Política

Otimismo marca prestação de contas de Lula

18/12/2003 00:00

Brasília – “2003 foi o ano da semente, 2004 vai ser o ano de começar a colher”. Esse é o balanço que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz do primeiro ano de seu mandato. Na inédita prestação de contas à sociedade, feita nesta quinta (18), ele não escondeu as dificuldades que enfrentou, mas procurou deixar uma mensagem de otimismo para manter de pé as esperanças depositadas pelos brasileiros nas promessas de mudanças alardeadas na campanha eleitoral. “Foi um período de sacrifício e de reconstrução, que nos permite reafirmar a confiança num futuro melhor para todo o povo brasileiro.”
Mesmo sem ter um emblema concreto do início da mudança, o presidente fez questão de fazer uma prestação de contas solene. “Numa democracia, este é um dever sagrado”, considerou, demarcando o fato como uma atitude de educação política.
Ele convidou a elite da sociedade brasileira para a cerimônia. Algumas dezenas de políticos, de empresários e de representantes da sociedade civil lotaram o Salão Nobre do Palácio do Planalto para ouvir, por uma hora e meia, Lula fazer o relato das principais ações de cada área do governo. O presidente observou que, em outubro de 2002, o povo brasileiro decidiu votar em um governo de mudanças, um governo capaz de construir, junto com a sociedade, um país melhor e mais justo, com desenvolvimento e emprego. Com melhores condições de vida para o povo, principalmente os mais humildes. Um país capaz de crescer de modo sustentado e de distribuir a renda e a riqueza, respeitado internacionalmente e integrado ao mundo de maneira soberana. Um país sem fome, do qual todos possam sentir orgulho.
Os resultados dos compromissos assumidos, segundo Lula, estão na recuperação da estabilidade da economia para o país crescer, na construção da base política e parlamentar para aprovar reformas “justas e necessárias”, na ampliação do diálogo com a sociedade “para governar com mais democracia”, na criação de um modelo “mais justo e abrangente” para responder às demandas sociais, na afirmação do Brasil como um interlocutor respeitado na diplomacia e no comércio internacional.
Exagero
Ao fazer a comparação da situação econômica herdada e o cenário após 11 meses de mandato, o presidente exagerou tanto na avaliação de que o país passou “por uma das mais graves crises da história republicana” quanto na idéia de que os resultados positivos alcançados neste fim de ano foram resultado exclusivamente de ações de seu governo. Ele enumerou todos os indicadores positivos, mas esqueceu dos negativos, como o aumento do desemprego nas regiões metropolitanas e a queda na produção e na renda dos trabalhadores ao longo do ano. E proclamou: “O tempo da incerteza passou”. “Hoje, posso afirmar, com muita segurança, que os alicerces de um novo projeto de Nação foram firmemente estabelecidos em 2003. Cabe a nós, nesses próximos anos, aproveitar plenamente a oportunidade histórica que estamos vivendo, a oportunidade de combinar crescimento estável e sustentado com uma agenda de desenvolvimento e justiça social”, convocou Lula.
Junto com a vitória no campo econômico, o presidente ostentou a vitória no campo político. A aprovação das reformas em apenas sete meses, o diálogo com a oposição, a construção da maioria no Congresso capitaneada pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, muito elogiado por Lula. “Essa transformação do Estado brasileiro só se tornou possível com tanta profundidade e em prazo tão curto, porque chamamos ao diálogo todos os governadores eleitos em 2002, porque tivemos a ousadia democrática de debater e construir consensos com a liderança de todos os partidos, inclusive os da oposição”, avaliou. “Nosso método sempre foi este, do diálogo e da negociação em torno de objetivos concretos. Sem abrir mão de convicções e princípios, o governo optou pelo entendimento ao invés de impor ao Congresso a lógica da maioria contra a minoria”, afirmou o presidente, que iniciou o mandato refém dos mercados financeiro e político e terminou o ano com ambos domesticados.
Participação da sociedade
Lula fez questão de mencionar como uma marca de seu governo a participação da sociedade na definição de políticas públicas. Mencionou as discussões para elaboração do Plano Plurianual de Investimentos (PPA), a participação do Fórum Nacional do Trabalho na proposta de crédito aos trabalhadores com desconto na folha de salários e a definição do Plano Nacional de Reforma Agrária a partir de propostas de fora do governo. Além da apreciação das reformas pelo Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social e do programa de combate à fome e do plano de safra para a agricultura familiar pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea). “Abrimos o Palácio do Planalto para a diretoria da UNE, que aqui não entrava havia dez anos. E também para a Associação Brasileira de ONGs, a Abong, que aqui jamais havia entrado para falar com o presidente da República. Recebi as lideranças de todas as instituições religiosas e também do MST, do Grito da Terra, da Contag, da Marcha das Margaridas e, praticamente, de todas as entidades nacionais de empresários dos diversos setores”, lembrou. “Minha agenda de trabalho tem sido um permanente encontro com a sociedade brasileira”, definiu o presidente, destacando que seu governo reconhece a sociedade como sujeito ativo e fundamental na construção da cidadania.
Lula reafirmou seu compromisso com a reforma agrária, com a prioridade do programa Fome Zero, com o combate ao analfabetismo. Apresentou uma infinidade de números para sustentar que, apesar das dificuldades iniciais, o governo está cumprindo as metas e tem muito a mostrar na área social neste primeiro ano. Deu ênfase à ousadia e à criatividade da diplomacia brasileira, que teria reforçado o peso político internacional do Brasil, além de abrir novos mercados. Destacando os recursos para investimentos no ano que vem (R$ 47,3 bilhões do BNDES, R$ 41 bilhões da Caixa Econômica Federal e R$ 103 bilhões do Banco do Brasil), assegurou que 2004 será melhor que 2003.
Ligação direta
Com a prestação de contas, o presidente estabeleceu uma ligação direta com a sociedade, concorrendo com a intermediação da mídia, que normalmente faz balanços negativos dos governos ao fim de cada ano. Ele ofereceu também informações valiosas para seus aliados defenderem o governo nos embates políticos e ideológicos. São números que contrastam com a sensação de inércia do governo diante da política econômica conservadora e restritiva. Lula fez questão de enfatizar que essa política não está sendo executada por escolha do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ou do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. “Não tem política do Palocci, não tem política do Lula, não tem política do José Dirceu, não tem política do José Alencar, não tem política do Gushiken, não tem política da Marina. Tem política de governo. Portanto, a política econômica não é a do Palocci, não é a do Meirelles. A política econômica é a que nós, do governo, entendemos que era possível fazer”, avisou.
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