Política

Pandora Papers: Paulo Guedes e Roberto Campos operaram em paraísos fiscais

A América Latina, região mais desigual do planeta, é aquela com mais líderes e ex-líderes envolvidos na explosiva investigação sobre paraísos fiscais

04/10/2021 12:27

(Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/EBC)

Créditos da foto: (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil/EBC)

 
A região mais desigual do planeta, por sua vez, é aquela com mais líderes e ex-líderes manchados pela explosiva investigação sobre paraísos fiscais realizada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ). Três presidentes ativos, 11 ex-presidentes, ministros e altos funcionários da América Latina usaram, de acordo com o extenso relatório, uma rede de empresas offshore em paraísos fiscais para esconder suas riquezas e sonegar impostos.

No caso de Sebastián Piñera, os chamados Pandora Papers indicam a venda da Minera Dominga por meio de uma conta offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Quanto ao seu homólogo Guillermo Lasso, os documentos vazados destacam que ele tinha 14 empresas offshore principalmente no Panamá, enquanto o dominicano Luis Abinader tem vínculos e está registrado como beneficiário de duas empresas no Panamá: Littlecot Inc. e Padreso SA.

Os três líderes estão unidos por um fio condutor: foram, cada um a seu modo, empresários prósperos que acumularam fortunas familiares. A investigação que dá continuidade aos Panama Papers inclui também funcionários como o influente ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, e ex-presidentes como o peruano Pedro Pablo Kuczynski e o paraguaio Horacio Cartes.


Legenda do gráfico: De onde são os políticos que aparecem nos Pandora Papers?

Brasil: Paulo Guedes e Roberto Campos

Os dois homens mais poderosos do mundo econômico brasileiro, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto, ministro da Economia e presidente do Banco Central, respectivamente, também aparecem nos Pandora Papers. Guedes foi um dos acionistas e administrador da Dreadnoughts International Group, empresa constituída nas Ilhas Virgens Britânicas em 2014.

Documentos vazados no domingo mostram que Guedes, guru econômico do presidente Jair Bolsonaro e muito ligado à elite financeira local, tinha em 2014 pelo menos oito milhões de dólares investidos na empresa registrada em seu nome, o de sua esposa, María Cristina Bolívar. , e de sua filha, Paula Drumond Guedes. No ano seguinte, esse número havia subido para 9,5 milhões, segundo os documentos obtidos pela investigação, liderada no Brasil pela revista Piauí.

Campos, por sua vez, é dono de quatro empresas. Duas delas, Cor Assets e ROCN Limited, são registradas no Panamá em sociedade com sua esposa, a advogada Adriana Buccolo de Oliveira Campos. O objetivo declarado das empresas é investir nos ativos financeiros do Santander Private Bank, onde o atual presidente do Banco Central era membro do conselho executivo.

Guedes, cofundador do banco de investimentos BTG Pactual, foi um dos principais assessores da campanha do presidente Jair Bolsonaro. O ministro da Economia, que afirma ter declarado suas empresas offshore, foi o responsável por enviar ao Congresso o projeto de reforma tributária que beneficia quem tem dinheiro em paraísos fiscais. Campos, por sua vez, assinou resolução que isenta quem tem patrimônio inferior a um milhão de dólares no exterior de apresentar contas ao Banco Central.

Chile: Piñera e um projeto polêmico

Os Pandora Papers revelaram neste domingo (3) que o presidente do Chile, Sebastián Piñera, negociou no paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas a compra e venda do polêmico megaprojeto mineiro Dominga. A investigação do ICIJ indica que a família Piñera Morel era a maior acionista desse projeto empresarial que vendeu ao empresário Carlos Alberto Délano, um dos melhores amigos do presidente.

Em 2010 e quando Piñera completou nove meses em seu primeiro mandato (2010-2014), Délano comprou por 152 milhões de dólares a porcentagem de todos os sócios. Parte da transação foi selada com um documento assinado no Chile por 14 milhões de dólares e outro nas Ilhas Virgens Britânicas por 138 milhões de dólares, segundo o ICIJ. No paraíso fiscal, foi assinado contrato que previa o pagamento em três parcelas. Para cumprir este último, não deveria haver mudanças regulatórias que impedissem a instalação da mina e seu porto, segundo a Ciper, a mídia chilena que colaborou na investigação.

O megaprojeto de mineração foi aprovado em agosto deste ano por uma comissão ambiental e o apoio de dez secretários ministeriais regionais, após ter sido rejeitado em 2017 pelo governo de Michelle Bachelet e um tribunal ambiental. Após uma ação movida pela empresa responsável pelo projeto, Andes Iron, contra o Serviço de Avaliação Ambiental (SEA), a iniciativa que visa produzir mais de 150 mil toneladas de minérios ganhou luz verde.

O presidente do Chile, que tem uma das maiores fortunas do país e deixará o poder em março de 2022, negou no domingo ter "participado ou tido alguma informação sobre o processo de venda" do megaprojeto Dominga. Um comunicado de seu governo destacou que os fatos mencionados "já foram apurados" e acrescentou que "o Ministério Público recomendou que o caso fosse encerrado por inexistência de crime".

