Política

Raul Pont, a trajetória de um homem necessário

14/05/2004 00:00


Porto Alegre - A história de um homem pode ser contada através de suas obras, idéias, princípios e projetos. E, da mesma forma, a história de um projeto pode ser contada através da trajetória dos homens que o constroem. No caso de Raul Pont, que no dia 14 de maio completa 60 anos de vida, as duas coisas se misturam. Não há como falar de sua vida sem falar do projeto que ela encarna e vice-versa. São 60 anos de vida, 40 de militância política e mais de 30 dedicados à vida pública. Uma vida transformada em luta, vivida à esquerda e dedicada inteiramente à política. Porto Alegre é o terreno principal dessa luta. Ao lado de Olívio Dutra, Tarso Genro e João Verle, Raul Pont figura na galeria de prefeitos petistas responsáveis pela transformação da capital gaúcha em uma referência internacional, sinônimo de democracia participativa, sede do Fórum Social Mundial, prova de que a esquerda pode governar à esquerda, de que a história pode ser inventada.

Líder estudantil, militante sindical, deputado estadual, deputado federal, prefeito; a trajetória de Raul Pont pode ser descrita como a história de um homem necessário. Não porque a história fez ele necessário, mas porque suas escolhas ajudaram a reinventar a história. E, em um tempo onde o desencanto com a política anda de mãos dadas com a mercantilização da vida, reinventar a história torna-se uma tarefa necessária.

Ninguém se transforma completamente, ninguém se torna aquilo que não é, diz uma máxima de Hegel. A tarefa do indivíduo na vida é tornar-se aquilo que ele é. A trajetória e a obra de Raul Pont mostra alguém que deu conta disso, alguém que encontrou a política e assumiu-a como seu destino. Há várias formas de contar essa história. Uma delas é olhar para a sua origem, seus primeiros passos, que mostram, como disse Hegel, aquilo que cada um é e pode vir a ser. Essa escolha pode ajudar a responder uma instigante questão: como uma vida pode se tornar necessária?

Era uma vez o Grêmio Lítero-Artístico Castro Alves...
Os primeiros passos dessa trajetória foram dados em Uruguaiana, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. O menino Raul Pont viveu uma vida comum. Estudou sempre no Colégio União, uma escola fundada em 1870 pelo seu bisavô e, desde 1910, assumida pela Igreja Metodista. Cursou lá o primário e o científico, como se dizia antigamente. Um colégio metodista típico, que dava muita importância à vida esportiva e coletiva. Não havia turno integral mas o colégio era, para Raul, de fato, um lugar de tempo integral. Passava o dia lá, alternando os estudos com jogos de futebol e basquete.

Seu pai trabalhava na área de contabilidade. Tinha sido um pequeno empresário do setor de panificação. Junto com a mãe de Raul tinha herdado uma pequena padaria. Depois mudou de ramo. Trabalhou no próprio Colégio União como secretário executivo, foi secretário do Sindicato do Comércio Varejista de Uruguaiana. Sua mãe continuou sempre trabalhando no comércio. A partir dos 15 anos, Raul começou a trabalhar com o pai. Quando não estava na escola, estava ajudando na contabilidade do Sindicato ou então jogando basquete, futebol, “bolita” (bola de gude) , levantando “pandorga” (pipa, papagaio), ou ainda pescando no rio Uruguai. Uma típica vida de adolescente do interior, portanto.

Os primeiros sinais do aparecimento da política na vida de Raul Pont se dão com pequenas participações no Grêmio Lítero-Artístico Castro Alves, do Colégio União, que era muito ativo. Os colégios metodistas estimulavam muito a assembléia de estudantes, que ocorria uma vez por semana. Era de caráter lítero-artístico mesmo. Do ponto de vista do conteúdo, não era nada que lembrasse os acalorados debates da militância estudantil de esquerda que Raul conheceria anos depois, ou, menos ainda, as reuniões do Orçamento Participativo, que ele ajudaria a inventar muitos anos depois. Do ponto de vista formal, quem sabe...Naquelas assembléias, os estudantes apresentavam uma biografia de algum herói da pátria, declamavam poesia, tocavam piano, coisas do gênero. Era uma programação artístico-cultural organizada pelos próprios estudantes, que valorizava muito a ação coletiva.

