Política

O que pode ser o governo Dilma após a derrota do golpe?

A provável derrota do golpe criaria a cena para um novo plano geral de governo para a retomada forte de uma política econômica anti-cíclica.

11/04/2016 00:00

Roberto Stuckert Filho/PR

Créditos da foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Na semana dos dias 4 a dia 10 de abril, o “super-editor” da mídia golpista – como uma vez o chamou Bernardo Kucinski – procurou criar a peça de ficção que, se não tinham os 2/3 de votos na Câmara Federal, os favoráveis ao impeachment caminhavam rapidamente para atingir esta meta. O Estado de São Paulo e O Globo, os sites G1 e Uol e, para arrematar, a capa da Veja apostaram na hipótese reputacional do poder: se todos dizem, ao mesmo tempo, que Dilma está definitivamente sem poder, ela ficaria sem poder.
 
Não é, no entanto, o que parece hoje mais provável de acontecer. Os golpistas estão em estado de derrocada no processo de formação da opinião pública e, como afirmaram Berzoini e Jandira Feneghali, o governo está seguro que tem uma margem importante de votos na Câmara Federal para derrotar o golpe.
 
As mobilizações em defesa da democracia já alcançaram, sem dúvida, o mesmo patamar histórico da campanha das diretas já. A intelectualidade em peso, os artistas e os criadores da cultura, uma frente de movimentos sociais até mais ampla e nacionalizada do que aquela formada ao final do regime militar, a unidade de toda a esquerda em um sentido muito largo e das lideranças democráticas, inclusive as religiosas, já conseguem interditar e provocar a repulsa  à campanha do ódio dos oligopólios da mídia. Como registrou, para desconcerto dos  neoliberais e fascistas, o Datafolha de 10 de abril: Lula sobe, na intenção de voto e na avaliação histórica de seu governo, caem os tucanos!
 
Um teste: qual seria a defesa mais coerente hoje na cena pública de um impeachment sem comprovação de crime de responsabilidade?  O argumento auto- destrutivo de FHC de que o impeachment é necessário para evitar a divisão do país?!? A incrível “pedalada lógica” de seu ex-ministro da Justiça, Miguel Reale Jr.? A pajelança do ódio de sua colega de pedido de impeachment? O “conjunto da obra”  do desmoralizante presidente da OAB? Não há dúvida! Quem fornece o argumento mais coerente é Cunha: um bandido político para operar um impeachment... contra a Constituíção.
 
O fator Janot
 
O caminho da derrota dos golpistas, no entanto, pode ser interrompido por um “fato novo”, destes que, inexoravelmente, desde os dias decisivos do segundo turno das eleições presidenciais de 2014, são produzidos pela máquina da partidarização judicial que vai de Moro a Janot?
 
O juiz Moro hoje está no ponto mais baixo de sua autoridade midiática: 8% nas pesquisas  para presidente, popularidade em queda, autoridade judicial colocada sob suspeição generalizada. A Polícia Federal ousaria alguma ação espetacular agora sob o novo Ministro da Justiça?  Gilmar Mendes já cumpriu o seu papel ao adiar o julgamento no pleno do STF da entrada de Lula como ministro no governo Dilma. Mas, há agora, Janot!
 
Porém, se algum observador imparcial e dotado de um espírito larguíssimo de generosidade, concedia ainda  um crédito republicano a Janot (este parece ter sido o caso do jornalista Nassif, que edita um site importante de avaliação e acompanhamento da conjuntura), Janot operou neste último mês com a desfaçatez de um Gilmar Mendes. Afirmar que autorizou a divulgação de grampos que envolvem o ex-presidente Lula e a própria presidente Dilma, sem saber-lhes o conteúdo? Encaminhar uma liminar ao STF propondo que Lula, podendo ser indicado ministro, ficasse excepcionalmente sob a jurisdição de Moro e, depois, perdida a aposta por 10 x 0 em votação no STF, alterar o parecer para que Lula agora  não possa ser ministro, insinuando já a tese que Dilma faz obstrução da Justiça ao indicá-lo?
 
Janot arrisca se tornar logo o desmoralizado general procurador de um partido da República e perder de vez a autoridade de um Procurador-Geral da República. Como já se diagnosticou e se teorizou, a judicialização da política leva inevitavelmente à politização do judiciário e, ao mesmo tempo, sua desmoralização como poder fiador da Constituição.
 
As duas faces da repactuação
 
“Não  vai  ter golpe de novo/ Reage, reage meu povo!/ Sem dividir o coração/ Vamos honrar nossa raiz/ Democracia é o que a gente sempre quis/ Vamos sair e dar as mãos/ Para salvar nosso país/ Só deste jeito a gente pode ser feliz”. Este  samba – esta peste benigna da fraternidade -  tem tudo para ser, na voz vermelha de Beth Carvalho, o hino da democracia nestes dias decisivos. Nesta semana, como já se disse, o povo soberano é quem guardará nas ruas e praças a Constituição.
 
Se derrotado mesmo o golpe, como hoje parece mais provável, uma nova conjuntura terá início. Haverá tempo para afastar democraticamente o bandido político que hoje preside a Câmara Federal, o PSDB estará unido em sua desmoralização política, Lula tem todas as credenciais constitucionais para ser ministro, haverá festas nas ruas.
 
O grande limite de participação das manifestações democráticas, apesar de sua crescente expansão, tem sido sempre a ruptura de confiança entre a base popular que elegeu Dilma em outubro de 2014 e a desastrosa orientação que prevaleceu  em seu governo na política econômica e em sua postura recuada e omissa na disputa da liderança pública do combate à corrupção. Se uma corroeu as suas bases sociais, a outra abriu um flanco para a ousada partidarização da Operação Lava-Jato.
 
São as duas faces do começo de uma repactuação política que, capaz de estabilizar a governabilidade, abre um futuro promissor de vitória em 2018, rumo a transformações mais profundas. A presença de Lula e do novo Ministro da Justiça conferem capacidade e legitimidade para estas duas frentes de repactuação.
 
O colunista sênior do jornal golpista Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi, afirma em crônica neste domingo que o Brasil, na cartografia de Dante, teria chegado ao último círculo do inferno. O inferno de Dante é o lugar onde não entra a esperança.  Clóvis Rossi fala em nome de quem quer o golpe, não em nome do povo brasileiro.  São eles, os golpistas, que parecem perder hoje a esperança de chegar ao poder sem os votos do povo brasileiro. Este, porém, deve ter a sua própria voz. E é ela quem vai estar nas ruas nestes dias memoráveis de possível reinvenção da democracia brasileira.

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