior do governo Lula, uma árdua disputa pela construção de um projeto nacional de desenvolvimento. Deixa repercussões pelo exemplo deixado, na trajetória de homens como Leonel Brizola, que, em vários momentos, assumiu posições de enfrentamento contra a elite econômica do país. Posições de enfrentamento cada vez mais raras e dissimuladas em discursos e práticas que mal conseguem esconder a ausência de um compromisso mais consistente com um projeto de médio e longo prazo para o país.

A vida e a trajetória política de Leonel Brizola deixam ensinamentos, sem dúvida. Ensinamentos sobre a história do Brasil, sobre a luta da esquerda para tentar construir um país diferente e sobre os fatores que explicam o fracasso dessa luta. De Brizola, pode-se dizer tudo, menos que não tenha sido um homem corajoso e lutador, um político passional, que fazia política com as vísceras, o que explica, inclusive, muitas contradições de sua trajetória mais recente. A consideração dessa trajetória mais recente, sem a devida perspectiva histórica, pode obscurecer os traços mais significativos de um período marcante da história do país no século XX. Para além de todos os necrológios, obituários e elegias que já começaram a ser feitos, por amigos, aliados e adversários históricos, é preciso olhar para essa vida como um todo e tomá-la no período histórico em que ela se desenrolou.

Esse período histórico chegou ao fim, já há algum tempo. A era Vargas chegou ao fim, o trabalhismo sofreu uma metamorfose radical, assumindo hoje uma cara de múltiplas faces. A vida de Brizola, lida com perspectiva histórica, pode ajudar a entender a gênese e a evolução dessa metamorfose. Pode ajudar a entender novas metamorfoses em andamento no cenário político nacional. A morte de uma figura histórica dessa magnitude impõe um enorme silêncio respeitoso que possibilita um olhar mais atento sobre a história e a realidade política do país. O silêncio e a reflexão que a morte de Brizola propicia não devem ser desperdiçados e reduzidos a obituários. A maior homenagem que se pode fazer à sua vida é transformá-la em alimento permanente para a memória e para a história. Um alimento capaz de nos ajudar a entender os fracassos e retrocessos de um país que insiste em voltar às costas para o seu povo. Capaz de romper o péssimo hábito de transformar a memória e a história em notas de rodapé de uma narrativa desfigurada. E são justamente elas, a memória e a história, os principais legados que Brizola deixa para o país.

Descanse em paz com a promessa de que muitos não descansarão em tornar realidade as palavras expressas na Carta de Lisboa, em 1979: “A experiência histórica nos ensina, de um lado, que nenhum partido pode chegar e se manter no governo sem contar com o povo organizado e, de outro lado, que as organizações populares não podem realizar suas aspirações sem partidos que as transformem em realidade através do poder do Estado”.

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