Saúde

As incertezas da variante Ômicron

A nova cepa do coronavírus é preocupante, mas seu efeito não será o mesmo em todos os lugares

01/12/2021 16:09

Viajantes chegam para voos no Aeroporto Internacional Newark Liberty em 30 de novembro de 2021. Os EUA, entre outras nações, restringiram viagens da África do Sul e países vizinhos - o que pode agravar os desafios econômicos da região. (Spencer Platt/Getty)

Créditos da foto: Viajantes chegam para voos no Aeroporto Internacional Newark Liberty em 30 de novembro de 2021. Os EUA, entre outras nações, restringiram viagens da África do Sul e países vizinhos - o que pode agravar os desafios econômicos da região. (Spencer Platt/Getty)

 
O primeiro caso da nova variante do coronavírus, Ômicron, também conhecida como B.1.1.529, foi detectado na África Austral este mês. Apenas algumas semanas atrás, a África do Sul, onde a maioria das infecções por Ômicron foi detectada, registrava cerca de trezentos casos de coronavírus por dia - uma das menores médias da pandemia. Desde então, os casos dispararam. Quase cinco mil sul-africanos agora testam positivo para o vírus, em média, a cada dia. A taxa de positividade do teste no país aumentou quase cinco vezes, e o número de hospitalizações por Covid na província de Gauteng, onde a variante foi identificada pela primeira vez, quase quadruplicou. Ainda não está claro quanto do aumento é devido à Ômicron, mas evidências preliminares sugerem que ela desempenhou um papel. Na semana passada, apenas um dia depois que as autoridades sul-africanas relataram seu surgimento, a Organização Mundial da Saúde declarou a Ômicron sua quinta “variante de preocupação”. Até agora, na pandemia, é a passagem mais rápida que a OMS fez da detecção à classificação.

A OMS deu o alarme com base principalmente nas numerosas e preocupantes alterações genéticas da variante. A Ômicron possui cerca de cinquenta mutações - muito mais do que a variante Delta - incluindo cerca de trinta em sua proteína de superfície (spike), que o vírus usa para entrar nas células (em contraste, a Delta tem apenas dez mutações únicas da proteína de superfície). Algumas dessas mutações foram encontradas anteriormente em outras variantes e estão ligadas a uma maior transmissibilidade e evasão de imunidade do hospedeiro. Mas pelo menos vinte e seis mutações são exclusivas da Ômicron - nunca foram vistas antes - e não sabemos o que possibilitam. Em certo sentido, a Ômicron é o novo recruta promissor do vírus: ela possui uma série de atributos notáveis em teoria. Resta saber se ela se tornará a participante mais temível da pandemia.

Com qualquer nova variante do coronavírus, queremos entender três questões básicas: É mais transmissível? Causa doenças mais graves? Pode enganar nosso sistema imunológico? Geralmente, há um lapso temporal entre o momento em que uma nova variante é detectada e quando temos uma compreensão clara de seu significado epidemiológico. A Ômicron não é exceção, e ainda não sabemos como a variante se sai em qualquer um desses domínios. Devido à sua rápida disseminação na África do Sul - e ao fato de compartilhar mutações com a Delta - a Ômicron é provavelmente extremamente contagiosa. Mas as novas variantes não têm, em geral, provocado doenças mais graves. Com a Ômicron, a evidência inicial observada sugere que muitas infecções foram leves e que os casos graves afetaram principalmente pessoas não vacinadas (apenas um em cada quatro sul-africanos está totalmente imunizado).

Na terceira questão - se a Ômicron causará mais reinfecções e novos casos - é igualmente cedo para dizer. Mas há motivos para preocupação. As vacinas para Covid são baseadas na proteína de superfície existente na cepa original de Wuhan do vírus; elas usam um modelo para preparar nosso sistema imunológico para uma invasão de coronavírus. A abundância de mutações na proteína spike da Ômicron sugere que a variante pode tornar nossas vacinas atuais significativamente menos eficazes. Por outro lado, está longe de ser claro como as mutações da Ômicron se unirão para mudar sua capacidade de burlar a reação imunológica do hospedeiro. O impacto de qualquer mutação depende, em parte, das outras mutações presentes; às vezes, os vírus pagam um preço por adicionar novas mutações. Você pode montar um time de basquete repleto de estrelas - mas um conflito entre os dois melhores jogadores pode diminuir as chances de sucesso do grupo. Os cientistas já estão examinando a eficácia com que o sangue de pessoas imunizadas neutraliza a Ômicron em laboratório; estudos de campo sobre a eficácia da vacina contra a nova variante também estão em andamento. Saberemos muito mais sobre como ela se comporta nas próximas semanas.