No início dos anos 60, quando começou a trabalhar com o pai, Raul passou a estudar à noite, onde as atividades do grêmio estudantil já eram bem mais politizadas. Já tinha gente dando palpite sobre a política nacional, o PTB, Jânio Quadros, etc. Anos muito conturbados que chegavam lá em Uruguaiana meio atrasados, mas chegavam. Chegavam notícias da legalidade, da Revolução Cubana. Já havia gente de esquerda disputando a direção da União de Estudantes de Uruguaiana e alguns núcleos de comunistas que atuavam no interior do PTB. Mas tudo isso não fazia muito parte da vida de Raul, pelo menos que ele soubesse. Terminou os estudos em 1962, já era bancário na época (no Banco Riograndense de Expansão Econômica) e então mudou-se para Porto Alegre. Aí, sua história começa a mudar.

De Castro Alves a Franklin Roosevelt
Conseguiu transferência no banco e continuou a trabalhar na capital. Aí começou a ter suas primeiras participações na assembléia do Sindicato dos Bancários. Mas o seu envolvimento político mesmo começou na universidade. Em 1964, ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no curso de História. A Faculdade de Filosofia era o centro político na época. Reunia 12 cursos agrupados no mesmo espaço físico. Havia uma interação muito grande entre os estudantes e uma idéia de que todos pertenciam à Faculdade de Filosofia e Ciências. Uma idéia de pertencimento que a ditadura militar vai esmagar brutalmente, com conseqüências nefastas para o país que repercutem até hoje.

Para quem havia participado do Grêmio Lítero-Artístico Castro Alves, o Centro Acadêmico Franklin Delano Roosevelt (CAFDR) representou uma pequena revolução. Uma revolução acelerada pelo golpe militar de 1964. O presidente do CAFDR, Flavio Koutzii (hoje deputado estadual no RS, ex-chefe da Casa Civil do Governo Olívio Dutra), foi cassado, provocando uma forte reação dos estudantes. Professores também começaram a ser cassados. Raul começou a se envolver mais no Centro Acadêmico. Nesta época, além de trabalhar e estudar, jogava basquete no Cruzeiro, um time que disputava o campeonato da cidade. Sua vida era uma roda-viva, mas a política, aos poucos, foi roubando o espaço das quadras de basquete. Os estudantes organizaram uma chapa, uma frente do Partido Comunista com a Ação Popular, para retomar a entidade. Ele foi se envolvendo cada vez mais e já começava a identificar quem era quem e qual era o seu lado, no caso, o esquerdo, com a juventude universitária do Partido Comunista.

Vivendo a política em tempo integral
Em 1966, suspendeu o curso de História e foi para a Economia. Lá começou a ter uma militância mais orgânica, integrando-se numa célula do PCB. Aí começou a desenvolver uma militância que nunca mais cessou. Passou a viver a política em tempo integral. O grupo onde atuava passou a disputar a linha interna do Partido Comunista. Junto com militantes da Polop (Política Operária), esse grupo elaborou teses críticas às orientações do Comitê Central e aprovou essas teses no movimento estudantil. Era um debate clandestino, os tempos eram de ditadura. O rompimento era inevitável. Simultaneamente, os participantes desse grupo saíram e foram expulsos do Partido Comunista, que reafirmou a linha de Luis Carlos Prestes. Raul Pont e seus companheiros tomaram outro rumo.

