Política

O fantasma de Carmen Miranda assola Michel Temer

O fantasma de Carmen Miranda sobrevoa a imagem internacional do golpe, que é visto pela mídia internacional como o enredo de uma república das bananas

24/04/2016 00:00

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Créditos da foto: reprodução

O fantasma de Carmen Miranda sobrevoa o impeachment. Nos Estados Unidos, a presidenta brasileira acusou seu vice, Michel Temer, de golpista, embora sem mencioná-lo diretamente, e prometeu denunciar o caso ao Mercosul se o processo avança. O impeachment começará a tramitar esta semana no Senado, após ser aprovado por ampla – e circense – maioria na Câmara dos Deputados, no domingo passado.
 
“Vou a invocar a cláusula democrática (do Mercosul), isso é inexorável, se ocorrer a ruptura do processo democrático, eu vou denunciar isso”, afirmou Dilma, na primeira menção explícita de sua intenção de levar o caso a foros internacionais.
 
Disse isso em meio a uma roda de imprensa em Nova York, pouco depois de pronunciar um discurso diante de presidentes e representantes de 170 países, nas Nações Unidas, no qual fez alusão ao risco de um “retrocesso” do regime democrático.
 
No Palácio do Planalto, confiam em fazer valer a legitimidade de Rousseff no plano internacional, sendo ela eleito com 54 milhões de votos, tendo que enfrentar agora um anômalo processo destituinte, que pode levar Michel Temer a encabeçar um novo governo. Temer, na última vez que foi candidato a deputado, em 2006, obteve menos de 100 mil votos, e algumas pesquisas recentes mostraram que ele possui menos de 2 % de aprovação.
 
Não se pode esquecer que a mandatária já recebeu o respaldo da OEA, da Unasul, da Corte Interamericana de Direitos Humanos e da Comissão Econômica para a América Latina, ligada à ONU.
 
A surpreendente visita à ONU foi atacada pela oposição, que denunciou uma “campanha” do PT e de Dilma para desprestigiar o país, enquanto fontes próximas a Temer admitiram a “preocupação” sobre a imagem ruim do impeachment nos meios estadunidenses e europeus.
 
Alarmado pela vergonha internacional, o diário O Globo comparou as denúncias presidenciais com a propaganda nazista, e o colunista Merval Pereira exclamou numa rádio que “Dilma prejudica a nossa imagem, é uma irresponsável”.
 
O jornalista do maior grupo de comunicação latino-americano afirmou que “fazer com que se fale de golpe nas Nações Unidas nos coloca à altura de um país terceiro-mundista, um país africano. Nos mostra como se fôssemos uma republiqueta bananeira”.
 
Na sexta-feira à tarde, em Nova York, a presidenta contra-atacou. “Disseram que eu vim à ONU para falar mal do Brasil, e eu vim para dizer a verdade, creio que tenho o direito de me defender… a precipitação deles (opositores) demonstra o quanto temem ser tachados como golpistas. E sabem por que temem? Porque são”.
 
Enquanto o plano de derrubada da presidenta avança e se torna praticamente irreversível, as evidências de que se trata de um processo anômalo são omitidas pela imprensa local, que procura construir um consenso forçado, segundo o qual o juízo político se ajusta ao direito. Ou seja, disfarçar o golpe para torná-lo aceitável, repetindo a fórmula que essa mesma imprensa usou para defender a ditadura militar, que foi chamada de “revolução”, para poder considerar os ditadores como presidentes legítimos.
 
Mas esse muro de silêncio, eficaz para persuadir a maioria dos telespectadores e consumidores de notícias brasileiros, enfrenta problemas para ser exportado, e não consegue convencer a opinião pública internacional.
 
Isso porque vários meios estrangeiros, mesmo os que não são simpáticos com Dilma, vem demostrando suas dúvidas sobre o modus operandi de Temer e seu principal aliado político, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, processado pela Justiça por ter ocultado na Suíça cerca de 5 milhões de dólares em dinheiro desviado de esquemas de corrupção para facilitar contratos na Petrobras.
 
E não foi somente Merval Pereira, o colunista de O Globo, que manifestou seu temor de ver o Brasil sendo visto como uma republiqueta. O senador Aloysio Nunes Ferreira também usou termos durante sua visita a Washington, na semana passada, quando foi enviado por Temer para executar uma “contraofensiva” comunicacional na Casa Branca, no Congresso e em entidades não governamentais, para defender a suposta legitimidade do processo contra a presidenta.
 
