Política

É hora de despertar PT, diz Cristovam Buarque

20/06/2004 00:00

Brasília - Quando era ministro da Educação, o senador Cristovam Buarque (PT-DF) aproveitou um almoço no Palácio do Itamaraty para soprar nos ouvidos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva um pedido que há tempos lhe coçava a língua. A despeito do cargo que ocupava, ainda não tinha encontrado oportunidade ideal, nas raras audiências de despachos que tiveram, para efetivar a seguinte proposição:

- Presidente, eu queria lhe pedir para a gente fazer um encontro sem gravata nem chuteira – disse Cristovam, ponderando que os encontros na Granja do Torto e nos Palácios da Alvorada e do Planalto ou são de gravata, em audiências formais, ou são de chuteira, quando a conversa tende a se restringir ao próprio esporte bretão.

A resposta veio rápida, em uma demonstração da agilidade de raciocínio de Lula.

- Você pode vir jogar descalço – desconversou o presidente, embutindo na ironia o recado de que tal tipo de encontro não lhe convinha.

O ex-ministro, demitido por telefone pelo presidente na reforma ministerial de cinco meses atrás, sempre conta essa história para mostrar a dificuldade de diálogo dentro do governo. “Isso é simbólico da inteligência dele e simbólico na afirmação de que só há esses dois espaços dentro do governo. O que é ruim”, critica o ex-governador do Distrito Federal, idealizador e inovador do Programa Bolsa Escola, que inovou o modelo de transferência de renda a famílias carentes no País.

Nesta entrevista à Agência Carta Maior, Cristovam conta boa parte do que gostaria, mas não conseguiu dizer pessoalmente ao presidente nestes 18 meses de governo. Para o senador petista, Lula perdeu a oportunidade de dar um “choque social” logo no início do governo, tirando uma parte da renda dos ricos para constituir um grande programa com o objetivo de mudar concretamente a realidade de 40 milhões de crianças brasileiras nos próximos 15 anos. Apesar do tempo perdido, ele calcula que até as eleições municipais há tempo para uma guinada à esquerda. Bastaria ao presidente aproveitar a crise na aprovação do salário mínimo para fazer um pacto com o Congresso em prol da infância brasileira. Pessoalmente, entretanto, ele tem poucas esperanças de que isso ocorra. “Há uma certa arrogância na maneira como nós [da esquerda] exercemos o poder”.

Agência Carta Maior
O que o senhor quis dizer com desestancar a revolução no artigo que escreveu para a Folha de S. Paulo [15/06/04]?
Cristovam Buarque – É muito simples do ponto de vista de que o Brasil, diferentemente de todos os outros países que deram saltos, não fez nenhuma revolução em sua história. O Brasil deu um passo para uma revolução com a abolição dos escravos. Mesmo assim foi uma revolução incompleta, porque não distribuiu terras para os escravos, não colocou os filhos dos escravos ou ex-escravos na escola – o que antes era proibido. Liberou os escravos da senzala, mas jogou-os nas favelas. O Brasil nunca fez uma revolução no sentido de “toda criança na escola”, de “todo trabalhador rural com terra”, uma revolução na área de saúde ou urbana, por exemplo.

A eleição do Lula, a meu ver, foi um passo revolucionário. Mas foi uma revolução no comportamento do eleitorado que, pela primeira vez, teve o “atrevimento” de eleger um trabalhador, alguém que veio das camadas mais baixas da população e que não pagou pedágio à elite. O Brasil já teve alguns presidentes pobres, mas que pagaram um dos três ou os três pedágios: ou ficaram ricos, ou passaram para o lado dos conservadores, ou fizeram curso universitário. Três maneiras de você se afastar do povo. O Lula não fez nenhuma dessas três coisas.

O que eu creio que se esperava é que, logo depois da posse, o Lula começasse a dar os passos no sentido de completar a abolição. Essa é a revolução que eu falo que está estancada desde a Princesa Isabel. A revolução estancada é o que não se completou desde a abolição da escravatura. Eu incluo também completar a República. Mas, se a gente fizer a primeira, a segunda vem. O Brasil tinha no Império uma nobreza e uma plebe. Nós tiramos o imperador e botamos um presidente, mas continua nobreza e plebe. O Brasil não criou um povo que se sinta igualmente cúmplice de um projeto nacional. Por exemplo, um país onde mais ou menos 15% da população gasta R$ 260 mil com a sua educação, em média, como nós aqui. E para os 50% mais pobres o Estado gasta R$ 3,2 mil. Tem uma nobreza e uma plebe. Uma população que hoje tem serviços médicos tão sofisticados quanto os dos Estados Unidos e da Europa e outra que morre por falta de atendimento. Tem uma nobreza e uma plebe. Nós, os parlamentares, nos tratamos por “nobres”. Nós não nos tratamos por “cidadãos”. O presidente realmente é um metalúrgico, mas ele continua morando no “Palácio” da Alvorada. O presidente norte-americano mora onde? Na “Casa” Branca. Não é “White Palace”. Todos os símbolos brasileiros são de que a República não foi completada.