Muitos líderes políticos não estão esperando para agir. Imediatamente após a declaração da OMS, os países se apressaram em instituir restrições a viagens. Japão, Israel e Marrocos proibiram todos os visitantes estrangeiros. Os EUA, o Reino Unido, a Austrália e muitos países europeus restringiram as viagens da África do Sul e de outros países da região, o que pode agravar os desafios econômicos enfrentados pelo continente. A África do Sul deve ser elogiada por detectar e relatar prontamente a nova variante, mas sua vigilância e transparência têm um custo. “Talvez a capacidade de nossos cientistas de rastrear algumas dessas variantes tenha sido nossa maior fraqueza”, disse Lindiwe Sisulu, ministro do Turismo da África do Sul. “Estamos sendo punidos pelo trabalho que fazemos.” Para encorajar outras nações a avançar no futuro, a resposta global deve incluir apoio e recursos para a África do Sul em sua luta para conter o surto.

Restrições de viagens podem desacelerar temporariamente a disseminação da Ômicron, mas ela já está à solta. A variante foi detectada em pelo menos dezenove países, incluindo Portugal, Israel, Canadá e Austrália. Quase com certeza já está nos Estados Unidos. “Não será possível manter essa infecção fora do país”, disse Anthony Fauci, o maior especialista em doenças infecciosas do país, ao Times, na sexta-feira. A pergunta é: “É possível desacelerá-la? " Fazer isso exigirá mais do que proibições de viagens. Uma abordagem abrangente deve incluir o reforço da infraestrutura de testes e vigilância genômica do país; deve garantir acesso rápido às novas pílulas para Covid; e deve-se fazer todo o possível para aumentar as taxas de vacinação e doses de reforço. As atuais vacinas provavelmente oferecerão proteção contra a Ômicron, como fizeram com todas as variantes anteriores. Ainda assim, caso haja uma diminuição significativa em sua eficácia, a Pfizer e a Moderna estão preparando formulações específicas para a Ômicron. A Food and Drug Administration [órgão que controla os medicamentos nos EUA], indicou que serão necessários apenas pequenos ensaios, confirmando a segurança e imunogenicidade, para autorizar reforços contra novas variantes. Neste ponto da pandemia, sabemos como jogar esse jogo.

O surgimento da Ômicron parece marcar outro capítulo na história viral: uma nova variante chegou e ameaça derrubar nosso frágil equilíbrio mais uma vez. Mas, de outra perspectiva, pouco mudou. Apesar das muitas incógnitas girando em torno da Ômicron, duas coisas eram verdadeiras antes de sua descoberta e permanecerão verdadeiras nos próximos meses. A primeira é que, como todas as formas do coronavírus, a Ômicron afetará as várias populações de maneira diferente. Em um cenário provável, as nações com altas taxas de imunização permanecerão razoavelmente bem protegidas enquanto a variante circula; aqueles que construíram uma “parede Delta” descobrirão que ela também mantém a Ômicron afastada. Isso é especialmente verdadeiro em países com altas taxas de vacinação entre pessoas mais velhas e aquelas com risco específico infecção grave. Enquanto isso, os países de baixa renda - onde apenas 6% das pessoas receberam ao menos uma dose de uma vacina - podem enfrentar surtos devastadores, à medida que a Ômicron e a Delta dilacerem a população (os EUA, com toda a sua riqueza, permanecem em um estado intermediário: quarenta por cento dos norte-americanos não foram totalmente vacinados, muito menos receberam uma injeção de reforço).

Uma segunda verdade inevitável é que devemos intensificar nossos esforços para imunizar o mundo. Todas as principais variantes do coronavírus - Alfa, Beta, Gama, Delta e agora a Ômicron - surgiram em um país com disseminação viral galopante. O passo mais importante que podemos tomar para nos proteger contra esta e outras variantes futuras é vacinar o maior número de pessoas o mais rápido possível, tanto nos Estados Unidos como em todo o mundo. Em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, o presidente [Biden] disse à nação que a Ômicron é “um motivo de preocupação, não de pânico”. Ele está certo, embora “preocupação” possa não ser a palavra certa. Acima de tudo, é um motivo para ação.

Dhruv Khullar é colaborador da revista The New Yorker, onde escreve principalmente sobre medicina, saúde e política. Ele também é médico praticante e professor assistente no Weill Cornell Medical College. Seus textos já foram publicados no New York Times, no Washington Post, no The Atlantic e em outras publicações. Khullar se formou em medicina pela Escola de Medicina de Yale e concluiu seu treinamento médico no Hospital Geral de Massachusetts. Ele também recebeu o título de mestre em políticas públicas pela Harvard Kennedy School.

*Publicado originalmente pela revista New Yorker | Traduzido por César Locatelli