Política

O jornalismo vai matar a democracia

Ao ser subjugado aos interesses de qualquer hierarca com muito dinheiro e pouca moral, o jornalismo deixou de ser útil à democracia e tornou-se seu maior obstáculo

10/01/2022 12:30

Nesta foto, de 6 de janeiro de 2021, apoiadores do presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, aparecem durante o ataque ao Capitólio em Washington. (EFE/EPA/Michael Reynolds/FILE)

Créditos da foto: Nesta foto, de 6 de janeiro de 2021, apoiadores do presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, aparecem durante o ataque ao Capitólio em Washington. (EFE/EPA/Michael Reynolds/FILE)

 

Os jornalistas tendemos a nos ter em alta estima. Quando alguém nos ataca saímos em pelotão corporativo proclamando que “sem jornalismo não há democracia”, acreditando que somos os guardiões da luta contra o totalitarismo. Mas não é verdade, se um retrato falado do jornalismo deve ser desenhado, estamos mais perto de ser o maior perigo para as democracias liberais do que seus protetores.

O ataque ao congresso norte-americano só foi possível pelas mentiras de um presidente que um ecossistema midiático favoreceu, promoveu e criou. A opinião pública foi completamente intoxicada por uma maioria da mídia a favor do poder e que, na maioria dos casos, não hesitou em manipular e espalhar boatos. Em muitos outros, mostrou uma postura de tibieza e covardia diante do que significaria enfrentar um presidente sem escrúpulos no exercício despótico de seu poder.

O resultado dessa distribuição midiática é que 68% dos republicanos acreditam que as eleições de Donald Trump foram roubadas, e isso não se consegue alcançar com uma conta do Twitter escrita em letras maiúsculas. É preciso haver uma FOX e um ecossistema de mídia cujo poder ideológico prevalece sobre a verdade, o rigor e a honestidade.

Não é necessário ir aos Estados Unidos para ver o que acontece quando mentiras e desinformação se enraízam nos cidadãos impedindo que decisões corretas sejam ser tomadas. Hoje vimos como se mentiu para fazer parecer que Alberto Garzón [ministro do governo espanhol] criticou a pecuária espanhola. Muitas pessoas, incluindo alguns grandes fazendeiros, que ele defendeu, podem ter acreditado que isso aconteceu. Esse é um dos motivos para estabelecer uma notícia falsa no imaginário coletivo, atraindo, de forma enganosa, eleitores, que pela via dos fatos, nunca seriam seus.

A mentira tem potencial de arma de guerra em tempos de paz, um mecanismo de destruição em massa que serve para exonerar criminosos ou negligentes de responsabilidades, por isso é possível que haja mais pessoas que acreditem que Pablo Iglesias [ex-vicepresidente do governo e ex-dirigente do Podemos] foi o responsável pelas residências de idosos [e consequentemente por mais de 30 mil mortes] no pior da pandemia em vez de Isabel Díaz Ayuso.

Ao ser subjugado aos interesses de qualquer hierarca com muito dinheiro e pouca moral, o jornalismo deixou de ser útil à democracia e tornou-se seu maior obstáculo.

O jornalismo nada mais é do que uma potência mais completamente intoxicada pelas dinâmicas que emanam do capital, haverá meios de comunicação mais decentes e jornalistas em quem se confia, mas não se enganem, se os jornalistas estivessem representados num hsemicírculo com 350 lugares, mais de 300 estariam ocupados pela direita e pela extrema direita.

Esse é o ambiente midiático em que nos movemos e até quebrarmos o tabu e assumirmos que é preciso enfrentar uma reforma jurídica que equilibre o equilíbrio midiático, a mentira da reação valerá muito mais na política do que todas as boas medidas, certezas, verdades e o rigor científico de qualquer proposta deste governo ou de qualquer outra que eles acreditem pertencer a ele.

A verdade não importa quando não há quem a diga para que alguém a possa escutar. Se a democracia morrer no século XXI, aquele que lhe dará o golpe de misericórdia será um jornalista.

*Publicado originalmente em El Diário | Tradução por César Locatelli

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