O papel do Lula era desestancar a revolução, dando os passos iniciais para que em 10, 15 anos ou até 2022, quando se completa o bicentenário da Independência, essa revolução pudesse estar completada. Mas eu acho que esses passos não foram dados ainda. Por isso que eu digo que a revolução continua estancada.

CM – O senhor poderia explicar melhor o que está por trás da idéia – que soa até um pouco preconceituosa - de que a “República dos sindicalistas” pensa no curto prazo porque tem mentalidade e não ideologia?
CB – No Brasil, a gente tem definido o que é “petista”. É uma mentalidade positiva: combativa, honesta. Isso é uma mentalidade e não é uma ideologia. Mas ninguém fala do “petismo”. O “petismo”, sim, exige uma ideologia. Na esquerda anterior ao PT, você tinha “comunista” e “comunismo”. Hoje não tem um “petismo”, não tem uma ideologia.

Se foi preconceituosa, foi para mim também. Eu sou petista, mas eu não tenho um farol iluminado pelo “petismo”. Qual é o conjunto de idéias, de propostas, de compromissos, que significa “petismo”? Não está claro. Quando eu falo do presidente e do núcleo dirigente, eu não faço uma crítica apenas a eles. A direção do partido, da qual eu sou parte, também está envolvida nisso. É possível que individualmente cada um de nós tenha uma ideologia. Mas no conjunto, nós somos guiados por uma mentalidade ainda. Não existe ainda o “lulismo”, como havia o “peronismo” e como Juscelino [Kubitschek] criou o “desenvolvimentismo”. Não precisa ser o nome dele.

Nosso governo não criou um vocabulário novo. Toda revolução e toda ideologia nova cria um vocabulário novo. Juscleino não criou só o desenvolvimentismo, criou “Brasília”. É um vocabulário novo. E foi criando uma porção de coisas novas como “Sudene”.

CM - “Inclusão social” não é um vocabulário novo?
CB – “Inclusão social” não é só do PT e, além disso, não está sendo feito. “Inclusão social” seria [um vocabulário novo] se virasse a bandeira de todos os ministros. E eu disse isso ao presidente uma vez: Juscelino conseguia que todos os ministros se sentissem soldados do desenvolvimento. Todos. Hoje, todos os ministros falam o quê em comum? O [Luiz Fernando] Furlan [ministro do Desenvolvimento] fala em inclusão social? É a bandeira do Furlan? É a bandeira de quais outros? O ministro da Saúde tem como bandeira a estabilidade monetária? Porque inclusão social exige estabilidade monetária. 

Uma vez eu disse isso numa reunião de ministros. Aliás, a última a que fui. E não quer dizer que eu saí por isso. Estavam lá o [Antonio] Palocci [ministro da Fazenda], o José Dirceu [ministro da Casa Civil] e os ministros da área social, que eram vinte e tantos. Eu disse: “Presidente, se o senhor tiver um ministro da Educação descomprometido com a estabilidade monetária, demita. E se tiver um ministro da Fazenda descomprometido em garantir toda criança na escola, demita. Agora, o senhor deveria chamar os dois e perguntar: para manter a estabilidade e botar todas as crianças na escola, teremos escolas com ar condicionado ou debaixo de árvores? Vai ter computador ou só lápis? Mas nunca o ministro da Fazenda não se sentir um soldado da universalização da educação e nunca um ministro da Educação não se sentir soldado da estabilidade monetária”. Não temos esse conjunto de idéias que unificaria todos os ministros.

Até o “Fome Zero”, que eu digo que é o único vocábulo novo, é tão restrito que não pode ser um projeto de nação. Não é uma palavra que englobe o conjunto da nação. E mesmo assim, não dá para dizer que todos fazem parte disso. É um programa pequeno. Aliás, é um projeto. Não é uma visão nova do Brasil. 

