Política

Uma data histórica para a unidade entre estudantes e trabalhadores

No próximo dia 13 de maio se completará meio século de um acontecimento histórico que é considerado um marco na unificação dos movimentos operário e estudantil. A greve geral iniciada naquele dia chegou a paralisar dez milhões de trabalhadores e uniu as bandeiras de luta de ambos os movimentos em um processo político que culminou na queda do então presidente francês

11/05/2018 18:08

 

 
 
Por Maurício Thuswohl
 
Rio de Janeiro – No próximo dia 13 de maio se completará meio século de um acontecimento histórico que é considerado um marco na unificação dos movimentos operário e estudantil. Em 1968, as ruas de Paris, já ocupadas pelos estudantes que protestavam contra o governo de Charles De Gaulle, receberam multidões de trabalhadores, em sua maioria operários que também ocuparam suas fábricas. A greve geral iniciada naquele dia chegou a paralisar dez milhões de trabalhadores e uniu as bandeiras de luta de ambos os movimentos em um processo político que culminou na queda do então presidente francês.
 
“A maior lição que temos de resgatar de Maio de 68 na França é que foi muito mais do que uma revolta estudantil. Talvez pela primeira vez, houve uma unidade entre trabalhadores e estudantes. A classe operária se mobilizou em torno de um movimento eminentemente dos estudantes”, diz o jornalista Ernesto Germano Parés. Ele falou sobre o tema durante o seminário “50 Anos das Revoltas Estudantis de 1968”, organizado pelo Coletivo Comunicação Popular do PT e realizado na noite de ontem (10) no Teatro
Casa Grande.
 
Três dias antes, em 10 de maio, aconteceu o fato que precipitou os acontecimentos mais emblemáticos de Maio de 68 na França. A polícia anunciou que iria entrar à força no campus da Sorbonne, o que fez com que os estudantes saíssem da universidade e ocupassem o Quartier Latin: “Os estudantes arrancam os paralelepípedos das ruas e construíram barricadas. Aí começou o enfrentamento com a polícia de De Gaulle”, diz Parés.
 
Em 13 de maio, se deu a histórica união: “Os operários franceses fizeram uma imensa passeata em Paris e declararam greve geral. Pararam os trens, pararam os aeroportos, ocuparam as fábricas, pararam a França. Isso causou um grande desespero na burguesia francesa e a repressão veio imediatamente. Ocupar fábricas é o terror da burguesia, e foi isso que os franceses fizeram em 68”, diz o jornalista, ressaltando que “em janeiro de 69, De Gaulle renunciou”, enfraquecido pelos acontecimentos.
 
Apesar do conhecido protagonismo dos estudantes, observa Parés, os operários franceses já vinham em grande mobilização desde 1967: “A Europa vivia uma fase de grande desenvolvimento industrial, havia acabado a Segunda Guerra, com a chegada do chamado ‘mundo livre’. Havia investimentos de milhões de dólares para fazer a indústria andar. Existia uma situação de pleno emprego, a não ser na França. Mas, existia prosperidade econômica, com muita gente sindicalizada e isso tornava os sindicatos franceses muito fortes”.
 
O acelerado crescimento econômico e o desenvolvimento industrial ocorridos na década de 60 fizeram com que as fábricas contratassem mais e permitiram o surgimento de novas formas de organização dos trabalhadores na França: “Mas, existia também uma contradição que talvez tenha sido o estopim das revoltas operárias, que foi a introdução de novas tecnologias na indústria. A França começou a adotar uma série de medidas para ampliar a produção industrial, como, por exemplo, a cronometragem de tarefas. Os operários mais velhos eram prejudicados, pois não conseguiam cumprir o cronograma”, diz o jornalista.
 
