Política

O novo velho continente e suas contradições: A nova experiência do fascismo italiano

 

27/09/2021 09:58

Beppe Grillo e Davide Casaleggio (Reprodução/Dagospia.com)

Créditos da foto: Beppe Grillo e Davide Casaleggio (Reprodução/Dagospia.com)

 
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O Movimento dos Casaleggio se define como uma rebelião espontânea do povo contra os vícios da política. Aproveitou a onda da antipolítica, a mesma que elegeu Bolsonaro no Brasil.

A internet tem o poder de formar o que eles chamam de "ondas de consenso" e é na formação dessas ondas que age a comunicação dirigida por algoritmos. É aí onde entram fake news, hoaxes, teorias conspiratórias e a criação de boatos, tudo dirigido a um público certo previamente definido. Esta é a técnica desenvolvida e aplicada também por Steve Bannon e que foi fator decisivo na eleição de Trump e de Bolsonaro.

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A Itália foi o berço do fascismo e o seu fantasma parece nunca ter abandonado o país. Depois do seu quase desaparecimento depois da Segunda Guerra atuou nas sombras e protegido pelos partidos da direita, mas nunca deixou de estar vivo e de adaptar-se a cada momento da história recente. O Movimento 5 Estrelas, fundado em 2009 e cuja face visível é a do comediante Beppe Grillo, tem sido muito bem sucedido nas eleições e é a nova cara do fascismo italiano. O M5S, a sua sigla, tem sido definido pelos seus críticos como um "partido robot" porque só foi possível por causa da internet e é através dela que exerce a sua atração e o seu poder. O movimento diz praticar a "democracia digital".

Beppe Grillo (Reprodução/Artribune)

O idealizador do M5S foi o empresário milanês Gianroberto Casaleggio, que o gerenciou desde o início e criou os seus avatares, como são chamados os políticos apoiados por ele e através dos quais o partido exerce o poder político. Seu rosto público e principal agitador é Beppe Grillo, personagem criada pelo próprio Casaleggio, que morreu em 2016, mas não antes de deixar o partido como herança ao filho Davide Casaleggio. Davide revelou-se tão ardiloso quanto o pai e administra o partido como se fora uma empresa privada. Admite pretender instituir na Itália uma democracia direta via internet, abolindo a representação política, principalmente o parlamento e os partidos.

Rebelião

O Movimento dos Casaleggio se define como uma rebelião espontânea do povo contra os vícios da política. Aproveitou a onda da antipolítica, a mesma que elegeu Bolsonaro no Brasil. Para Casaleggio, tudo vai mudar para melhor graças à internet. A organização do Movimento 5 Estrelas é estruturada de cima para baixo e nada tem de espontânea. Segundo o programador Carlos Baffé, que fez parte da equipe dirigente do M5S, trata-se de um experimento de engenharia social, pois o uso estratégico da internet é capaz de formar o que eles chamam de "ondas de consenso". Para a formação dessas ondas age a comunicação dirigida por algoritmos. É aí onde entram fake news, hoaxes, teorias conspiratórias e a criação de boatos, tudo dirigido a um público certo previamente definido. Esta é a técnica desenvolvida e aplicada também por Steve Bannon e que foi fator decisivo na eleição de Trump e de Bolsonaro.

Gianroberto Casaleggio (Reprodução/Youtube)

Davide Casaleggio, o filho que herdou o partido, tem consciência de que, embora não centralizada, a internet pode ser orientada e controlada para criar ondas de consenso na direção desejada. O movimento é controlado através da plataforma Rousseau, de propriedade da empresa Casaleggio & Associati.

Casaleggio expôs no seu livro Tu Sei Rete (Tu és Rede) toda a sua teoria. Segundo ele, se não existir uma autoridade externa a guia-lo, um sistema vai se organizar por si mesmo. E dá como exemplo um formigueiro, onde as formigas seguem uma série de regras criando uma estrutura muito bem organizada, mas que não é centralizada. Assim, pensa Casaleggio, é importante que os membros de um sistema sejam muitos, que se encontrem casualmente e não tenham consciência do sistema ao qual pertencem. Uma formiga não precisa saber como funciona o formigueiro.

Davide Casaleggio

Embora poucas pessoas o conheçam pessoalmente, alguns analistas acreditam que ele seja o homem mais poderoso da Itália. Com 45 anos de idade, o herdeiro do M5S diz que é apenas um simples militante de um movimento político, um voluntário de assistência técnica, mas alguns jornalistas afirmam que ele e sua pequena empresa de Milão controlam os votos, os candidatos e o programa do maior partido italiano, que tem obtido cada vez maior apoio dos eleitores mais jovens afirmando ser um movimento transparente e igualitário. Num perfil que fez de Davide Casaleggio, o The New York Times diz que, embora não seja um nome familiar mesmo dentro da Itália, esse consultor milanês sem carisma pessoal e sem graça é o verdadeiro Big Brother de um partido orweliano que pode vir a desestabilizar toda a Europa. Ele recusou uma entrevista ao jornal afirmando não acreditar na grande mídia.

Davide Casaleggio (Reprodução/Il Fatto Quotidiano)

Casaleggio decide pessoalmente quem serão os candidatos do partido em cada eleição, elabora a plataforma eleitoral de cada um e executa as campanhas através da rede. Uma nação inteira está a caminho de ser dirigida por uma empresa privada.

"Ele tem o comando de tudo, é o chefe", diz o jornalista Jacopo Iacoboni autor de "L'Esperimento", um livro que disseca o Movimento 5 Estrelas, que define a si mesmo como um não partido. As cinco estrelas a que se refere o seu nome representam os cinco pontos que diz defender: água pública, ambientalismo, transportes sustentáveis, direito à internet e desenvolvimento sustentável. É contra o que chama de "partidocracia" e defende a participação direta dos cidadãos nos assuntos políticos. Pensa que a internet é a solução para muitos problemas sociais, económicos e ambientais.

No capítulo da imigração, que é um assunto sensível para muitos países da Europa desde a chegada de ondas sucessivas de refugiados, o M5S defende a expulsão imediata dos imigrantes clandestinos. Defende os movimentos antivacina e é contra a vacinação obrigatória.

Já elegeu diversos prefeitos, entre eles os de Roma e de Turim, detem 216 das 630 cadeiras da Câmara dos Deputados e 92 das 321 do Senado.Tem 17 deputados no Parlamento da União Europeia, embora seja eurocético, ou seja, é contra a existência da própria União Europeia.

Celso Japiassu
celso.japiassu@gmail.com



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