CM –
Como conciliar esse mundo das idéias com o mundo da política?
CB – No mundo das idéias existe um conjunto de medidas que você tem que trazer para todas as forças e lideranças nacionais: Congresso, governadores, prefeitos, líderes empresarias e líderes sindicais... Por isso, quando eu sentei na cadeira de ministro, coloquei na minha parede e na parede de todos os meus secretários uma lista de 31 objetivos até 2015. Com esses objetivos, você define os meios - incluindo aí o detalhamento em leis - e vai negociar com a política. Eu falei aqui 2022, não é isso? De repente, politicamente, você não vai conseguir o dinheiro para fazer tudo para 2022. Fica para 2050. 

A política, nesse caso, é mais fácil que no tempo de Juscelino. A bandeira “inclusão social” é muito mais aceita do que mudar a capital do país. É muito mais fácil o Brasil gastar dinheiro com inclusão social hoje do que convencer os cafeicultores em investir na indústria automobilística. Não foi fácil convencer o setor agrícola – que estava acostumado a exportar os seus produtos e importar o que precisava – comprar aqui dentro por duas, três, quatro vezes o preço. A gente esquece, mas quando os primeiros carros brasileiros eram fabricados aqui, eles custavam duas, três, quatro vezes o preço. Era proibido importar carro. Proibir importação de carro deve ter sido muito difícil para os deputados da época aceitarem. Trocar seus Pontiacs, seus Chevrolet rabo-de-peixe e passar a andar de Fusca. Pelo mesmo preço. Isso é que era difícil: o desenvolvimentismo era mais difícil até que o “inclusionismo”, vamos chamar assim.

CM – Será mesmo? O desenvolvimentismo pressupunha o crescimento da riqueza para os ricos. A inclusão significa você transferir a riqueza dos ricos para os pobres.
CB – Primeiro, era crescimento de riqueza para os ricos, mas para os outros ricos. Não da oligarquia rural anterior. Era o capital estrangeiro. Eram os setores financeiros que estavam com o dinheiro dos agricultores. Um ou outro agricultor mudou de ramo. A maioria não mudou. E entre os ricos, há brigas sérias também. Agora, a briga de transferir dos ricos para os pobres, na democracia, vai exigir que o cronograma seja negociado. 

Por exemplo, eu defendo que a gente precisaria de uns R$ 25 bilhões a mais por ano para dar um grande salto na educação básica e superior do Brasil. A gente hoje não tem de onde tirar R$ 25 bilhões, numa democracia, porque as pessoas não vão querer abrir mão. Então começa com R$ 5 bilhões. Sinaliza.

É aí que o Lula é o predestinado. O Lula é o único cara que tinha condições de convencer os ricos. Primeiro porque os ricos temiam perder tudo com ele. Quando o Lula pedir uma parte, eles vão respirar fundo: “Puxa, que bom, ele só está pedindo isso”. Mas tinha que ter sido nos primeiros dias. Mesmo tendo o voto da elite, a elite estava assustada com a chegada ao poder do Lula, do PT. Ele tinha que naquela hora dizer: “Eu vou tirar”.

Eu [como governador do Distrito Federal] tirei R$ 30 milhões por ano para o Bolsa-Escola. Eu deixei de fazer ponte. Eu deixei de fazer muitas obras. A população rica aceitou tranqüila. E não deixou de votar em mim por causa disso. E acho que nem perdi [a reeleição] por causa do voto dos ricos. Perdi por uma ilusão de grupos corporativos. Então, dá para aceitar e não é preciso tanto: 2% da renda nacional já seriam R$ 40 bilhões a mais por ano para gastar para os pobres. E aí, sim, dar um salto completo da abolição da escravatura em 10, 15 anos.

Estamos vendo o contrário. Os jornais de ontem e hoje [16 e 17/06] dizem que aumentou o número de milionários e caiu o poder aquisitivo dos trabalhadores. Então como levar isso para a política? É fazer um grande pacto nacional em que se aceite não transferir dos ricos para os pobres, mas dos ricos para o governo, que transfere em serviços para os pobres. Não adianta transferir a renda monetária dos ricos para os pobres, porque aí não dá para tirar os pobres da pobreza e ainda “irrita” os ricos. Mas, se você, através do governo, faz com que isso chegue aos pobres sob a forma de serviços, os ricos saem ganhando. 