Com isso, apesar do “pleno emprego”, em meados daquela década havia cerca de 500 mil trabalhadores desempregados cadastrados na França: “Os operários começaram a resistir e a reivindicar, por exemplo, um descanso semanal maior ou a mudança no sistema de turnos de trabalho. Os mais idosos são os mais atingidos, então são os primeiros a ir para as ruas. Aqueles que tinham uma especialização técnica mais avançada foram ainda mais prejudicados pelas novas linhas de montagem. Isso começou a levar os operários às ruas na França, ainda em fevereiro e março de 67, ou seja, cerca de um ano antes de Maio de 68”.
 
Caldo cultural
 
Se os trabalhadores tinham preocupações mais diretas com condições dignas de trabalho e salário, os estudantes tinham todo um mundo em transformação e ebulição para embasar seu desejo de mudança: “Foi um ano que sacudiu diversos países. Um fator que contribuiu foi a crise do stalinismo, que estava sendo denunciado no mundo todo. Aquilo fez com que a juventude começasse a questionar o próprio comunismo. Era o auge também da Revolução Cultural chinesa. Os estudantes franceses não sabiam direito o que estava se passando ou o que Mao Tsé-Tung queria, mas o título Revolução Cultural atraiu a juventude que buscava coisas novas. Desta influência surgiu o lema ‘É proibido proibir’, criado quando os estudantes tomam Paris”, diz o jornalista.
 
E não era só isso: “Os Estados Unidos haviam acabado de ser derrotados na Guerra da Coreia, saindo de lá com o rabinho entre as pernas. A França havia sido derrotada na primeira Guerra do Vietnã, contra a colonização francesa. Os franceses foram expulsos. Então, tudo isso mexia muito com a imaginação e com o debate dos jovens, e não só na França”, prossegue Parés.
 
Nunca antes na história daquele país os estudantes se fizeram tão visíveis e numerosos: “Houve um esvaziamento do campo na França. Uma grande quantidade de jovens franceses abandonou o campo em direção à cidade para buscar emprego na indústria. A participação dos jovens na indústria francesa nessa época era muito grande. Esses jovens que vêm do campo vão se unir nas lutas da cidade. É esse jovem, que traz o ideal de uma nova sociedade, que vem para a indústria”.
 
O resto é História, com agá maiúsculo: “Em 22 de março de 1968, um dos grandes líderes do movimento estudantil, Daniel Cohn-Bendit, faz um discurso na Universidade de Nanterre e denuncia o desaparecimento de estudantes que faziam parte dos chamados ‘Comitês Vietnã’, que denunciavam a guerra contra a França e a outra que começava contra os Estados Unidos no país asiático. A partir daí, houve também protestos contra as reformas de De Gaulle, que dificultavam o acesso da classe média e dos trabalhadores às universidades e impunham programas que os estudantes não queriam”, conta Parés.
 
Esse movimento cresceu até o dia 2 de maio, quando o governo francês decidiu fechar Nanterre à força e os estudantes, para desespero de De Gaulle, partiram para ocupar a Sorbonne, unificando o movimento entre os alunos das duas instituições: “Apenas neste dia, foram 600 estudantes presos. Depois, tudo começou a se espalhar em Paris de uma forma impressionante. Os estudantes descobriram que tinham outras formas de luta e ocuparam casas de espetáculo, cinemas, teatros, escolas públicas. Começaram a fazer palestras e a chamar a população para discutir os problemas deles e os problemas dos operários também”.
 
As duas maiores centrais sindicais da França - CGT e a CFTP – já atuavam unidas desde 67 para combater os problemas trazidos pelas novas tecnologias. Com a inciativa dos estudantes de trazer à baila problemas trabalhistas e sociais, a unidade histórica entre trabalhadores e operários, que agora completa 50 anos, foi natural e inevitável: “Já no final de 67, as duas centrais percebem que o movimento estudantil francês vinha num assenso e, em assembleia, decidem aproveitar o momento para colocar os trabalhadores na rua”, diz Parés.





Conteúdo Relacionado