Ao que parece, o fantasma de Carmen Miranda assola os adversários de Dilma. A cantora brasileira (nascida em Portugal) triunfou em Hollywood nos Anos 40 e 50, com suas canções alegres e seu famoso chapéu com flores e frutas na cabeça. Às vezes, suas fotos eram decoradas com bananas, para agradar o estereótipo brasileiro consumido por grande parte do público norte-americano.
 
Dilma retornou o Brasil na manhã do sábado (23/4), e se recolheu à residência oficial, o Palácio da Alvorada, em Brasília, e reassumiu imediatamente a presidência, que esteve nas mãos de Temer, interinamente, nos últimos dias. No Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, se realizaram reuniões para a formação de um futuro governo de exceção, apoiado pelo empresariado, pelos banqueiros, setores do Poder Judiciário e a imprensa aliada.
 
A estimativa é de que Temer assuma definitivamente o governo até o final de maio, e Dilma terá que se licenciar automaticamente do cargo por até seis meses.
 
O sucesso da operação reivindica a estratégia da propaganda norte-americana desenhada por Washington após a II Guerra Mundial, para enfrenta a Guerra Fria contra o avanço soviético. A relação com o Brasil e com os demais países latino-americanos eram baseadas na chamada “diplomacia da boa vizinhança”.
 
Paraguai 2012
 
Se o impeachment for aprovado no Senado, e provavelmente assim será, Rousseff vai a solicitar ao Mercosul que seu sucessor, Michel Temer, receba o mesmo tratamento dado em 2012 ao ex-presidente paraguaio Federico Franco. Na ocasião, o país foi suspenso por ter derrubado o mandatário eleito Fernando Lugo e permaneceu nessa condição enquanto durou a presidência de Franco.
 
Praticamente o mundo todo, com exceção da maior parte da classe politica e da imprensa paraguaia, entendeu que Lugo foi expulso do cargo através de uma manobra dissimulada com certo verniz institucional. “Sou uma vítima da perseguição, isto foi um golpe do Mercosul” dizia Federico Franco, o presidente de exceção, que nunca pode superar a sua falta de legitimidade, apelando sempre a um discurso que, de tanto ser repetido, se impôs na opinião pública do seu país, mas não teve o mesmo sucesso a nível internacional.
 
Franco alegou que seu ascenso ao poder respeitou o processo previsto na lei, argumento similar ao usado atualmente por Temer, “Dizer que o impeachment é um golpe prejudica a imagem do país” no exterior, reclama o vice-presidente brasileiro.
 
“Negar que isto é um golpe é querer tapar o sol com uma peneira”, respondeu Rousseff, em entrevista concedida em Nova York.
 
Fascismo
 
O diário Folha de São Paulo informou neste sábado que o Ministério Público do Trabalho condenou a revista Actual Magazine a pagar uma indenização de 500 mil reais por dano moral coletivo, por recomendar as patroas a “deixar as empregadas trancadas em casa”, para evitar que elas votem na Dilma.
 
A Actual Magazine é editada em São Paulo, o maior reduto da classe média e outros grupos que respaldam a queda de Dilma Rousseff. Em outro artigo, na mesma revista, um colunista propôs que os aeroportos paulistas “cancelem os voos vindos do nordeste”, uma das regiões mais pobres do país.
 
André Singer, cientista político e ex-porta-voz de Luiz Inácio Lula da Silva, escreveu artigo recente  que, junto com o ódio para com o PT e com Dilma, “cresceu uma inclinação dos setores médios pelo fascismo”. É o que demonstra uma pesquisa recente do instituto DataFolha, que aponta que 20% dos brasileiros com renda média e alta afirmam que elegeriam como presidente o deputado e ex-militar Jair Bolsonaro.
 
No domingo passado, ao votar a favor do impeachment de Dilma, Bolsonaro reivindicou a memória de um conhecido torturador da ditadura: Carlos Alberto Brilhante Ustra.
 
Precisamente naquele domingo, enquanto Dilma sofria uma grande derrota na Câmara, fora do Palácio, o estudante Rodrigo Riveiro, de 23 anos e aspecto inofensivo, participava da manifestação a favor do impeachment, vestindo uma camiseta estampada com a foto de Bolsonaro.
 
“Sou um bolsonarista convencido, é um verdadeiro conservador, tem a coragem de dizer o que pensa. . . sou contra os esquerdopatas, que dizem que isto é um golpe. Pelo contrário, tirar a Dilma é uma forma de liberar o Brasil de uma ditadura. Querem que sejamos uma nova Coreia do Norte?”, indaga Rodrigo, em entrevista a este diário.
 
Tradução: Victor Farinelli







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