Política

O novo velho continente e suas contradições: A grande dama sai do jogo

Ao deixar o cargo, depois dos seus quatro mandatos, terá enfrentado também outras crises com as quais se deparou durante seu governo: econômica, climática e a atual da pandemia de coronavírus. E teve também de administrar a saída do Reino Unido que poderia abalar a União Europeia

04/10/2021 09:35

(Michael Kappeler/AP)

Créditos da foto: (Michael Kappeler/AP)

 
:: Leia mais: Especial 'O novo velho continente e suas contradições' ::

Angela Merkel sai de cena e deixará a Alemanha e também a Europa com um difuso sentimento de orfandade de quem perdeu sua Mutti. Foram 16 anos no poder do país que lidera o continente, durante os quais conviveu com quatro diferentes presidentes da França, seu principal aliado na condução da União Europeia: Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy, François Hollande e Emannuel Macron. Soube exercer sua liderança com pragmatismo e moderação, mas também com autoridade e uma sensibilidade social rara em políticos conservadores.

Merkel não é o nome de família sob o qual foi batizada, mas sim o do seu primeiro marido, com quem se casou em 1977 e dele separou-se depois de um casamento que durou quatro anos. Manteve o nome embora tenha voltado a casar-se novamente. Ela nasceu em Hamburgo há 67 anos, batizada Angela Dorothea Kasner. Mudou-se ainda criança com a família para a Alemanha Oriental, então comunista. Formou-se em Física Quântica pela Universidade de Leipzig e tirou o doutoramento em Berlim. Muitos acreditam que o seu trabalho profissional como pesquisadora na Academia de Ciências foi um importante fator para o sucesso político que veio a ter posteriormente.

Merkel em 1983 (BestImage)

Seu atual marido, Joachim Sauer, físico e professor universitário, é tímido e discreto. Sequer esteve presente na primeira posse da mulher no cargo de chanceler alemã, em 2005. Preferiu assistir pela televisão.

Merkel sofre de cinofobia, que é como se chama o medo irracional de cães, provocado por um ataque que sofreu em criança. Os jornalistas foram testemunhas do seu autocontrole num encontro com o presidente russo, Vladimir Putin. Sabendo da sua fobia e possivelmente para provocá-la, ele fez entrar na sala um dos seus cães. Amigável como todos da sua raça, o labrador aproximou-se dela, pulou na busca de fazer amizade e Merkel permaneceu impassível e até meio sorridente.

Os desafios

Em 2015 ela foi a Personalidade do Ano da revista estadunidense Time escolhida, segundo a revista, pela sua capacidade de enfrentar os desafios da Europa e citou entre estes o colapso da Grécia, a resposta à ameaça do Daesh e a crise dos refugiados.

Com Vladimir Putin, em 2007 (Sergei Chirikov/EPA-EFE)

Ao deixar o cargo, depois dos seus quatro mandatos, terá enfrentado também outras crises com as quais se deparou durante seu governo: econômica, climática e a atual da pandemia de coronavírus. E teve de administrar a saída do Reino Unido que poderia ter abalado a União Europeia.

Seu biógrafo Dirk Kurbjuweit diz que, educada na antiga Alemanha Oriental, dominou a arte de governar pelo silêncio. "Ela espera e espera para ver para onde está seguindo o comboio e só depois salta", escreveu ele.

Apoiada no princípio da sua carreira política pelo chanceler Helmut Kohl, que a chamava de "minha menina", foi ela quem, segundo ele próprio, cravou-lhe uma facada nas costas. Kohl confidenciou ao jornalista Michael Naumann que levá-la para o governo foi o seu maior erro. "Trouxe minha assassina", disse ele. A menina abria o seu próprio caminho e iniciava a sua trajetória. No gabinete de Kohl ela era chamada de "Angie, a cobra".

Angela Merkel e Helmut Kohl (Reuters)

Durante seus mandatos aboliu o recrutamento militar, instituiu o salário mínimo e, contrariando suas convicções, aceitou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Conseguiu fechar oito das 17 centrais nucleares alemãs conduzindo um processo de transição energética que deve se completar em 2022. Impôs sua decisão contrariando a oposição até mesmo dentro do seu próprio partido e fez a Alemanha receber, em 2015, mais de um milhão de refugiados da guerra na Síria.

Muitos pensam que ela deveria ter lutado pela modernização da economia e conduzido a Europa a uma maior participação geopolítica diante da crescente polarização do mundo entre os Estados Unidos e a China. É grande a expectativa quanto à participação da União Europeia nesse jogo.

Merkel foi a maior defensora do Plano de Recuperação e Resiliência que garante 750 bilhões de euros de resposta à pandemia aos diversos países que a ele se candidatarem.

Ela anunciou sua retirada da disputa política há três anos, quando revelou em outubro de 2018 que não disputaria um quinto mandato. Deve ter pesado na sua decisão uma pesquisa feita naquele ano revelando que metade dos alemães queria vê-la pelas costas. Manteve sua palavra mesmo com os constantes apelos para continuar a fim de garantir estabilidade ao país diante da crise do coronavírus.

Na corrida para substitui-la dentro do CDU, o seu partido, e assim candidatar-se à chancelaria, o primeiro nome a surgir, apoiado pela própria Merkel, foi o de Annegret Kramp-Karrrenbuer, sua ministra da Defesa. Mas AKK, como era conhecida, cometeu o erro de se aliar à extrema direita do AfD nas eleições regionais da Turíngia e sua popularidade despencou diante da opinião pública. Armin Laschet, que continuou no páreo depois da luta interna no partido que Merkel tentou, mas não conseguiu evitar, não chegou a empolgar o eleitorado. E cometeu o enorme erro de dar uma gargalhada durante uma visita à região que sofreu a tragédia do último verão, com 180 mortos, vítimas das inundações. Sua popularidade também despencou depois daquela imprópria gargalhada.

E o pêndulo foi na direção de Olaf Scholz, visto pela imprensa como monocórdio e sem carisma, líder do partido de centro-esquerda SPD, de oposição, embora ele forme o governo de Angela Merkel como ministro das Finanças.

As tensões entre a China e os Estados Unidos, junto com a pandemia de covid-19, são os grandes riscos atuais da Europa. Segundo a consultoria Eurasia, pode-se somar a esses riscos o fim da Era Merkel.

Celso japiassu
celso.japiassu@gmail.com

Conteúdo Relacionado