Política

Pandora Papers: o que foi revelado até agora?

Revelações importantes de arquivos vazados expõem um mundo financeiro alternativo no qual os super ricos podem esconder seus bens a pagar baixos impostos, ou nenhum

08/10/2021 10:55

(Ilustração/Guardian Design)

Créditos da foto: (Ilustração/Guardian Design)

 
O que são os Pandora Papers?

Os Pandora Papers representam o armazenamento – vazado - de 11.9 milhões de arquivos de empresas especializadas na criação de empresas e fundos offshore. Fazem parte do último grande vazamento de dados a expor um mundo financeiro alternativo no qual os super ricos podem esconder seus bens e pagar baixos impostos, ou nenhum, desde o caso dos Panamá Papers em 2016 e os Paradise Papers em 2017.

O que eles mostram?

Os arquivos revelam como indivíduos ricos podem proteger seus rendimentos e bens da tributação e fiscalização de terceiros ao escondê-los em jurisdições offshore, mais conhecidas como “paraísos fiscais”.

Nem todo mundo nomeado nos Pandora Papers está sendo acusado de algum crime. Mas ao usar empresas ou fundos incorporados em paraísos fiscais como os das Ilhas Virgens Britânicas, do Panamá ou da Suíça, os ricos conseguem garantir que seus bens permaneçam escondidos, e, às vezes, isso permite a evasão fiscal.

As revelações até agora

Abdullah al-Hussein, o rei da Jordânia, acumulou um império de 100 milhões de dólares escondido por meio de empresas offshore. Seus advogados dizem que não há nada de ilegal em manter seu portfólio de imóveis offshore, mas a revelação será um assunto altamente sensível na Jordânia, onde ativistas já foram presos simplesmente por questionarem a quantidade de terra que o rei possui.

A propriedade da coroa da Rainha iniciou uma supervisão interna após os arquivos terem revelado que foram pagos 67 milhões de libras à família de Ilham Aliyev, presidente do Azerbaijão, de modo a adquirir parte do seu portfólio de imóveis londrino. O clã Aliyev preside o Azerbaijão, um dos países mais corruptos do mundo, há 20 anos. Aliyev e sua família não responderam aos nossos pedidos por comentários.

Tony Blair, ex primeiro-ministro britânico, e sua esposa, Cherie, parecem ter salvado 300.000 libras em impostos de selo após adquirir uma propriedade pertencente a uma empresa offshore. Não há indicações de ato criminoso por parte dos Blairs ou dos vendedores, embora o acordo mostre o quão rotineiro se tornou o uso de empresas offshore que praticam a evasão fiscal para a realização de transações imobiliárias de alto valor.

Foi revelado que Mohamed Amersi, doador do partido Conservador, que financiou a campanha de Boris Johnson, foi conselheiro em um acordo que, na realidade, era uma propina de 162 milhões de libras para a filha do presidente do Uzbequistão, como foi descoberto depois. Os advogados de Amersi disseram que qualquer sugestão de que ele havia facilitado “propositalmente” os pagamentos corruptos era falsa e que os arranjos para o acordo já estavam estabelecidos antes do seu envolvimento.

Segundo os arquivos, Viktor Fedotov, magnata do petróleo, nascido na Rússia, cuja firma já fez enormes doações ao partido Conservador, secretamente detinha uma empresa que já foi acusada de participação em grandes esquemas de corrupção. Fedotov disse que estava muito indisposto para comentar, mas que nega qualquer má conduta.

Os arquivos revelam a extraordinária riqueza escondida pelo círculo interno do presidente russo Vladimir Putin. Seu amigo de infância e uma suposta ex-amante estão entre as pessoas que, aparentemente, acumularam uma riqueza extraordinária, escondida por meio de empresas offshore.

A firma de advocacia de Nicos Anastasiades, o presidente do Chipre, e que ainda carrega seu nome, foi reportada a reguladores financeiros por uma fornecedora de serviços offshore que acreditou que a firma havia concedido nomes falsos para esconder bens de um controverso oligarca russo. O presidente insiste que não tem nada a ver com a firma há anos, enquanto a empresa nega veementemente qualquer má conduta.

Foi revelado que o primeiro-ministro tcheco, Andrej Babiš, que disputa a reeleição essa semana, adquiriu um chalé no sul da França encaminhando dinheiro por uma série de empresas offshore. Ele nega qualquer má conduta.

Foi revelado que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, transferiu as ações que tinha em uma empresa offshore para um amigo apenas semanas antes da sua eleição. Quando abordado para comentários, seu porta-voz disse: “Não terá uma resposta”.

Os arquivos sugerem que Moonis Elahi, ministro paquistanês de recursos hídricos, desistiu de fazer investimentos por meio de paraísos fiscais offshore após ser alertado que as autoridades fiscais do seu país seriam avisadas. Um porta-voz negou má conduta e disse que todas as declarações exigidas por lei foram feitas.

O presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, e sua família foram nomeados por terem acumulado 30 milhões de dólares em bens offshore, incluindo uma propriedade em Londres. Kenyatta já pediu aos políticos do seu país que divulgassem publicamente seus bens. Ele não respondeu aos pedidos por comentários.

A riqueza de Lubov Chernukhin, que doou 2.1 milhões de libras para os Tories desde 2012, parece fluir em parte de estruturas corporativas do seu marido, Vladimir, ex-banqueiro estatal russo e ministro das finanças no governo de Putin. Os arquivos também revelaram o quanto o casal depende de uma vasta rede de empresas offshore para financiar seu estilo de vida. Seus advogados negam que as doações de Lubov Chernukhin foram financiadas inadequadamente ou influenciadas por outra pessoa.

Chefes de Estado, oligarcas, magnatas de negócios, famílias poderosas e um monarca do Oriente Médio estão entre os detentores anônimos de, ao menos, 4 bilhões de libras em propriedade no Reino Unido, revelam os arquivos. Muitas dessas propriedades estão nos ceps mais exclusivos de Londres: Mayfair, Knightsbridge, Kensington e Belgravia.

Os lucros da Unaoil, uma empresa baseada em Mônaco que está por trás do que já foi chamado de “o maior escândalo de propina do mundo”, passaram por uma série de empresas offshore antes de serem investidos em 200 milhões de libras em propriedades no Reino Unido, sugerem os documentos.

Ben Elliot, co-presidente do partido Conservador, detinha a posse conjunta de uma empresa secreta de financiamento de filmes que se beneficiava indiretamente de mais de 120.000 libras em créditos fiscais no Reino Unido.

Douglas Latchford, um prolífico comerciante de peças com herança cultural cambojana roubadas, usou fundos e empresas offshore para transferir a posse de antiguidades sagradas Khmer e evitar o imposto sobre heranças britânico sobre o lucro de suas vendas.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isaela Palhares

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