Política

O novo velho continente e suas contradições: Um inimigo na presidência da Europa

Além dos insultos pelo Twitter e sites financiados pelo SDS e pelo governo, os jornalistas sofrem pressões financeiras e o esgotamento em recorrentes processos judiciais. Os editores e diretores da mídia recebem constante intimidação através de telefonemas. Um site de jornalismo investigativo responde só ele a vinte diferentes processos em tribunais. Jansa trata todos os jornalistas como inimigos, no melhor estilo Jair Bolsonaro

02/08/2021 11:01

O primeiro-ministro esloveno Janez Jansa (Christian Hartmann/Pool/EPA)

Créditos da foto: O primeiro-ministro esloveno Janez Jansa (Christian Hartmann/Pool/EPA)

 
Um dos mais radicais inimigos da União Europeia é agora o seu presidente. É mais uma das contradições com que se defronta o projeto de uma Europa única, confrontada e contestada desde o seu nascimento por nacionalistas conservadores. Foi o que levou ao surgimento do termo eurocético, os céticos que não acreditam na Europa. Janez Jansa, primeiro ministro da Eslovênia, atual presidente da UE pelo rodízio previsto em sua constituição, é um conservador ferrenho, ex-radical comunista que se transformou no que todos consideram um radical fascista.

Jansa é um usuário compulsivo do Twitter e por isso apelidado Marechal Tuíto, um trocadilho com o nome do Marechal Tito, o poderoso líder da antiga Iugoslávia, a que pertenceu a Eslovênia antes da traumática divisão daquele país. Não deve ser confundida com a desenvolvida Eslováquia que, junto com a República Checa, formou até 1992 a antiga Tchecoslováquia.

Jansa está há trinta anos no centro da vida política da Eslovênia. É de novo primeiro-ministro, pela terceira vez, desde que exerceu o mesmo cargo de 2004 a 2008 e de 2012 a 2013. Mantem-se desde 1993 como presidente do Partido Democrático Esloveno (SDS), de extrema direita e o maior do país. Através do twitter tem a prática de assediar jornalistas. Há pouco chamou a jornalista Mojca Setinc Pasek, entre outras coisas, de prostituta aposentada. O motivo dos ataques a Mojca Pasek foi uma denúncia que ela fez na televisão sobre um grupo de Facebook que se intitulava Legião da Morte. Dele faziam parte membros importantes do partido do primeiro-ministro.

Além dos insultos pelo Twitter e sites financiados pelo SDS e pelo governo, os jornalistas sofrem pressões financeiras e o esgotamento em recorrentes processos judiciais. Os editores e diretores da mídia recebem constante intimidação através de telefonemas. Um site de jornalismo investigativo responde só ele a vinte diferentes processos em tribunais. Jansa trata todos os jornalistas como inimigos, no melhor estilo Jair Bolsonaro.

“Como é que se consegue fazer jornalismo livre e relevante quando se tem de sobreviver e ao mesmo tempo travar uma guerra permanente com um primeiro ministro poderoso e com aliados poderosos?”, indaga Gasper Andrinek, vice-presidente da Associação de Jornalistas da Eslovênia.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, e o primeiro-ministro esloveno, Janez Janša, em Bled (gov.si)

Janez Jansa já foi condenado a dois anos de prisão por corrupção na compra de armamentos da Finlândia. Foi colocado em liberdade nove meses depois. É muito próximo de Viktor Orbán, o líder húngaro do mesmo credo político de extrema direita. Orbán tem ajudado a financiar suas campanhas junto com os círculos de aliados empresariais e políticos de Budapest e exerce grande influência sobre Jansa, seu governo e seus seguidores.

Eslovênia

A Eslovênia é um pequeno país com dois milhões de habitantes, procurado por turistas atraídos por suas montanhas, pelas estações de esqui, lagos e suas fontes termais. A capital Liubliana também exerce atração por seu patrimônio arquitetônico de estilo barroco. O país fez parte do Reino da Iugoslávia e da República Socialista Federativa da Iugoslávia. Com a morte do Marechal Tito e a derrocada dos sistemas comunistas do Leste, conquistou a independência em 1991.

A chegada do Leste

Muitos observadores e analistas políticos dizem que vários dos problemas da União Europeia, como o de ter como presidente alguém que contesta a sua própria existência, começaram com a chegada dos países do Leste. Além da Eslovênia, a UE tem que lidar com os governos protofascistas da Hungria e da Polônia. Muitos dos países egressos dos sistemas comunistas, como os três citados, viveram forte crise com a queda do regime e sofreram o assalto dos movimentos de direita que já existiam internamente. Alguns deles estão no exercício do poder político. O alargamento da União Europeia dividiu o bloco que se destinava, como diz o seu próprio nome, a ser e permanecer unido. Mas ampliar para o Leste contemplava o interesse econômico dos países do Norte ao mesmo tempo em que geopoliticamente enfraquecia a Rússia, o que é também de grande interesse do aliado americano.

(Johanna Geron/AFP via Getty Images)

Com a posse de Janez Jansa na União Europeia prevê-se que ele continuará a trabalhar na política que tem adotado em relação aos Balcãs, abrindo a porta para outros países da região. Atualmente só fazem parte a Croácia e a própria Eslovênia. A Servia e Montenegro reivindicam o ingresso. Há um problema diplomático grave relativo a uma proposta anônima enviada ao presidente do Conselho Europeu, Charles Michel e que se desconfia ter sido Jansa o seu autor. O documento, autonomeado “de trabalho informal”, propõe dissolver a Bosnia e Herzegovina e dividir seu território entre a Sérvia e a Croácia.

Em sua carta de constituição, a União Europeia diz que sua existência baseia-se nos valores indivisíveis e universais da dignidade do ser humano, da liberdade, da igualdade e da solidariedade e que assenta nos princípios da democracia e do Estado de direito. São o que o primeiro-ministro da Eslovênia já chamou de “valores europeus imaginários”.

Além desses inimigos internos, a UE tem sofrido com a chantagem de países como a Turquia e o Marrocos, que ameaçam abrir suas fronteiras para facilitar a chegada de milhares de refugiados que desejam viver no território europeu. Os refugiados que chegam do Oriente e Oriente Médio são um fantasma rondando as classes médias europeias, um argumento explorado pelos partidos de direita, alguns dos quais elegem seus candidatos adotando a plataforma da anti-imigração.

(Reprodução/la-croix.com)

O SDS, partido de Janez Jansa, faz parte da recém formada frente de quinze partidos de extrema direita e neofascistas que celebraram uma aliança transnacional para defender uma reforma da Europa e a instauração de Estados-membros fortes e soberanos, em vez de uma Europa federal. Além do partido de Jansa, encontram-se entre os signatários o líder do partido polaco Direito e Justica, Jaroslaw Kaczynski, o Fidesz, do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, a União Nacional de Marine le Pen, a Liga, de Matteo Salvini e a formação neofascista Fratelli d'Italia, entre outros.

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