Seu grupo chamava-se Dissidência Leninista que depois vai dar origem ao Partido Operário Comunista (POC), junto com a Organização Revolucionária Marxista Política Operária, mais conhecida como Polop. Tinha uma força grande junto ao movimento estudantil, o que levará Raul Pont a seu primeiro cargo público: presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFRGS, em 1968, em pleno ano do AI-5. Sua vida foi virando de ponta à cabeça. Demitido do banco, fez concurso no Instituto de Previdência do Estado (IPE), onde não ficou muito tempo. Preso no congresso da UNE em Ibiúna, acabou saindo do IPE. Fez concurso para a Petrobrás, mas foi proibido de trabalhar, apesar de aprovado. Sobrevivia dando aulas em cursinhos de pré-vestibular e fazendo “bicos” no Centro Acadêmico. O RU (Restaurante Universitário) quebrava o galho na comida.

A repressão começou a engrossar e, em 1969, teve que sair de Porto Alegre. Raul foi então para São Paulo, onde continuou trabalhando como professor em cursinhos “madureza”. Também continuou militando no POC, que vai sofrer um racha em virtude de velhas divergências que vinham desde sua fundação, especialmente em torno da questão da luta armada. Era uma organização pequena, mas que tinha conseguido ter um pé em vários estados e começava a ter uma certa coluna vertebral nacional, pelo menos da Bahia para baixo. Com o endurecimento da repressão contra os grupos de esquerda que começaram a fazer ações armadas, o POC também entrou na linha de tiro da ditadura. Entre 1970 e 1971, muitos militantes desses grupos se exilaram, se esconderam, foram presos, torturados ou mortos. Raul foi preso em São Paulo em 1971. Ficou preso até o final de 1972.

Reconstruindo a vida depois da prisão
Voltou a Porto Alegre para recomeçar a vida. Em 1973, pediu reingresso na UFRGS, onde terminou finalmente o curso de História. Reencontrou alguns companheiros e com eles montou um grupo de estudos para poder retomar o trabalho político. A partir daí, conseguiu não parar mais de novo. Em 1974, esse grupo passou a atuar junto ao Instituto de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (Iepes), do MDB, que passou a funcionar como um guarda-chuva para grupos de esquerda. A derrota eleitoral da Arena em 1974 representou uma virada na conjuntura nacional e ajudou muito a retomada da vida política. Mas a ditadura ainda existia e Raul Pont permanecia muito queimado. Aí surgiu a oportunidade de fazer uma pós-graduação em Campinas. Ficou dois anos lá, fazendo um mestrado em Ciência Política. Quando voltou a Porto Alegre, em 1977, começou a trabalhar como professor na Unisinos, em São Leopoldo, de onde só saiu em 1991, quando foi para Brasília, eleito deputado federal pelo PT.

Nesse meio tempo, ainda durante a ditadura, seguiu atuando no interior do MDB, organizado na Tendência Socialista. Sempre com um pé dentro e outra fora do MDB, mantendo um trabalho na universidade, abrindo contatos no movimento sindical. Até que surgiu o movimento pró-PT. Nesse meio tempo, a Tendência Socialista, junto com outros grupos semelhantes, assumiu uma sucursal do jornal Em Tempo, uma frente jornalística que havia rompido com o jornal Movimento, de Raimundo Pereira. A idéia era fazer um jornal nacional, semelhante ao Movimento, mas com um corte mais à esquerda, de caráter socialista. O Em Tempo acaba defendendo editorialmente a idéia de criação do PT e ajuda a organizar o partido nos locais onde tinha grupos formados (RS, SP e MG, principalmente). Esse grupo vai dar origem à tendência Democracia Socialista, onde Raul está até hoje.