Piñera lançou seu negócio de cartão de crédito na década de 1970 e serviu como senador durante grande parte da década de 1990, antes de concorrer duas vezes à presidência. Sua fortuna é estimada em 2,8 bilhões de dólares. Como candidato em 2018, Piñera prometeu que ele e sua família colocariam todas as suas empresas em trustes cegos, mas esses trustes foram implementados apenas para as empresas de sua família no Chile, não para os investimentos de seus filhos no exterior.

Equador: ex-banqueiro Guillermo Lasso

As aspirações políticas do ex-diretor do Banco Guayaquil, Guillermo Lasso, o levaram a mudar a estrutura das empresas que tinha fora do país. A Pandora Papers afirmou que o atual presidente do Equador está vinculado a 14 empresas offshore criadas no Panamá, Estados Unidos e Canadá, das quais 10 já estão inativas. Fechou-os depois que o Correísmo aprovou uma lei que proibia os candidatos presidenciais de terem empresas em paraísos fiscais.

O Bretten Trust e o Liberty US Trust foram criados em 2017 em South Dakota. Lasso disse ao ICIJ que ele "não tem nenhuma relação com relação a propriedade, controle, lucro ou interesse de qualquer tipo" com esses fundos de empresas. “Sempre cumpri a lei equatoriana que proíbe candidatos e servidores públicos de ter empresas offshore, exatamente como indiquei em minhas declarações”, garantiu o presidente em carta enviada ao ICIJ e ao jornal Universal no dia 27 de setembro, em que destacou que sua receita provém do Banco Guayaquil.

No primeiro turno presidencial de 2017, os equatorianos aprovaram uma consulta popular para proibir qualquer candidato de ser beneficiário de qualquer entidade em paraísos fiscais. Essa consulta virou lei durante o governo de Rafael Correa. Este jornal contou há meses como, por meio de mecanismos como empresas de fachada ou laranjas, Lasso conseguiu superar os obstáculos para se tornar um candidato presidencial.

República Dominicana: Luis Abinader

O presidente da República Dominicana, Luis Abinader, é outro dos líderes mundiais ativos que, segundo investigação do ICIJ, escondeu bilhões de dólares para sonegar impostos. Os documentos vazados e analisados por 600 jornalistas de 150 meios de comunicação, incluindo o Dominican News SIN, mostram que a Abinader está ligada a duas empresas offshore no Panamá: Littlecot Inc., que ele possui junto com sua irmã e irmão, e Padreso SA, da qual todos os três irmãos são acionistas.

Nesse caso, os Pandora Papers revelam que as duas empresas foram criadas antes de Abinader se tornar presidente. Abinader é o servidor público mais rico da República Dominicana. Sua fortuna chega a aproximadamente US$ 70 milhões, de acordo com o balanço patrimonial que ele apresentou um mês antes de ser eleito presidente em 2020.

Paraguai: Horacio Cartes

Enquanto Horacio Cartes ocupava a presidência do Paraguai, ele e sua família eram donos de empresas offshore com propriedades no valor de mais de um milhão de dólares. De acordo com os Pandora Papers, Cartes e seus três filhos eram proprietários de uma empresa offshore no Panamá chamada Dominicana Acquisition SA, à qual se juntaram outras duas em 2011, Manantial Azul Development Corp. e Florale Business Corp.

De acordo com a investigação, as três empresas familiares foram criadas para investir em imóveis e para serem correntistas no Banco BASA, de propriedade do Grupo Cartes no Paraguai. O consultor jurídico de Cartes respondeu ao ICIJ que a empresa dominicana foi usada como veículo legal para a compra de um apartamento em Miami e que a empresa nunca teve contas bancárias.

Cartes é um dos políticos mais influentes e um dos empresários mais ricos do Paraguai. Em novembro de 2019, um juiz no Brasil emitiu um mandado de prisão contra o empresário como parte da Operação Lava Jato. O Ministério Público alegou que Cartes pagou US$ 500.000 a uma organização criminosa para ajudar a esconder das autoridades seu "irmão de alma" Darío Messer, um cambista que havia fugido. O ex-presidente paraguaio negou as acusações e o mandado de prisão foi revogado logo após sua emissão.

Peru: Pedro Pablo Kuczynski

Um contrato revelado pelo projeto Pandora Papers mostrou que o ex-presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, criou a empresa offshore Dorado Asset Management Ltd nas Ilhas Virgens Britânicas quando atuou como Ministro da Economia e Finanças (2004-2005) durante a gestão de Alejandro Toledo. A Dorado Asset está listada como proprietária das duas casas que Kuczynski possui no Peru.

A offshore foi criada para a posse de bens imóveis. No entanto, o portal da Convoca, que acedeu aos documentos, revelou que a empresa pretendia também prestar serviços de consultoria financeira. O Ministério Público do Peru sustenta que a offshore Dorado é "chave", uma vez que os supostos lucros ilícitos dos negócios de Kuczynski com a Odebrecht teriam vindo dessa administradora. Essa suspeita agora faz parte da investigação da equipe especial do Lava Jato.

*Publicado originalmente em Página 12 | traduzido por César Locatelli

Conteúdo Relacionado