Política

Octavinho, o cínico

A canoa virou. A democracia há de vencer. Não vai ter golpe e não vai ter mais golpistas como Octavinho. Eles já perderam a batalha moral e cultural.

04/04/2016 00:00

EBC

Créditos da foto: EBC

Cínicos se consideram superiores. São seres naturalmente arrogantes e soberbos. Embora se imaginem refinados, em geral são autoritários. A bem da verdade, são autoritários de tipo novo, pós-modernos. Cínicos agem como se fossem soberanos de uma cidadela autárquica, invisível, organizada em torno do próprio umbigo, convencidos de que são virtuosos por natureza.

 

O cinismo se originou na Grécia, com Antístenes, discípulo de Sócrates. Alcançou o Império Romano, onde conquistou inúmeros adeptos, entre eles o Imperador Nero, que incendiou Roma para culpar os cristãos. O Brasil é o berço de cínicos memoráveis. O mais vistoso deles formou-se na USP, foi presidente da República, não tendo deixado saudade entre os brasileiros. Octavinho, o cínico, é um rebento menor da mesma escola de cinismo. Mas um rebento autêntico, não se iludam.  Goza do prestígio e da honra aristocrática que lhe permite pensar e agir como se fosse superior. Mas não é. 

 

Filho e neto de liberais, corre nas veias do cínico Octavinho a seiva do liberalismo tupiniquim. Não pensem que se trate de um liberalismo qualquer, como aquele de Bolívar e San Martín, fundante do Estado Nacional e inúmeras Repúblicas latino-americanas. Tampouco é o liberalismo de Toussaint L'Ouverture, o general negro, libertador do Haiti, que associou a luta pela liberdade à causa da igualdade social e racial. Não! O liberalismo de Octavinho tem raízes no latifúndio, é saudoso da escravidão, do pelourinho e da ama de leite.

 

Por isso, seu liberalismo é doce e leitoso, como soe acontecer por aqui. Foi patrimonialista desde a primeira missa, coronelista durante a República Velha, autoritário nos governos dos generais. Mas sempre "cordial" e "liberal". Se querem ter uma ideia aproximada deste tipo peculiar de liberal, leiam Massangana. Releiam as Raízes do Brasil. Octavinho pertence a mesma estirpe de liberais. E não imaginem que ele seja insincero. Seria um equívoco imperdoável. Octavinho, no fundo mesmo, é "emotivo" e "sincero", como todos os brasileiros da sua classe social. 

 

Acompanhando nosso cancioneiro maior, ele diria tranquilamente: "sabe, no fundo eu sou um sentimental. Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro). Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar, o meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

 

Papai Octavinho apoiou o golpe de 64. Sabotou, conspirou, conchavou. Mas sempre em defesa da democracia! Nunca pediu desculpas, como fez papai Marinho. Eu imagino que ele sentiu a alma purgada dando abrigo a um punhado de comunistas quando o pau comeu pra valer. Mas aí já era tarde demais, pois a noite tenebrosa já tinha tomado conta de tudo. Nunca tantos morreram em razão desse "pequeno equívoco" liberal.

 

Quem sabe não seja essa a estratégia agora anunciada por Octavinho. Tornar o país ingovernável, queimar a casa para assar o leitão e quando, no limite da irresponsabilidade cívica, o circo pegar fogo pra valer, sair-se com essa história de renúncia, pois "não há prova cabal de crime de responsabilidade". É o cúmulo do cinismo. É simplesmente repugnante. Pior do que isso papai Civita não faria. Esses meninos travessos desonram os próprios antepassados! 

 

Que as pessoas de bem que ainda estão por aí na pequena-grande mídia, colunistas, repórteres e profissionais sérios e bem intencionados, não se deixem conspurcar por tamanha excrescência e caiam fora enquanto é tempo. A canoa virou. A democracia há de vencer. Não vai ter golpe e não vai ter mais golpistas como Octavinho. Eles já perderam a batalha moral e cultural. Uma consciência política democrática está crescendo e tomando corpo por todo país. Sem ódio ou intolerância, vamos mostrar aos cínicos Octavinhos que o Brasil pode virar essa página, fazer uma verdadeira reforma política, varrer a corrupção e voltar a crescer, respeitando a Constituição, o Estado de Direito e a democracia. 

 

Professor de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal da Integração Latino-Americana - UNILA. Presidente do  Fórum Universitário Mercosul - FoMerco.

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