Política

Petistas rebeldes perto da expulsão

12/12/2003 00:00

Brasília - O Dia 14 de dezembro de 2003 pode entrar para a história como o mais doloroso da trajetória política do Partido dos Trabalhadores. Se a senadora Heloisa Helena (PT-AL) e os deputados que votaram contra a orientação do partido na reforma da Previdência não assumirem o compromisso de acatar as decisões futuras, serão expulsos do PT. Um grupo de parlamentares da ala mais à esquerda do partido ainda tenta evitar o desfecho da expulsão. Mas a reversão ficou mais difícil depois que o Campo Majoritário, que controla dois terços da direção do partido, decidiu votar pela expulsão.
"O partido não pode ficar refém de quatro parlamentares", justificou o presidente do PT, José Genoino. Ele comentou que, se fosse possível interceder por alguém, o faria pelos deputados Luciana Genro (PT-RS) e João Batista Babá (PT-PA). "Eles, sim, foram coerentes, porque acreditam naquelas teses esquerdistas deles e fizeram a crítica política, mas não ofenderam nem desmoralizaram o partido", considerou.
Genoino diz que fez quatro acordos com Heloisa Helena, desde a indicação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e nenhum foi cumprido. O caso do deputado João Fontes (PT-SE) é diferente. O processo é por causa da divulgação de uma fita, gravada há cerca de 10 anos, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ataca o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), que hoje o apóia.
Por razões diferentes, Heloisa e Fontes são considerados desleais pela direção do PT. Mesmo assim, para evitar o desgaste da expulsão, muitas saídas foram sinalizadas. Se a senadora tivesse dado, ao menos, o voto favorável no segundo turno da reforma da Previdência, o processo teria caminhado para outro desfecho. "Desgaste pior é o PT ficar sangrando de acordo com o humor, de acordo com a agenda da semana ou do mês. Ao invés de discutir política, ao invés de discutir estratégia, a gente fica amarrado nesse enfrentamento que não acaba nunca", desabafou Genoino antes de iniciar a reunião do Diretório Nacional que culminará com o julgamento dos dissidentes.
Apelos contra a expulsão
Integrante do Diretório, Heloisa não compareceu à primeira parte da reunião, que discutiu a conjuntura e aprovou a tese do Campo Majoritário, que endossa a condução política do governo em quase todas as áreas, cobrando apenas um pouco mais de rapidez na execução dos programas sociais. Foi devidamente representada pelo grupo Amigos da Heloisa, que entregou a Genoino mais de 20 mil pedidos para que o PT não a expulse. A pilha de e-mails e listas de assinaturas foi levada em um carrinho de mão. Na entrada do Hotel Blue Tree, um dos mais luxuosos de Brasília, onde está sendo realizado o encontro, duas dezenas de faixas apelando para que a "coerência" não seja punida com a expulsão. Em contrapartida, dentro do Hotel, na porta do local reservado para a reunião, duas faixas defendendo a direção do PT. "Opinião, sim. Deslealdade, não. PT Brasília 100% Lula".
A primeira parte da reunião ocorreu em clima de velório. Na tentativa de evitar o fato consumado, apenas quatro parlamentares: o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e os deputados Walter Pinheiro (PT-BA), Chico Alencar (PT-RJ) e Ivan Valente (PT-SP). "Estamos tentando o gesto (de Heloisa), mas precisa do gesto lá e do gesto cá para ter a confluência dos gestos", disse Pinheiro, sem otimismo. Ele conta que mesmo com a expulsão, a Democracia Socialista, tendência dele, de Heloisa e do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, continuará abrigando a senadora, fato incomum.
Suplicy estava agitado na reunião. Cobrou do Campo Majoritário o fato de ter sido excluído da reunião que decidiu pela expulsão. E estranhou o fato de não ter direito a voto na reunião. Ele era titular até o início do ano, quando entregou a liderança do partido no Senado a Tião Viana (PT-AC). Como suplente, vinha participando das reuniões anteriores no lugar de titulares, mas, desta vez, lhe informaram que chegou atrasado e não teria direito a voto. Garante que vai falar em defesa de Heloisa e está pedindo à direção do PT que abre o julgamento para a imprensa - o que dificilmente ocorrerá.
Dissidência abandonada
O movimento em defesa da senadora é entendido pelo deputado Paulo Delgado (PT-MG) como a tentativa de aglutinar a dissidência em torno de uma liderança que ganhou projeção nacional pelas posições que assumiu. Mas a própria Heloisa teria abortado esse processo ao não ajudar na construção de uma saída para o impasse. "A dissidência ficou abandonada. Heloisa Helena preferiu ficar com o voto individual a liderar um grupo de 30 deputados e cinco senadores", analisou Delgado.
Na tentativa de encontrar um caminho alternativo, o ministro Olívio Dutra (PT-RS) propôs a suspensão dos rebeldes por um ano, com acompanhamento das ações deles pelo conselho de ética do partido. "Os quatro parlamentares devem ter uma chance. Cometeram infrações sérias, que não podem ser relevadas. Mas a expulsão seria uma pena muito dura", justificou Olívio, que lançou a proposta, mas não batalhou por ela. Teve de ir à Festa Nacional do Churrasco, em Bagé (RS).