CM –
Mas é possível fazer isso com a atual correlação de forças de compõem o governo, que está com dificuldades para manter o reajuste estabelecido para o salário mínimo?
CB – A dificuldade para aprovar o salário mínimo vem de outras coisas. Se nos primeiros dias de governo o Lula dissesse que manteria o nome Bolsa Escola e dobraria o seu valor... Ele poderia ligar para o Fernando Henrique e dizer: “Presidente, eu vou levar adiante o seu projeto do Bolsa Escola”. Você acha que o PSDB iria ficar contra? Como é que o PSDB iria ficar contra aumentar o valor do Bolsa Escola? Impossível! E o Fome Zero já teria chegado a todo mundo nas primeiras semanas de governo. Já estava tudo pronto.

Meu primeiro conflito com o governo, em fevereiro [do ano passado], foi quando falei para os prefeitos e para a televisão também que o Fome Zero era o Bolsa Escola maior. Para dobrar o Bolsa Escola, teria custado 20% do dinheiro que estava reservado para o Fome Zero - R$ 300 milhões de R$ 1,5 bilhão. Mas aí era dizer: “Vou manter o nome, respeitar a ‘paternidade‘ do presidente Fernando Henrique e dobrar o valor”. Poderia multiplicar por quatro. Se dissesse que iria pegar o Fundef e transformar em Fundeb, você acha que o PSDB ficaria contra se fizesse a vinculação como continuidade?

Na minha posse eu chamei isso de “seguir adiante e dobrar à esquerda”. Seguir adiante porque não vamos andar em marcha para trás. Aliás, a frase era: “Recebo o Ministério em marcha. Agora é pisar no acelerador e sobrar à esquerda”. Teria apoio. Era uma questão de conversar. 

O salário mínimo está com essa dificuldade para passar aqui porque veio goela abaixo. Eu ouvi um senador do PT - que não é o [Paulo] Paim – dizer: “Ninguém conversou comigo antes e ninguém tentou ouvir os meus argumentos de que poderia ser R$ 265, para que eu pudesse mudar a minha opinião e chegar a R$ 260” [trata-se do senador Flávio Arns, que votou contra o governo, acompanhando o senador Paulo Paim e a colega Serys Slhessanrenko]. O governo não conversa com o Congresso. 

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, por exemplo. Ali não tem conversa sobre projeto nacional. Ali é uma conversa de interesses – cada um querendo desfiar as suas reivindicações. 

CM –
Mas isso é um problema desse governo? A base do governo anterior também reclamava que não era ouvida.
CB – Igualzinho. Pode até ser pior, não sei. Mas é menos justificável nesse governo se quiser fazer as mudanças. Para você administrar “continuando” não precisa conversar muito. Agora, para você administrar “mudando” é preciso conversar muito. 

Difícil foi aproveitar a transferência da capital. Tirar aqueles caras do Rio de Janeiro, gastar um dinheirão para fazer a nova capital. E Juscelino conseguiu. Democraticamente.

CM –
Qual é a “Brasília” do Lula?
CB - Quando estava dentro do governo, fiz um documento para o [Luiz] Gushiken [ministro da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica], que seria a continuação desse artigo “Desestancar a revolução”, em que eu dizia que o legado do Lula, a “Brasília” do Lula, seria mudar a situação da criança brasileira. Eu escolheria isso. É uma obsessão minha, talvez.

É possível o Lula dizer: “eu deixei, em quatro anos, uma situação diferente para as crianças brasileiras”. Desde o atendimento maternal até o Primeiro Emprego. Uma série de programas que pudesse cuidar da criança em todas as suas fases. Da mesma maneira que Juscelino precisava de 20 a 30 anos e só ficou cinco, [esses programas] precisariam de 15 anos [completarem o ciclo], quando essas crianças novas atendidas estariam terminando o segundo grau. Mas começava agora. Dava um pontapé e não parava mais. Eu defendo isso. É claro que ao lado disso tem outra coisa: o Brasil dar um salto para entrar na sociedade do conhecimento, investir em tecnologia, como diz o próprio Gushiken. E para isso precisa ter educação, programas de saúde. 

Eu diria que a “Brasília” de Lula deveria ser a criança. E dentro da criança, a escola pública. E isso que eu apresentei não fica no genérico: vai de programa em programa. É a carta que eu fiz para o Gushiken no dia 1º de janeiro [deste ano]. Aproveitei o feriado e fiz essa carta. Entreguei no dia 4. Ele inclusive tirou cópia e distribuiu para outros ministros. Isso eu sei porque alguns vieram me dizer.

