Política

O novo velho continente e suas contradições: As vacinas e a indústria dos grandes lucros

O enriquecimento obsceno dos laboratórios pertencentes ao grande capital havia trazido à luz uma verdade inconveniente: a vacina e as terapias precisavam ter suas patentes quebradas em benefício de todas as populações do mundo. A União Europeia, em obediência a seus dogmas neoliberais, se recusava, no entanto, a sequer debater o assunto

15/11/2021 11:56

(Divulgação/Prefeitura RJ)

Créditos da foto: (Divulgação/Prefeitura RJ)

 
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Em fevereiro passado, um ano após o início da pandemia, postei aqui um texto que se intitulava Porque o mundo deve quebrar a patente das vacinas. Falava da dificuldade dos países pobres em conseguir vacinas na quantidade necessária para imunizar o seu povo enquanto os ricos esbanjavam: já tinham feito compras em número suficiente para imunizar três vezes a sua população. Apenas o Canadá já garantira doses suficientes para vacinar cinco vezes cada cidadão. Os países pobres só seriam capazes de vacinar uma em cada dez pessoas.

O enriquecimento obsceno dos laboratórios pertencentes ao grande capital havia trazido à luz uma verdade inconveniente: a vacina e as terapias precisavam ter suas patentes quebradas em benefício de todas as populações do mundo. A União Europeia, em obediência a seus dogmas neoliberais, se recusava, no entanto, a sequer debater o assunto.

Richard Bergström

O tema volta a ser abordado diante da notícia de que a Comissão Europeia nomeou um grupo de sete pessoas para negociar com os laboratórios os novos preços das doses da vacina. Mas, curiosamente, mantem em sigilo o nome dos negociadores. Investigate Europe (www.investigate-europe.eu/en/), um consórcio de jornalistas investigativos de onze diferentes países europeus, identificou alguns deles, inclusive o sueco Richard Bergström, que vem a ser o diretor geral da Federação das Associações da Indústria Farmacêutica.

A raposa a tomar conta do galinheiro.

Um lobista

O próprio Bergström não tem a preocupação de se esconder. Ele hoje trabalha para o governo sueco, mas antes foi responsável pelo lobby europeu da indústria farmacêutica. Olivier Hoedeman, do Corporate Europe Observatory, diz que a Comissão Europeia não considerou as ligações privadas dos negociadores que nomeou e afirma que Richard Bergström tem conflitos de interesse e nunca deveria ter sido nomeado como negociador.

Os sete membros do grupo foram indicados pelos governos da França, Suécia, Espanha, Alemanha, Holanda, Itália e Polônia. Dos preços já negociados, a Pfizer vai cobrar 19,50 euros pela dose da sua vacina e a Moderna 25,50 euros. As vacinas do tipo RNA são produzidas por 1,18 dólares, segundo um estudo realizado pelo Imperial College London. A indústria nunca ganhou tanto dinheiro e seus altos executivos nunca receberam tão altos bônus e dividendos. Nos escritórios das empresas, ouvem-se nos fins de tarde o estourar de rolhas de garrafas de champagne comemorativo.

(reuters)

O Parlamento Europeu discorda da Comissão Europeia e pede maior transparência. Mas a Comissão informou à Investigate Europe que não há qualquer intenção de informar o nome dos membros do grupo porque isso poderia prejudicar as negociações.

Os jornalistas de Investigate Europe descobriram alguns. São eles Roland Driece, funcionário público, pela Holanda; César Hernandez, profissional de saúde, pela Espanha; Giovanni Rezza, do Ministério da Saúde italiano; o representante da Polônia não foi identificado e, pela Alemanha, aparentemente é o funcionário do Ministério da Saúde Thomas Müller, diretor geral de medicamentos. A França nomeou Pierre Cunéo, um executivo de carreira, como seu representante no grupo de negociadores.

O Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia entrou com um processo no Tribunal de Justiça Europeu pedindo acesso transparente aos contratos até agora negociados com a indústria farmacêutica. Afirma que os cidadãos da Europa têm o direito de saber quem está negociando em seu nome.

(UNSPLASH)

A Organização Mundial da Saúde já fez um apelo, depois esquecido, para que as patentes das vacinas se tornassem públicas. Isto permitiria que a produção se organizasse de acordo com a capacidade instalada dos laboratórios em todo o mundo segundo as necessidades de cada país sem foco predominante no lucro, como está sendo feito.

Aos que defendem o direito de a indústria se remunerar do investimento que fez para chegar às vacinas, a resposta é que este investimento foi subsidiado pelos governos, pelo povo de cada país, portanto. A Astra Zenica e a Pfizer receberam juntas cinco bilhões de euros em financiamento público. Sua tecnologia é mantida em segredo para, praticando preços exorbitantes, assegurarem maiores lucros à custa de vidas humanas.

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