Sociedade e Cultura

A escolha de Aquiles nossa de cada dia

A 'escolha de Aquiles' é um tema clássico e, como tal, sempre atual e atualizável

12/04/2018 10:14

Miséria, Isidre Nonell Monturiol, 1904

 

Luís Felipe Bellintani Ribeiro

O Brasil, como dizia o Tim Maia, é aquele país estranho em que traficante se vicia, puta se apaixona e cafetão sente ciúmes.

Só pra manter a tradição, vamos atualizar a lista: o Brasil é aquele país estranho em que ministro da corte suprema, responsável por julgar de fora as lides segundo o critério da constitucionalidade, entra de cabeça nas refregas e, qual uma das partes querelantes, se mete a corrigir a constituição, como se legislador constituinte fosse.
Brasil-il-il-il-il!!!!

Uma dessas figuraças – gênio da raça – descobriu recentemente estupefato – óóóóó – que a justiça brasilis é sobremaneira morosa, que os poderosos ficam impunes e só quem vai pra cadeia é preto, pobre, puta (o quarto “p” ele não confessaria, mas acrescentamos por nossa conta: e petista).

Não diga?

Como dizem aqui na minha terra: demorô, playboy.

E o que faz sua excelência diante de inédita descoberta?

Para compensar a leniência, que é a dele mesmo e de sua galera do judiciário, manda pra cadeia, com celeridade e truculência ímpares – misto de Ferrari do Neymar com trator do Ronaldo Caiado – um dos poucos políticos do entranho país que em 500 anos de história tentaram fazer alguma coisa pelos pretos, pelos pobres e pelas putas.

Não. Para o pretor brazuca, “poderoso” no estranho país não são os filhos do Roberto Marinho, não são os donos do Itaú e do Bradesco, não é o Lemann, que enche as burras vendendo cerveja de milho para a patuleia, não é a plutocracia rentista, não é o latifúndio grileiro e desmatador, não é o pato da FIESP, nem o mandarinato estatal, do qual seus colegas de toga fura-teto-constitucional são o exemplo escarrado.
Não.

Esses, para ele, são a “opinião pública”.

“Poderoso”, no léxico do ilustre magistrado, é um retirante nordestino que fez a vida como torneiro-mecânico no ABC paulista e que chegou ao comando do Poder Executivo por ter à mancheia exatamente aquilo que falta a todos os supramencionados: voto popular.

Eu sou do tempo em que voto popular era o critério-mor pelo qual se podia apensar ao substantivo “poder” o adjetivo “legítimo”. Aliás, o “pública” de “opinião pública” significa o mesmo que o “popular” de “voto popular”. Não precisa ser PhD em filologia clássica para intuir o populus por detrás, essa coisa suja e fedida (aos sentidos delicados da elite) chamada povo, mas que continua, até onde eu saiba, ao menos em países pretensamente democráticos – olha aí o povo de novo, agora na forma do grego dêmos – a ser o único fator, a despeito da sujeira e do fedor, de algum embelezamento dessa coisa terrível que é o poder.

Ô meritíssimo, se era pra rasgar a constituição em nome da opinião pública, então o senhor teria não só de dar o habeas corpus pro Lula, que isso já é o que diz a constituição, mas dar-lhe algum plus a mais, tipo aquele que Sócrates mandou, com sua costumeira ironia, na Apologia de Platão: “viver no Pritaneu às expensas do erário até o fim da vida”. Afinal, nem eu nem o senhor nem ninguém neste estranho país continuaria a ser, depois de tanto William Bonner e Rede Globo sentando o pau, reforçados recentemente até com Padilha e Netflix, o cara mais popular da história do país.

Sem mistificação, seu doutor, o cara é o mais popular da história por uma razão nada mística. Porque atacou de frente o principal problema deste estranho país: a desigualdade social. Eis a verdadeira “corrupção”, ilustre juiz, da nossa sociedade, eis a verdadeira imoralidade: que uma economia de tal magnitude albergue, como se fosse a coisa mais natural do mundo, a fome e a miséria. Eu, que não sou cristão nem nada, sinceramente não entendo como uma elite sedizente cristã pôde por 500 anos dormir sono angelical enquanto a imensa maioria dos concidadãos mal se havia com o de comer.