Construindo o PT
Daí em diante, a vida de Raul é dedicada à construção do PT. Em 1982, é candidato ao Senado, na primeira eleição do partido. Em 1985, é candidato a prefeito em Porto Alegre, quando o PT dá seu primeiro grande salto eleitoral no Estado, chegando a 11% dos votos, superando Victor Faccioni, candidato do PDS (partido que tinha a prefeitura e o governo do Estado). Já na próxima eleição, em 1988, Olívio Dutra é eleito prefeito de Porto Alegre, dando início a um projeto que vai tornar a cidade uma referência para a esquerda mundial, tendo o Orçamento Participativo como principal símbolo. Em 1986, Raul é eleito deputado estadual e, em 1990, deputado federal. Em 1992, renunciou ao mandato para ser candidato a vice-prefeito na chapa com Tarso Genro. Após quatro anos como vice-prefeito, em 1996, é eleito prefeito de Porto Alegre, no primeiro-turno. Quando sai da prefeitura, fica trabalhando dois anos no partido e dando aulas na Universidade Estadual do RS, criada pelo governo Olívio Dutra. Em 2002, é eleito novamente deputado estadual (o mais votado do PT) e agora, em 2004, prepara-se para disputar mais uma vez a prefeitura da capital gaúcha.

Aí está, uma vida em 15 parágrafos. Das assembléias do Grêmio Lítero-Artístico Castro Alves às reuniões do Orçamento Participativo, cerca de 40 anos se passaram. Qual o fio condutor que unifica essa trajetória? Qual a prova de que essa trajetória é necessária? Essa prova é o fio que representa a luta de uma geração que pensou um projeto de país e de mundo, que enfrentou os sombrios anos da ditadura, jamais desistiu e ajudou a reinventar a história do Brasil. Entre os que ainda estão aí, dois de seus companheiros de geração e trajetória falam de Raul.

Primeiro, Emir Sader: “Raul Pont representa, da melhor forma, a continuidade, em termos de princípio e tenacidade, o espírito militante brasileiro e internacionalista dos anos 60. Combinando humildade e defesa intransigente dos objetivos da esquerda, sua figura condensa o que de melhor a militância política produziu, aliado a sua capacidade administrativa e de militância política”.

E Flávio Aguiar prossegue, com um poema, dedicado ao amigo:

Amigo Raul
Tu és o contrário do lugar comum.
Tu és o vaso bom que não quebra.
A espinha que não tem mola.
Tu és a pedra firme que água nenhuma fura.
Mas tu és do abraço, em teu coração sempre há lugar.
Tu és do bem, do bem que sempre dura.
Tu és da espera perseverante, a que nunca desespera.
Tu és daqueles que partem e repartem, e não ficam com a melhor parte, nem a pior,
Porque têm arte. A arte da confraria, da igualdade, da lucidez.
Em terra de cego, serias o olho que vê, não o rei.
Quando a coisa ficou feia e veio se debruçando, tu foste dos que ficaram de pé, exposto ao tempo, ao vento, aos ratos. Nem por isto ficaste amargo. Ser teu amigo, além de um prazer, é um orgulho.
Se tens um dever, tu vais ao seu encontro com pressa, e vais longe, o mais longe que der e vier.
Quando tomas da palavra, a esperança é a primeira que nasce.
Na cidade em que sejas o prefeito, as andorinhas fazem o verão. E mais os pardais, os tico-ticos, os bem-te-vis, os anus, os sabiás, pois todos os vôos nela têm seu canto.
Ali não tem água parada, e os moinhos da história estão sempre se movendo.
Na tua terra não tem ministro da fazenda. Tem é povo rindo no galpão.
Ali nem corrupto nem reacionário canta de galo. Ao contrário, quem tece a manhã é o Trabalho. A tua cidade tem estrelas na alma*, e a vastidão no peito.
Raul
A universidade pós-moderna decretou que o Guaíba é um lago.
Mas é um lago rebelde, que tem um rio no meio.
Tu és o espelho deste rio secreto.
Vai.

*Contribuição do imortal Túlio Piva: 

“Gente da noite,
que não liga preconceito,
tem estrelas na alma
e a lua dentro do seu peito”.

Uma vida vivida em tempo integral. Eis então do que se trata um homem necessário.


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