Política

Os presidentes milionários não roubam

 

10/10/2021 13:28

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Os Pandora Papers, assim como os Panamá Papers, revelaram nomes de pessoas que escondiam milhões de dólares através de empresas especializadas em sonegação fiscal. Esta nova notícia sobre contas nos chamados 'paraísos fiscais' apenas confirma que existem inúmeras formas de ocultar o caminho do dinheiro por trás de nomes chiques.

Nada de novo sob o sol. Uma vez que os Estados cobram impostos, a evasão fiscal está na ordem do dia, em particular na dos mais ricos, que têm a sua disposição recursos e conexões que facilitam a sonegação. Por isso, e por razões óbvias, milionários de tantos países aparecem nesta lista.

Se nos atentarmos aos nomes dos latino-americanos que figuram na lista, veremos que vários destes milionários são ou foram presidentes. Os três em função são Sebastião Piñera, do Chile, Luis Abinader, da República Dominicana, e Guilermo Lasso, do Equador. Na lista também figuram vários ex-presidentes; três deles são do Panamá: Ernesto Balladares, Ricardo Martinelli e Juan Carlos Varela; dois, de El Salvador: Alfredo Cristiane e Francisco Flores; dois, da Colômbia: Cesar Gaviria e Andrés Pastrana; do Peru, Pedro Pablo Kuczynski; do Paraguai, Horacio Cartes; de Honduras, Porfírio Logo; e na Argentina, um irmão de Mauricio Macri.

Não é de se estranhar que estes homens fujam do fisco e escondam parte de suas fortunas, já que estas práticas são bastante conhecidas. Mas vale a pena perguntar: como eles chegam à presidência de seus países? Que mecanismos funcionam para que se elejam milionários que prometem acabar com a pobreza se não existe um exemplo que prove que um deles foi bem-sucedido? Na verdade, é preciso se perguntar o que aconteceu a cada uma destas sociedades para que elas elejam estes milionários.

Ainda que não exista uma resposta clara, em todos os casos, trata-se reflexo do descrédito na política e naqueles que os governaram por décadas, sejam eles militares ou líderes de partidos políticos tradicionais. Some-se a isso o constante bombardeio dos meios de comunicação contra os ''políticos'', ainda que sejam os políticos quem os beneficiem com suas leis. E também não podemos nos esquecer de que a grande maioria dos conglomerados de mídia regionais são empresas cujo principal objetivo é proteger seus interesses econômicos ao mesmo tempo em que se apresentam como ''jornalismo independente''.

A chamada classe política, em princípio, deve proteger os interesses da sociedade como um todo antes dos seus próprios interesses particulares. Por este motivo, tantas leis contradizem os interesses comerciais. E quando isso acontece, os meios de comunicação lançam campanhas de desprestígio contra aqueles que ousam afetar os seus negócios. César Jaroslavsky, um político argentino muito próximo do presidente Raúl Alfonsín (1983-1989), referia-se às duras críticas do poderoso jornal 'Clarín' ao presidente – por políticas que não eram de seu agrado –, dizendo: "te atacam como um partido político, e se defendem com a liberdade de expressão".

Por isso, não é por acaso que os meios de comunicação hegemônicos perseguem ''a classe política'' e promovem novas caras. E nada melhor do que um empresário-presidente para proteger os interesses dos mais poderosos. E por outro lado, os empresários que aspiram ao poder se apresentam como pessoas que não vão lucrar com o serviço público, porque já dispõem de muito dinheiro. De maneira simples: "eles não vão roubar". Além disso, exibem o seu sucesso nos negócios e suas conexões internacionais para dizer que atrairão investimentos e reduzirão a pobreza. E os mais pobres, apegados à ilusão eterna de sair da pobreza, também votam neles.

A grande diferença entre uma empresa e um país é que a empresa busca concentrar seus lucros nas mãos de seus proprietários, enquanto que o país procura gerar riqueza para ser distribuída. Antes de assumir a presidência argentina, Mauricio Macri disse: "nosso objetivo é erradicar a pobreza". Não conseguiu, e não é o único. Até agora, a única coisa da qual estes milionários que se tornaram presidentes podem se orgulhar é de ter conseguido salvar suas fortunas. As evidências estão aí.

Pedro Brieger é sociólogo, analista internacional e professor universitário argentino. Diretor do Nodal. Colaborador do Centro Latino-americano de Análise Estratégica (CLAE).

*Publicado originalmente em
estrategia.la | Tradução de Marcos Diniz


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