Política

Uma lista mal intencionada

A grande mídia, cumprindo seu papel de porta voz da nova corte instalada no Paraná, como sempre faz, simplificou as informações e não explicou nada.

24/03/2016 00:00

EBC

Créditos da foto: EBC

Em artigo que publicou no site Sul21, o ex-governador Tarso Genro defendeu uma posição original sobre a situação política do País. Diz ele que deve ser compreendido de outra forma, hoje, o slogan “Não vai ter golpe”, porque o golpe já foi dado, com a implantação de um estado de exceção no País.
 
Na sua avaliação, “o que estamos disputando, neste momento, é se a “exceção” vai se consolidar ou não; se teremos uma transição para uma outra situação institucional e política em dois meses ou em dois anos; se conseguiremos – para o próximo período – voltar ao convívio entre diferentes, aberto pela Carta de 88, ou se isso vai se tornar impossível”.
 
A divulgação da extensa lista de políticos (mais de 200 de 24 partidos), que teriam se beneficiado de repasses da Odebrecht foi mais uma demonstração de quem realmente está ditando as regras do jogo na atual conjuntura política e parece confirmar a avaliação de Tarso Genro.
 
Ao incluir na lista políticos vivos e mortos, de todos os matizes políticos, o Juiz que comanda a Lava Jato, através da Polícia Federal (um órgão, teoricamente subordinado ao Ministério da Justiça e fiscalizado pelo Ministério Público) está dando um aviso claro de que Executivo e Legislativo perderam a sua importância e que a lei é ditada agora de Curitiba, que substituiu Brasília como capital política do País.
 
Não importa muito saber se as planilhas de Benedicto Barbosa Silva Júnior, o diretor da Odebrecht, que catalogou todos as doações a partidos e políticos, não fez distinções entre o que seriam doações legais para as eleições de 2010 ou propinas disfarçadas e, portanto, provas de corrupção.
 
A grande mídia, cumprindo seu papel de porta voz da nova corte instalada no Paraná, como sempre faz, simplificou as informações e relacionou nomes e políticos que estariam envolvidos em mais um escândalo.
 
Cada um deles que se defenda como possa.
 
O ex-governador Tarso Genro, por exemplo, foi relacionado como um dos que teriam recebido um repasse de R$ 200 mil da Odebrecht na campanha para o Governo do Estado em 2010.
 
A divulgação desta doação já tinha sido feita na própria prestação de contas do então candidato, conforme ele tornou pública na época. Não é nenhuma novidade. Misturá-la, agora, com eventuais doações ilegais, não declaradas, parece ter o propósito de associá-lo com quem recebeu ilegalmente recursos de empresas, por motivos inconfessáveis
 
Na leitura das planilhas apreendidas está lá relacionado o repasse, com a informação de que o valor foi solicitado pelo comitê financeiro do PT e depositado numa conta do Banco do Brasil.
 
Algumas linhas abaixo, figura uma doação para a campanha de José Serra de R$ 500 mil.
 
Todas as doações, acompanhadas de CPF e CNPJ, o que faz supor que, se fossem ilegais, não apareceriam dessa forma.
 
Não importa. Os atingidos que se defendam agora, obviamente sempre com um espaço menor na mídia.
 
Tomamos o exemplo do ex-governador Tarso Genro, citado no início desse texto e um dos políticos incluídos na lista.
 
Teria ele, nas funções de governador, ajudado de alguma forma a Odebrecht?
 
Os fatos passados parecem demonstrar o contrário.
 
No governo anterior ao seu – o de Yeda Crusius – a Odebrecht tinha acertado um acordo para construir a famosa Rodovia RS-10, que nunca saiu do papel e que seria uma alternativa a BR116 para a ligação da capital com o Vale dos Sinos.
 
Em declarações dadas na época, o então deputado Raul Pont denunciou que Yeda pretendia, no contrato proposto a Odebrecht, que a rodovia tivesse três praças de pedágio em 40 quilômetros, além de conceder uma garantia de 70 milhões de reais em 20 anos com correção monetária para a empreiteira.
 
Dizia o deputado Pont: que “só em valor corrigido seriam R$ 1 bilhão e 400 milhões, dinheiro suficiente para construir a estrada por conta própria”. Raul não fez nenhuma acusação de desonestidade a qualquer membro do Governo Yeda, mas de estar realizando um negócio que lesava o interesse público.
 
Ao assumir o governo, Tarso montou um grupo de trabalho com técnicos de várias Secretariais, convidou os Prefeitos a participarem do debate, levou as informações ao chamado “Conselhão” e propôs mudanças na parceria.
 
Tudo isso está documentado nos jornais da época e pode ser conferido pelos interessados em conhecer a verdade.
 
Pela proposta de Yeda, a empresa receberia R$ 1,58 bilhões do Estado e investiria apenas R$ 700 milhões com as obras.
 
Em vez disso, Tarso propôs o pagamento pelo Estado, em 20 anos, de R$ 1,51 bilhões, mas a Odebrecht teria que investir R$ 1,15 bilhão deste montante, na construção das ligações da RS-10 com a sede dos municípios cortados por ela, o que aumentaria a sua responsabilidade de construção de 66 para 97 quilômetros. As praças de pedágio passariam de três para duas e o valor cobrado baixaria de R$ 7,20 para R$ 6,60.
 
A estrada não saiu do papel, até agora, porque para a Odebrecht, o que seria um grande negócio, deixou de ser, pela ação do Governo, que não via interesse público na proposta que estava em curso. Na lista publicada, provavelmente, muitas candidaturas e partidos receberam doações conforme a lei, mas, como objetivo de tais divulgações é varrer do mapa partidos e políticos, para que a grande mídia controle de vez a opinião no país, pode-se dizer que a estratégia foi bem-sucedida.
 
*Marino Boeira é jornalista e professor universitário.



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