Saúde

Maierovitch, da Fiocruz, fala sobre as festas, a Ômicron, os casos, os óbitos...

 

12/12/2021 12:19

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Como estão e o que indicam as curvas de novos casos e óbitos por Covid no Brasil? O que se sabe sobre a variante Ômicron? Como andam os esforços para descobrir remédios eficazes para a doença e para as sequelas, a chamada Covid longa? Qual a importância das doses de reforço da vacina? A Fiocruz tem conseguido fazer seu trabalho? Quais cuidados são aconselháveis para as festas de final de ano?

Com a intenção de atualizar nossos conhecimentos, e nossos cuidados, sobre a pandemia, levamos estas questões para a conversa que tivemos com o médico sanitarista da Fiocruz e ex-diretor da Anvisa, Claudio Maierovitch, nesta quinta (9).

Como estão e o que indicam as curvas de novos casos e óbitos por Covid no Brasil?

A média móvel de 7 dias de novos casos diários de infecções, no Brasil, ficou em 7.916, em 10/12. Em relação aos óbitos a média registrou 184, no mesmo dia. Os dados são do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). Os trechos mais recentes das curvas, abaixo, mostram a permanência, de cerca de 30 dias, em certos patamares com ligeira inclinação para baixo.





Explica Maierovitch:

“Minha interpretação é de que nós estamos com um vetor forte para diminuir que é a vacinação, tanto reduzindo casos graves e mortes como reduzindo, em alguma proporção, a transmissão, já que pessoas vacinadas transmitem menos do que pessoas não vacinadas mesmo que se infectem.

Na medida em que se diminuem casos graves e mortes, possivelmente aumentam os subdiagnósticos, porque proporcionalmente deve aumentar a quantidade e a proporção de casos leves que nem chegam a procurar serviços de saúde e não fazem exames.

Por outro lado, numa liberação que ainda não é geral, mas é quase, o comportamento das pessoas está muito próximo do comportamento habitual. Já tem uma série de atividades e estabelecimentos funcionando normalmente ou quase normalmente. Como todos os ramos voltaram a funcionar, o transporte coletivo está cheio novamente, as pessoas tão expostas.

Acredito que o que a gente está vendo é uma resultante dessas duas coisas, e que, na minha impressão este é um equilíbrio delicado, se nós agora no fim do ano tivermos uma quantidade muito grande de aglomerações, festas, muita circulação de gente, porque circulação também interfere, se um lugar está com a incidência mais baixa, o fato de muita gente circular vai trazer de volta uma pressão de transmissão, então, se isso acontecer, pode voltar a subir.

Ou, se nós tivermos a entrada da Ômicron, como uma variante que se transmite mais facilmente também pode voltar a subir. Então, não sei, eu tenho interpretado por essa linha, mas com muita dúvida do porquê temos esses patamares. Nós ficamos um tempão parados lá em mil mortes por dia, depois, ficamos um tempão parados em 500 mortes por dia e agora estamos em 250 chegando em 200 mortes por dia, uma leve tendência de queda, mas, que me parece muito frágil.

Eu fico assustado quando eu vou em algum lugar e vejo aquelas mesas enormes, todo mundo, claro, sem máscara porque está comendo, bebendo, as pessoas de pé, dando volta na mesa, falando alto, rindo, cantando, gritando etc. Isso tudo me dá uma certa sensação de ‘isso não vai dar certo’, mas parece que a vacina está conseguindo segurar grande parte dessa pressão para transmissão.”

O que se sabe sobre a variante Ômicron?

As informações sobre a nova variante Ômicron estão começando a surgir, mas ainda são escassas. Os estudos de laboratório avançaram, entretanto ainda estamos dependentes de relatos de médicos, especialmente da África do Sul, que nos contam sobre a proliferação e gravidade das infecções.

De acordo com o médico sanitarista da Fiocruz, a nova variante deve ser avaliada em quatro aspectos: se a imunidade de quem já teve Covid ou está vacinado funciona para a Ômicron, se os testes a detectam, se há aumento ou diminuição da proliferação da nova cepa e, finalmente, se as repercussões clínicas, apresentadas pelos infectados, são mais graves ou mais leves. Diz ele:

“O que a gente mais sabe é aquilo que os pesquisadores básicos que vão lá estudar as moléculas do vírus descobriram, porque eles são mais rápidos, eles só dependem de ter o vírus e ter laboratório praticamente.

Eles descobriram que existem cerca de 50 mutações em proteínas diferentes sendo 32 na proteína spike, um número que nunca foi visto antes neste vírus, que faz crer que isso pode ter repercussões importantes já que essa é a principal proteína que permite a entrada do vírus na célula.