Mas, vá lá, a vida é dura e o tempo é curto, cada um pensa no seu, ok. Ninguém é obrigado a ver o mundo como uma madre Tereza de Calcutá e tudo mundo tem o direito de entregar-se a seu consumismozinho, de orbitar em torno do gozo de seu umbigo, ok. O próprio povão detesta política e decide por puro cálculo pragmático, daí de novo o porquê da imensa popularidade do “cara”. Ok, até entendo que alguém não morra de amores pelo governante sob cujo governo a vida dos mais ferrados ascendeu a um patamar mínimo de dignidade. Mas chegar a odiar visceralmente alguém que traz esse feito no currículo? Que tipo de afeto é esse? Sou socrático, ingenuamente socrático, e tendo a atribuir todo mal a algum tipo e grau de ignorância. Mas, sinceramente, o ódio hiperbólico ao Lula que um naco da sociedade deste estranho país ostenta, ao preço mesmo de sua própria ruína econômica e social, me faz cogitar seriamente da hipótese da perversidade. Perversidade nua e crua: que se danem os mais ferrados. Morram os sujos e fedidos.


Adoram, os desta elite colonizada, tudo que cheire a isteites e zoropa e não se dão conta da pagação de mico que é apresentar-se nas praças turísticas overseas com esse passivo às costas legendado em letras garrafais na testa: representante bobo-alegre de uma republiqueta que sequer é capaz de matar a fome de seus cidadãos. E lá vai o bobo-alegre todo pimpão com suas sacolinhas de bugigangas gringas deitar falação contra o Brasil na primeira rodinha de iguais, como se não tivesse a nada a ver com isso.

Idiotas, não percebem que o chique Fernando Henrique com seu entreguismo, além do inglês e francês mal falados, nunca trouxe respeitabilidade ao país. Foi o monoglota de Caetés, retor de prol e psicagogo insuperável, que começou enfim a trazê-la, porque nenhum país será respeitável aos olhos dos outros países enquanto figurar, salvo por razões cataclísmicas, em mapas da fome e quejandos.

Por que haveria um francês de respeitar um país por ser ele governado por um simulacro de francês?
Haveria de respeitá-lo, óbvio, no dia em que fosse governado por um dos seus e para os seus.

Mas deixa eu mudar o rumo dessa prosa, meu leitor, que sinto estar se tornando deveras moralista e rancorosa.

Acredito que toda postura propriamente ética começa por rechaçar a baba e o dedo em riste moralista. Começa numa tolerância infinita para com outrem e na afeição a pensamentos, palavras e realidades complexos, refratários a tratamentos simplistas.

Toda postura propriamente ética começa por não encher a boca para falar: é-t-i-c-a. Podem apostar – é empírico, não apriorístico – por trás de todo moralista empertigado há sempre um depravado inconfessável. As pessoas propriamente éticas são sempre compreensivas e tolerantes, como Buda, Sócrates, Epicuro, Zenão de Cício, Cristo, Madre Teresa de Calcutá e Papa Francisco.

Perdoem-me os leitores: é a raiva por terem prendido injustamente meu presidente, depois de terem derrubado injustamente minha presidenta.

(Querido e querida).

A injustiça, como a inveja, é uma merda.

Deixemos de lado toda idealização otimista quanto a eventuais instintos altruístas do ser humano e voltemos à vaca fria da órbita umbilical que rege inexoravelmente toda ação desse bicho incorrigível, segundo uma visão antropológica tão pessimista quanto realista.

E aí chegamos finalmente ao título do presente post.

A “escolha de Aquiles” é um tema clássico e, como tal, sempre atual e atualizável.

Fala de uma disjunção, em termos lógicos.

Ou ou.

De uma encruzilhada, numa imagética da condição (trágica) própria da existência: ter de decidir por um caminho em detrimento de outro, como a gente faz em cada instante da vida, dando-se ou não conta disso.

A mãe de Aquiles, a nereida Tétis, apresentou-lhe a encruzilhada: ou ia ele à guerra em Troia e enchia-se de glória e renome (kléos), ao preço de abandonar a vida violentamente na flor da juventude, ou ficava em casa gozando de vida longeva até a morte tardia não menos doce que a vida.