O ministro da Saúde, Humberto Costa (PT-PE), não chegou a comentar a proposta, mas está convicto da necessidade de punição. Considera que o partido só chegou ao poder graças à unidade de ação e que uma punição branda seria injusto para quem manteve a lealdade. "É preciso ter disciplina e lealdade com o partido. Perdoar seria injusto com aqueles que tiveram a lealdade política que o governo precisava, mesmo com o sacrifício de contrariar suas bases."
O ministro da Educação, Cristovam Buarque (PT-DF), não quis adiantar seu voto, mas indicou que deseja alguma punição. "A palavra é do parlamentar, mas o voto é do partido". Cristovam considera a expulsão dolorosa, mas emblemática e histórica, porque está polarizando não só o partido, mas a opinião pública. "Amanhã, vocês não vão escrever nos jornais, vão escrever nos livros de história", observou o ministro, referindo-se à cobertura da imprensa.
Vitória do Campo Majoritário
A primeira parte da reunião do Diretório do PT mostrou que a votação das reformas, a política econômica restritiva, as alianças conservadoras e o processo de expulsão dos rebeldes não abalaram a hegemonia do Campo Majoritário. A tese vencedora, que orientará a ação do partido nos próximos meses, tanto em relação às cobranças de ações do governo quanto na formação de alianças para a disputa das eleições municipais, teve 46 votos em 75. A tese defendida por uma aliança de cinco tendências lideradas pela DS e pela Articulação de Esquerda, que propunha mudanças imediatas na política econômica, rompimento com o FMI, saída do Brasil das negociações da Alca e alianças mais restritas, teve apenas 19. A tese do Movimento PT teve seis votos, e a do Trabalho, dois votos.
A tese do Campo Majoritário é um elogio ao governo, que recebe nota nove de vários integrantes da tendência hegemônica. As poucas falhas reconhecidas estão mais em conduções pontuais, principalmente das políticas sociais. O documento ignora o acordo com o FMI, prevê mudanças na política econômica só depois de junho do próximo ano, respaldando a condução do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. No campo das alianças estão liberadas coligações com todos os partidos da base governista, desde que os aliados não tenham o nome sujo na praça. Alianças com os partidos de oposição (PFL e PSDB), só com autorização da direção nacional.
A defesa da política econômica foi feita pelo líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), mas coube ao ministro da Casa Civil, José Dirceu (PT-SP), o puxão de orelhas geral pelas críticas das alas minoritárias do partido. Frisando que falava como integrante do Diretório e não como ministro, Dirceu considerou uma "insanidade" da esquerda criticar o governo de forma dura - que considerou injusta - como fizeram as tendências nas teses apresentadas para a reunião. Disse que o governo está enfrentando a direita em várias frentes e que essa atitude crítica da esquerda pode acabar empurrando o governo mais para a direita.
Aplausos e dúvidas
A defesa das teses foi precedida de debates com os ministros Palocci e Celso Amorim, das Relações Exteriores. Aplausos para a política externa ousada e muitas dúvidas sobre a política econômica conservadora. A esquerda gostou de ouvir Palocci reconhecendo que apenas garantir a estabilidade é insuficiente para um governo do PT. Mas ficaram preocupados com a avaliação de que o país precisa manter o atual nível de superávit primário por mais dez anos. "É evidente que ele acredita na política que vem desenvolvendo. Mas a vulnerabilidade externa do País continua sujeita a variáveis que não dependem do governo brasileiro. Esse vai ser um debate permanente no PT", avaliou o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). "Palocci faz avaliação correta do passado, explica por que foram necessárias certas iniciativas, mas não apresenta proposta para o futuro. Essa é a angústia nossa", disse a deputada Maria José Maninha (PT-DF).
O ministro da Fazenda fez uma cobrança e lançou um desafio ao PT. Disse que o partido precisa deixar a macroeconomia de lado e começar a debater a microeconomia. "Qual a proposta tributária do PT? Qual a proposta de geração de empregos do PT?", indagou. O desafio é o debate sobre a autonomia do Banco Central, que ele recolocará na agenda do governo no ano que vem. "Escolham hora e local para apresentarmos armas", brincou Palocci. O ministro até que se saiu bem no debate, mas não recebeu nenhum elogio pelo trabalho. Os louros do dia ficaram com Amorim, que até encontrou uma explicação para o fato: "Na política externa, gestos são importantes, mesmo que as coisas demorem a se concretizar. Na política econômica, os gestos não adiantam nada."


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