Além disso a proteína spike tem sido usada como provocação pelas vacinas, para que o nosso sistema de defesa identifique o vírus. Foi isso que fez acender as luzes vermelhas logo que saíram as primeiras notícias do vírus: ‘olha tem muita mutação da proteína spike’.

O que poderia significar, primeiro, que a nossa imunidade, a imunidade de quem já teve a infecção e a imunidade de quem já foi vacinado, pudesse não funcionar adequadamente, que os anticorpos dados pelas outras variantes talvez não se encaixem tão bem nesta proteína como a proteína da variante Delta por exemplo, que ainda é predominante.

A segunda dúvida era se os exames utilizados para o diagnóstico da infecção continuariam funcionando bem com esta variante, e aí, aparentemente sim, porque a imensa maioria dos testes se baseia em pelo menos, digamos, dois localizadores, se um falha o outro funciona e permite ver o resultado positivo mesmo que aja um conjunto de mutações que faz diferir do vírus original.

A terceira coisa é se muda o comportamento epidemiológico. O que significaria isso? Bom, o vírus se multiplica mais rapidamente e portanto uma pessoa que tem infecção produz uma quantidade maior de vírus, elimina mais vírus e com isso ele espalha mais facilmente, que é o que acontecia com a variante Delta também.

E, a quarta coisa é se a interação do vírus com a célula humana muda alguma coisa que possa ter repercussões clínicas, ou seja, que a doença se comporta de forma diferente, isso poderia ser qualquer coisa, poderia ser ao invés de ter manifestações predominantemente respiratórias as pessoas têm diarreia e vômito, por exemplo, ou tem mais dor de cabeça e febre alta, então, essa é uma incógnita.

Do que se tem observado, e as informações são muito preliminares, a transmissão parece ser maior. A transmissão na região da Africa do Sul, onde o vírus foi identificado, parece ter sido muito rápida e o vírus passou a predominar sobre as outras variantes com muita velocidade. Embora seja ainda um pouco cedo porque a quantidade de amostras que foram sequenciadas não é tão expressiva e se refere a um só país.

A outra coisa é se muda o comportamento da da doença. O que a gente tem até o momento são relatos de médicos sul-africanos que dizem que estão observando pessoas com o vírus que muitas vezes procuraram serviços de saúde por outra razão, foram internadas por outras doenças. Esses médicos até mesmo se perguntam: "será que a presença do vírus tem feito essas outras doenças piorarem e por isso as pessoas procuram os serviços de saúde? Seria um efeito atípico do vírus que não aparece como infecção pelo coronavírus, mas a pessoa, digamos, tem diabetes e piora a diabetes, tem problemas cardíacos e pioram os problemas cardíacos e não aparentam ter a infecção pelo coronavírus?”

Mas, eles têm observado que o número de pessoas que precisam de oxigênio para manter a respiração normal é aparentemente menor. As pessoas que vão para a UTI, que precisam ser entubadas, parece que são numa proporção menor também. Mas tudo isso é ainda muito precoce, não tem artigos publicados, não tem grandes estudos.”

Como andam os esforços para descobrir remédios eficazes para a doença e para as sequelas, a chamada Covid longa?

Não apareceu até agora um remédio que seja “um grande campeão de bilheteria”, brinca Maierovitch, embora a expectativa seja bem positiva quanto a novas descobertas num futuro próximo. Ele nos conta sobre os avanços conseguidos até o momento e sobre os efeitos neurológicos da infecção:

“As tragédias nos ensinam, se nada mais resta, resta informação, conhecimento, aprendizado, experiência, ainda que seja uma experiência muito ruim, uma experiência muito trágica, deve servir para alguma coisa no futuro da humanidade.

Isso de fato está acontecendo, os pesquisadores de área clinica e pesquisa básica estão conhecendo cada vez melhor o vírus e sua interação com o organismo. Estão surgindo medicamentos no horizonte que parecem mais promissores do que estes que estão ai.

A maior parte [dos medicamento atuais] não serviu para nada, os poucos que parecem servir para alguma coisa tem um resultado mínimo, um resultado pífio, nenhum ainda virou um campeão de bilheteria que todo mundo desejaria ter. Mesmo o coquetel que foi usado em Trump, ninguém está correndo muito atrás, porque não foi nenhum espetáculo, mas este conhecimento está crescendo.

Eu não sei dizer em que células o vírus entra, a gente sabe que o vírus penetra na célula na camada que reveste o nosso sistema respiratório inteiro, são chamadas células epiteliais, são células de revestimento, desde o nariz até os pulmões e os alvéolos pulmonares, que são a parte final onde ocorre a passagem de oxigênio e de gás carbônico do sangue para dentro e para fora.

