Política

Tarso assume Educação para reformar universidades

27/01/2004 00:00

AE

Créditos da foto: AE
Brasília – A transmissão do cargo de ministro da Educação foi emocionante, com muita cordialidade e elogios recíprocos entre os dois colegas intelectuais, que até têm perfil e ambições semelhantes. No entanto, os primeiros gestos e declarações de Tarso Genro ao assumir o posto nesta terça (27) deixaram transparecer o motivo determinante para a substituição do senador Cristovam Buarque (PT-DF) no Ministério: o ex-governador do Distrito Federal não tinha a interlocução política necessária para implementar a reforma universitária desejada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Isso ficou claro na primeira audiência formal concedida por Tarso após os cumprimentos de praxe da cerimônia – que só perdeu em comparecimento para a posse de Cristovam, que contou com o charme da presença do eterno presidente de Cuba, Fidel Castro. O novo ministro fez questão de receber primeiro o presidente da Associação Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), Luiz Carlos Lucas, que não escondeu a falta de sintonia com o ministro anterior, dizendo que essa audiência era uma reivindicação antiga da entidade. “Fomos bem recebidos no início, depois as audiências ficaram escassas e nunca tivemos respostas objetivas para nossas reivindicações”, comentou Lucas, após acertar com Tarso “as linhas gerais do que poderá ser um processo de interlocução”.
Antes do encontro, o ministro conversou com o prefeito de São Carlos, Newton Lima Neto (PT) – um nome sempre lembrado nas listas de ministeriáveis. Ex-reitor da Universidade Federal de São Carlos, Newtão tem bom trânsito na comunidade acadêmica, foi articulador do manifesto dos reitores em favor da candidatura de Lula, que neutralizou a estratégia adversária de reforçar o preconceito pela falta de diploma universitário do candidato petista, e integrante da equipe de transição de governo - durante a transmissão do cargo, só perdeu em cumprimentos para os dois ministros que protagonizaram o ato. Tarso conta com ele para abrir o diálogo com a comunidade acadêmica, principalmente no Conselho Federal de Educação, onde a batalha pela reforma universitária será decisiva.
Nova prioridade
Na primeira entrevista, após assumir formalmente o cargo, Tarso deixou claro que essa reforma é a pauta principal do governo na área de Educação, neste momento. Uma prioridade diferente da pretendida por Cristovam, que insistia – e continua insistindo – na universalização do acesso das crianças a partir de quatro anos à pré-escola. O ex-ministro transmitiu o cargo dizendo que continua sendo de esquerda. “Ser de esquerda hoje é derrubar a cerca que separa os com-sapatos dos sem-sapatos que vão para a escola, os muito educados dos analfabetos, os 10% mais ricos dos 50% mais pobres", definiu Cristovam, com a voz embargada, em uma crítica indireta ao governo que continua apoiando, mas considera insensível para os problemas sociais. “A educação é o caminho mais importante para derrubar as cercas que não permitiram até hoje que houvesse uma nação nesse território", concluiu, assegurando que continuará sendo um militante da educação no Senado.
Mantendo afinidade de discurso com o antecessor, o novo ministro assegura que o objetivo da reforma é abrir as portas da universidade à sociedade, mas deixa nas entrelinhas a impressão de que a razão da pressa é semelhante à que motivou a reforma da Previdência no primeiro ano de governo do PT: o ajuste fiscal. Ao observar que o foco da discussão é o padrão de financiamento das universidades públicas, que absorvem “de 20% a 30% dos esforços materiais e administrativos do Ministério”, o ministro revela que o governo busca um modelo de financiamento alternativo para que a formação superior continue pública, gratuita, acessível e de qualidade – hoje, o custeio é provido basicamente com recursos do orçamento federal da ordem de R$ 6,5 bilhões por ano. Ainda falta o governo deixar claro quem deverá pagar por isso. “Não há reforma em que alguém não perca. Os perdedores vão aparecer durante o debate político”, reconhece Tarso, avisando que a discussão não ficará restrita ao meio acadêmico porque, desse modo, haveria risco de prevalecerem os interesses corporativos.


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