Política

O Brasil jogado ao abismo pelo PMDB

A história não perdoará um partido que jogou fora sua história e está jogando o Brasil num abismo!

30/03/2016 00:00

Igo Estrela / PMDB

Créditos da foto: Igo Estrela / PMDB

A confirmação da saída do PMDB do Governo Dilma, rompendo aliança com o PT, encerra um conjunto drástico de lições. Embora não haja um único PMDB, e sim várias facções, o fato é que majoritariamente o partido aderiu ao golpismo. Como a velha figura da “raposa guardando o galinheiro”, sequer se empenhou em assegurar a aura de “guardião” do Estado de Direito Democrática. Afinal, não apenas o vice-presidente da República tem liderado, há muito, o golpismo, como está umbilicalmente articulado à triste figura de Eduardo Cunha, cujos predicados são sobejamente conhecidos.
 
Como compreender esse movimento e quais implicações poderá ter:
 
1. A postura do PMDB está em sintonia com as classes médias conservadoras altamente mobilizadas – para não dizer fascistas. Há claras identificações ideológicas, até então pouco visíveis, entre expressivos segmentos do partido e as classes médias ressentidas com o aumento da igualdade social no país, caso dos profissionais liberais representados pela OAB, pelo Conselho Federal de Medicina, entre outros.

2. A “agenda do PMDB” (intitulada “Agenda para o Futuro” e “Agenda Renan”) implica diminuir direitos sociais/trabalhistas, privatizar setores importantes do patrimônio público (a começar pelo pré-sal), e abrir-se ao rentismo.

3. A associação com a oposição – igualmente golpista, isto é, PSDB, DEM E PPS – tem como agenda econômica o neoliberalismo e o retorno à não soberania das relações Norte/Sul.

4. Muito além do oportunismo de figuras individuais, o PMDB congrega interesses de setores empresariais (capital estrangeiro, capital nacional em associação com capital estrangeiro, rentismo) e sociais (as aludidas classes médias conservadoras).

5. A saída do governo, inclusive antecipando-se à data de 12 de abril, originalmente marcada, objetiva sitiar o Governo Dilma e induzir que outros partidos façam o mesmo.

6. Em associação com a oposição, o PMDB saberá como nunca, em razão da parceria com o PSDB, esvaziar a Operação LavaJato, cuja perseguição será circunscrita ao PT, Dilma e Lula.

7. O PMDB quer se transformar no Partido Revolucionário Institucional (PRI), que dominou o México por 50 anos, o que implicou verdadeira ditadura no interior de um regime “formalmente” democrático. Tentará fazê-lo por meio da aliança com os partidos conservadores, com setores do Judiciário, da PF e da mídia.

8. O golpe, do qual o PMDB é protagonista, aparenta-se com o estilo paraguaio de derrubar presidentes, caso de Fernando Lugo.

9. A polarização produzida na sociedade brasileira, com a direita raivosa nas ruas, é resultante de um conjunto de arbitrariedades, entre as quais Moro, Judiciário (ora faccioso, ora acovardado), PF partidarizada, e Mídia golpista e manipuladora...e PMDB golpista. Tudo isso com financiamento internacional de grupos cujo objetivo é desfazer a autonomia e independência obtidas pelo Brasil na última década e meia. Tal polarização nos levará à experiência venezuelana, com graves consequências sociais.

10. O PMDB encerrará assim – de forma trágica – sua participação na vida política brasileira: do partido da oposição consentida pelos militares ao partido golpista da democracia. Do partido defensor de direitos políticos, sociais, trabalhistas e civis, ao partido que congrega a direita reacionária. Do partido da negociação política ao partido que está contribuindo para incendiar a sociedade brasileira. Nesse sentido, Michel Temer passará para a história como o constitucionalista que esmagou a Constituição!
 
Tudo isso terá consequências que poderão durar décadas. A história não perdoará um partido que jogou fora sua história e está jogando o Brasil num abismo! A conflagração social está claramente no horizonte caso o golpe se confirme.
 
Embora ainda seja possível barrar o golpismo, houve clara aceleração do tempo histórico!
 
Resta às forças legalistas, progressistas, democráticas e de esquerda – em todos os âmbitos e esferas – mostrarem ao sistema político, às instituições e aos reacionários que “não passarão”!

 

Prof. de ciência política da FGV/Eaesp e PUC/SP

Conteúdo Relacionado