A gente sabe que nessas células ele penetra bem, que ele penetra nas células de defesa do organismo. Uma notícia, de ontem ou de hoje, revela que se constatou que ele pode penetrar nas células gordurosas, nas células do nosso tecido gorduroso. Provavelmente [penetram] nas células do sistema nervoso também. É difícil a gente saber se os efeitos neurológicos, por exemplo, são causados diretamente pelo vírus. Digamos, o vírus entra na célula se multiplica e destrói a célula, ou se o conjunto de alterações e desequilíbrios que ele provoca no organismo tem repercussões importantes para o sistema nervoso.

Eu não atendo, não faço clínica, mas a gente ouve relatos de muita gente que, meses depois de ter tido a infecção, tem problemas de memória, de concentração, se cansa muito facilmente, e não é esse cansaço físico apenas de que falta o ar, é aquele cansaço que a pessoa senta para ler e daqui a pouco está cansada, não consegue mais ficar lendo, uma espécie de fadiga mental, digamos assim.

Então essas coisas têm sido observadas e, na maior parte do casos, não existe uma conduta bem estabelecida. Existe, por exemplo, uma tendência de que a fisioterapia seja recomendada para todo mundo que teve a doença um pouco mais grave, pensando na capacidade respiratória e naqueles que ficaram mais tempo acamados, por aquilo que tiveram perda muscular.

A pessoa muitas vezes, principalmente que foi entubada, sai da UTI sem conseguir andar, sem conseguir escovar os dentes, levar a comida até a boca sozinha. Então, essas pessoas passam por uma reabilitação importante, por fonoaudiologia, às vezes tem que reaprender a engolir e reaprender a falar e nem sempre essas coisas não se resolvem tão rapidamente.

Para além disso, não tem muita coisa. Como dizer, “olha a pessoa está com problema de memória, ela vai tomar um medicamento tal, uma vitamina, um suplemento”. Isso ainda não existe. O que tem é essa coisa genérica: memória tem que exercitar, a pessoa tem que retomar as atividades, mas ainda não há soluções médicas específicas, acho que nós vamos ter que aprender ainda muito mais para isso.

Agora existem alguns novos medicamentos, e já está uma polêmica. Por exemplo, há um medicamento da Pfizer, que segundo as informações da empresa, diminui em 90% a possibilidade de internações e mortes. Então é uma coisa fantástica. Ainda não está, que eu saiba, aprovado em país nenhum.

O Brasil ficou de fora da relação de países que poderão receber está tecnologia. O Brasil, se quiser, vai ter que comprar o medicamento, mas ele não vai ter uma cessão da tecnologia para fabricar aqui. Também ficou de fora da relação de países que terão preços muito baixos porque são considerados países de baixa renda, e, me parece que também não houve nenhum esforço do governo brasileiro de negociar estas coisas com a empresa.

Inclusive sabendo que tem ensaios clínicos, pesquisas com este medicamento sendo feitas no território brasileiro, com pessoas da nossa população, isso poderia de alguma forma servir como argumento para a negociação, mas, não ouvi falar de negociação nenhuma. Então, pode ser que daqui a pouco esse medicamento comece a ser aprovado em vários países sendo aprovado até mesmo no Brasil, mas, com preços inacessíveis.

A Fiocruz tem conseguido fazer seu trabalho?

As ações, especialmente as inações, do Ministério da Saúde nos colocam em alerta sobre as condições de trabalho da Fundação Oswaldo Cruz, vinculada a esse ministério. Com a missão de produzir, disseminar e compartilhar conhecimentos e tecnologias voltados para o fortalecimento e a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), a Fiocruz tem conseguido cumprir parcialmente seu papel. Perguntado se os trabalhos na Fiocruz estão normais, Maierovitch responde:

“Olha, por incrível que pareça estão [normais], pelo menos a sensação é de que estão. Claro, há um problema enorme, porque o sentido de existência da Fiocruz é apoiar políticas públicas, das mais diversas formas, seja por pesquisas que trazem conhecimentos novos que vão ser usados para a produção de políticas públicas, como formação de pessoal, como produção de vacinas, produção de medicamentos. Todas as frentes da Fiocruz só tem sentido se for para apoiar políticas públicas e, às vezes, parece que o que a gente está fazendo perde o sentido, porque… claro, as vacinas ninguém questiona. Acho que inclusive, em grande parte, foi a iniciativa da Fiocruz, de conseguir trazer uma tecnologia de produção de vacinas e produzir vacinas em grande quantidade, que deu sustentação política para ela, acho que se isso não tivesse acontecido talvez nós não tivéssemos tido a recondução da presidente da Fiocruz e pode ser que o ambiente estivesse diferente.

