Política

O novo velho continente e suas contradições: As garras da direita europeia sobre a América Latina

 

25/10/2021 10:05

Líder do Vox de Espanha, Santiago Abascal, a líder da Fratelli de Italia, Giorgia Meloni e o líder do Chega de Portugal, André Ventura (Reprodução)

Créditos da foto: Líder do Vox de Espanha, Santiago Abascal, a líder da Fratelli de Italia, Giorgia Meloni e o líder do Chega de Portugal, André Ventura (Reprodução)

 
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Abascal pretende a partir do seu manifesto, com pouco mais de oito mil assinaturas, estabelecer uma estrutura organizacional e um plano anual de ação. A partir daí, criar o Foro de Madri, uma alternativa, diz ele, ao Foro de São Paulo e ao Grupo de Puebla. Entre os seus alvos estão Lula da Silva e o PT brasileiro, o Partido Comunista de Cuba e políticos sociais democratas a exemplo de Alberto Fernandez, Evo Morales, Rafael Correa, Pepe Mujica, José Luis Rodriguez Zapatero e o próprio Lula.

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Lula, alvo do Foro de Madri (V. Moriyama/Getty Images)

Santiago Abascal é um basco de 45 anos que pertence a uma família de políticos que fizeram carreira durante a ditadura de Francisco Franco. O radicalismo de direita com as cores do fascismo aprofundou-se na família e consolida-se em Abascal, que hoje lidera o Vox, partido de extrema direita que tem agitado o ambiente político na Espanha. Membros da família Abascal chegaram a ser jurados de morte pelo ETA, o movimento separatista basco que dos anos 1950 até 2011 realizou atentados e uma forte ação política.

Santiago, formado em Sociologia, militou no PP-Partido Popular, da direita moderada, até alegar divergências ideológicas e sair para organizar o Vox, assumindo definitivamente um perfil de extrema direita na velha tradição fascista ainda existente na política espanhola e que vem de antes da Guerra Civil. De 2013, quando foi fundado, até 2018, o Vox acumulou fracassos, mas com a crise dos refugiados e o apoio de uma classe média amedrontada o Vox começou a dar as caras na Espanha. Os movimentos separatistas espanhóis, principalmente o da Catalunha, são também temidos pela classe média que neles enxerga o perigo de desestabilização do país. O Vox também explora esses temores e com isso obtido rendimento eleitoral.

Com doze deputados regionais eleitos na Andaluzia, o partido passou a ter expressão nacional e a ambicionar maior poder e influência na política espanhola.

Como se estivesse a fazer um elogio, o estrategista neofascista estadunidense Steve Bannon disse que o Vox e seu líder Santiago Abascal "estão próximos de Bolsonaro e Salvini", este último o líder do Liga, partido neofascista italiano.

Com o relativo sucesso obtido a partir de 2018, o Vox resolveu agora nesses dias dar o salto internacional e dirigiu suas ambições para a América Latina. O Brasil não se encontra distante dos seus objetivos.

Um eixo do mal: André Ventura, Eduardo Bolsonaro e Santiago Abascal (Reprodução)

Anticomunismo

O comunismo tem sido o permanente inimigo escolhido pela direita e a extrema direita em todos os países onde os movimentos neofascistas ambicionam o poder. Fiéis à tática de eleger um inimigo para atrair o ódio, obter e influenciar seguidores, estes movimentos atribuem aos comunistas um poder que não possuem para mais uma vez incutir o medo e radicalizar a política.

Um manifesto autodenominado Carta de Madri, liderado pelo Vox, alerta para o que chama de avanço do comunismo na Ibero-Esfera, denominação dos países ibéricos da América Latina adotada naquele documento. Segundo o tal manifesto, uma parte da América Latina já teria sido sequestrada por regimes totalitários de inspiração comunista, com apoio do narcotráfico e do regime cubano.

Abascal pretende a partir do seu manifesto, com pouco mais de oito mil assinaturas, estabelecer uma estrutura organizacional e um plano anual de ação. A partir daí, criar o Foro de Madri, uma alternativa, diz ele, ao Foro de São Paulo e ao Grupo de Puebla. Entre os seus alvos estão Lula da Silva e o PT brasileiro, o Partido Comunista de Cuba e políticos sociais democratas a exemplo de Alberto Fernandez, Evo Morales, Rafael Correa, Pepe Mujica, José Luis Rodriguez Zapatero e o próprio Lula.

Como membros do Foro de Madri foram recrutados entre outros Andrés Pastrana, da Colombia, Keiko Fujimori, do Peru, líderes do partido ultradireitista da Polônia Lei e Justiça, André Ventura, do Chega, de Portugal, além dos indefectíveis Viktor Orbán da Hungria e Eduardo Bolsonaro, do Brasil.

O Vox na antiga praçca de touros de Madri (Vox.es)

O programa ideológico do Vox, que ele agora pretende exportar, registra que o partido se posiciona contra o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é anti-imigração, islamofóbico e eurocético, além de sugerir que Portugal é uma província da Espanha. Esta última afirmação mereceu um suave protesto de André Ventura, líder do Chega.

Deus, Pátria e Família, o velho slogan dos integralistas brasileiros, volta a ganhar um sopro de odor apodrecido no território da denominada ibero-esfera. Sob patrocínio espanhol.

Celso Japiassu
celso.japiassu@gmail.com

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