CM –
O senhor sustenta que as coisas poderiam ser feitas exatamente no começo do governo Lula, como vários analistas de esquerda. Não dá mais? Como retomar essa “revolução”, inclusive simbólica e cultural, depois de ter perdido essa janela de oportunidade do início do governo, apontada pelo senhor?
CB – Ainda dá tempo até as eleições municipais, sem dúvida. Depois das eleições municipais, só vai ser possível se o PT ganhar. E aí existem algumas eleições simbólicas: se o PT perder em São Paulo, aí eu acho que não vai mais ter tempo, não. Por quê? Porque aí vai parecer que é uma reação por causa do prejuízo e não mais querendo fazer a mudança.

Perdendo o salário mínimo, já fica difícil. Mas, antes de votar o salário mínimo, se o Lula chamasse o Senado e a Câmara, já que a Câmara precisa de um afago para mudar agora o salário mínimo e dissesse: “Eu errei ao não ouvir vocês antes. Quero pedir desculpas por não ter discutido com vocês o salário mínimo e mostrado os argumentos do governo para não dar mais que R$ 260 por que é óbvio que por mim eu daria mais. Eu sabia que não dava para dar mais, mas cometi um erro: não ter chamado vocês para conversar. Mas vamos discutir como é que a gente pode complementar esse salário mínimo”. E aí apresentar um projeto desse [como o das crianças]. “Vamos fazer a revolução que o Brasil precisa. Eu quero que vocês apóiem não é só R$ 15 a mais, não. Eu quero que vocês apóiem R$ 100 a mais no salário mínimo. Mas não vai para o salário mínimo. Esses R$ 100 vão para o Fundeb, para o programa de água e esgoto, para o Bolsa Família”.

Só para colocar uma criança a mais na escola são pelo menos R$ 20 a mais para o salário mínimo. É a merenda. Não é o que o governo gasta, que é menos do que isso, mas é o que vale. Comer uma refeição, direitinho, custa pelo menos R$ 1 por dia, 20 dias em um mês. E dizia mais: “Vamos apresentar isso como uma vitória de vocês do Congresso. Eu não quero que seja uma vitória minha. A vitória é do Congresso”.

E aí não faz porque há uma certa arrogância na maneira como nós exercemos o poder. A esquerda toda tem um pouco isso. Ela é tão convencida de que está certa que muitas vezes fica arrogante. E eu me incluo entre esses também, pela nossa formação. A gente está tão certo, cada um de nós, de que estamos do lado do povo, que a gente nem faz um pouco de afago ao povo e também aos parlamentares. Eu digo isso, mas no meu Ministério eu afaguei muito o Congresso, talvez por já ter sido eleito e saber que um dia voltaria para cá. Eu tratei bem o Congresso, gastava horas e horas em audiências. Recebi acho que uns 60% dos parlamentares no primeiro ano e alguns muitas vezes.

Ainda é tempo e o passo é chamar o Congresso e ir além desse negócio de R$ 15 a mais. Não em dinheiro porque vai pesar na Previdência e não vai resolver nada o problema do trabalhador. Vamos de outra maneira. E o Lula é o homem preparado, pronto para isso. Talvez seja um problema o fato de que o Lula seja tão forte no contato direto com o povo que menospreza a intermediação do Congresso. Isso é um problema dos líderes carismáticos fortes. Eles, em geral, acham que prescindem da intermediação do Congresso. Só que de acordo com a Constituição não adianta o povo estar a favor se o Congresso vota contra. Não vira lei. O presidente pode passar quatro anos sem fazer as coisas e sair carregado nos braços do povo só pelo seu carisma. Mas não deixa nenhuma marca se não passar pelo Congresso. E o Lula não tem o direito de não deixar marca. O Lula não tem o direito de sair nos braços do povo e não deixar uma marca para as próximas gerações, um legado. Além disso, ele só sairá nos braços do povo sem deixar uma marca se for no primeiro mandato. Em oito anos ninguém perdoa. Quatro já é difícil perdoar se ficar apenas na base da conversa, do carisma. Oito é impossível na base do carisma. Oito é na base das mudanças.

Leia os trechos seguintes desta entrevista em:
"Não há espaço no governo para discutir um projeto de nação"
"Se o Lula não der certo, não há salvação para ninguém do PT"

Leia carta do início de 2004 de Buarque a Gushiken:
"Até aqui agimos como se o social e o econômico disputassem"


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