Mas, fica esse incômodo: para que serve aquilo que a Fiocruz está fazendo, se não existem as políticas públicas do governo federal? Por exemplo não existe plano para enfrentar a epidemia. Em quase todas as frentes da saúde pública o que se escuta é que tem muita dificuldade, seja com malária, tuberculose, no programa Saúde à família, saúde da mulher, em quase tudo que se vem vivendo. É muita dificuldade e isso, claro, repercute diretamente na Fiocruz. Mas, objetivamente eu acho que ela tem conseguido sobreviver bem [relativamente] a o que representa esse governo. Eu espero sinceramente que o IPEA e o IBGE consigam também, porque a CAPES já foi para o buraco.

Quais cuidados são aconselháveis para as festas de final de ano?

A proximidade do Natal e do Ano Novo nos deixa muito animados para encontros com amigos e familiares que há tempos não vemos. As recomendações de agora são bem mais brandas do que aquelas do ano passado, mas elas existem.

“Eu vivo neste mundo, converso com muita gente, pessoas que querem fazer festa, que não querem fazer festa, que querem ir a festas ou não. Eu tenho sempre convidado essas pessoas, que conversam sobre isso, a se lembrar como estava um ano atrás. Vamos lembrar: nós tínhamos vindo de patamares altíssimos de transmissão e de mortes no meio de 2020, com uma melhora na metade no segundo semestre de 2020, que durou quase até o fim do ano.

Começou a piorar ao longo de dezembro, e, naquela época, a orientação geral, pouca gente discordava disso, fora o presidente da República, era de que as pessoas não deveriam festejar, de que se queriam comemorar o Natal, o Ano Novo, que fizessem isso com os familiares, com as pessoas que moram na mesma casa. Se fosse se juntar com outros, todos deveriam ficar de máscara, procurar um lugar aberto, manter distância uns dos outros, ou seja, uma orientação de muita contenção, muita restrição.

Agora, pode ser que estejamos vivendo um cenário parecido em que tivemos um decréscimo da doença ao longo do segundo semestre de 2021 e a gente não sabe se o que vem pela frente vai reproduzir o passado ou não. Espero que não. A grande esperança que a gente tem para torcer para isso não acontecer é a vacinação, o quanto a vacinação está avançando

Mas, de qualquer forma, já é possível dizer para as pessoas que dá para juntar a família ampliada, dá para se reunir com um grupo de amigos que não seja muito grande, todo mundo vacinado, para ter algum tipo de festividade em bar, restaurante etc., que seja um ambiente bem ventilado, e não todo mundo num ambiente fechado com ar condicionado.

Então, essas coisas já dá para fazer, o que já é muito mais do que foi um ano atrás. Agora, eu acho que não dá para juntar 50, 100, pessoas dentro de um salão de festas para festejar, fazer um show, mesmo que seja uma praia, um lugar aberto. Quando você junta 2, 5, 10 mil pessoas na praia elas ficam coladas umas nas outras, isso não é ambiente aberto. Isso aí não é ar livre, isso é ar preso.

Não dá para começar a pensar em festas de carnaval, blocos de carnaval. Essa circulação rápida de pessoas de um canto para outro do país, acaba por homogeneizar para cima, digamos assim. Se um lugar está tendo uma transmissão alta e as pessoas viajam, deste lugar para outros, elas vão levar essa transmissão alta para outros lugares ou vão buscar nos lugares em que está acontecendo transmissão alta, ainda mais pensando o Brasil como um destino turístico importante.

Qual a importância das doses de reforço da vacina?

Com a história da Ômicron, vai ficar mais forte a recomendação de uma terceira dose, ou seja, de uma dose de reforço, não apenas para os idosos, mas para todo mundo, porque nós só temos estudos consistentes de que a dose de reforço é importante para quem tem mais de 65 anos. O resto ainda é uma improvisação, pensando em conhecimento científico. Esses indícios iniciais sobre a Ômicron são de que, de fato, as pessoas vão poder se beneficiar bastante de uma dose de reforço.

Isso, claro, traz a grande preocupação, que não é nova, de que se todo mundo resolver fazer isso, se todos os países que têm vacina resolverem fazer isso, vai continuar faltando vacina para os países mais pobres, portanto nós continuaríamos tendo uma pandemia muito viva em várias partes do mundo e que vai continuar por mais tempo. Acho que essa preocupação deve ficar também no nosso painel. Ainda é um cenário de muita incerteza.

* A transcrição da entrevista de Claudio Maierovitch foi feita por Pedro Aguiar.