Todos sabemos qual foi a escolha do herói, que não chega bem a ser uma escolha, mas um simples assentimento no destino, já que a segunda opção implicaria em Aquiles não vir a ser Aquiles e, na ausência, em tempos arcaicos, de um subjectum feito de arbítrio que pudesse salvaguardar ainda alguma identidade, essa opção seria simplesmente incogitável.


Thetis trying to turn Achilles immortal. Thetis holding Achilles by his rig. After Victor Janssens, c.1700.

Ademais, se Aquiles não tivesse ido à guerra e brilhado sob a aura da ação bélica, faltaria a Homero a matéria-prima de seu canto, faltaria à Grécia simplesmente Homero, seu educador, e faltaria ao Ocidente simplesmente a Grécia, seu berço.

Talvez o mundo fosse até melhor – sejamos humildes para admiti-lo – sem Aquiles, sem Homero, sem a Grécia e sem o Ocidente.

Mas ao amante com um mínimo de amor fati, e deixando de lado todo juízo quanto ao “melhor” para ficar apenas com o juízo estético, essa ideia é, para dizer o mínimo, insuportável.

E o que isso tem a ver com nosso tema inicial?

Tudo.

Vamos combinar: essas excelências togadas midiáticas e esses seguradores de microfone da Globo devem estar todos faceiros e cheios de si com os tapinhas nas costas, os sorrisinhos e os rapapés que estão a receber nos corredores e salões da casa-grande (e da Casa Branca), mas será que a vaidade e o medo turvam-lhes mesmo a visão a ponto de não perceberem como seus nomes hão de figurar nos livros de

História após suas mortes?

Vejam: falo de uma perspectiva egocêntrica e vaidosa mesmo.

Daqui a 50 anos – vá lá, 100, para o caso de quem me lê ser jovenzinho – eu estarei morto, tu, meu leitor, estarás morto, Lula estará morto, Merval Pereira estará morto, os irmãos Marinho estarão mortos, Sérgio Moro estará morto.

Eu e provavelmente meu leitor jazeremos incógnitos sob nossa mãe primeira, Gaia, livres de glória, mas também de opróbrio, mas qual será o kléos de Lula e qual será o kléos de Moro?

Alguma aposta?

Ora, por mais seguro de sua missão moral que o sujeito esteja, a ponto de relativizar tudo que julgue ficar por baixo dela, qualquer ser com mais de dois neurônios não midiotizados sabe que o tal processo do triplex do Guarujá é uma farsa.

Não precisa ser PhD em Direito Constitucional para saber que ninguém pode ser condenado por atos de ofício “indeterminados”. Não ao menos depois de Beccaria.

Ademais, atos de ofício indeterminados em contrapartida de um apartamento furreco, do qual não se tem a escritura, nem as chaves, nem sequer o usufruto de um mísero pernoite.

Pena: doze anos de cana.

Isso no país em que meia tonelada de cocaína num helicóptero pousado numa fazenda não dá nada, se o dono do helicóptero e da fazenda e patrão do piloto contar com a boa-vontade daquele pessoal do microfone, que não empunhá-lo-á dia e noite no cangote do sujeito, como acontece no caso dos inimigos.

Plim-Plim.

Mas daqui a 100 anos também a Rede Globo estará morta.

Restarão os livros de História. Essa, a História, não morre assim tão fácil, porque é inspirada pela musa Clio, filha do olímpico Zeus e da titanide Mnemosine (Memória), todos imortais.
A imortal Clio (Kleió) é quem confere e mantém o kléos dos mortais.

O filósofo Sócrates soube fazer sua escolha de Aquiles no momento mais crítico de sua vida.
Não seguiu o conselho de Críton e não fugiu da cadeia, embora soubesse que não lhe cabiam as acusações injustamente assacadas por Meleto e sua trupe, Ânito e Licão.
Sócrates e Meleto, ambos, enquanto meros mortais, deviam albergar em si boa cota de bens e boa cota de males, misturadamente.

Como todo mundo, quando olhado de perto.

Mas, de longe, é outra coisa.

Depois de mais de dois milênios, o que alguém ainda é capaz de lembrar de Meleto, senão a ignomínia de ter levado à morte ninguém menos que o filósofo Sócrates, admirado por todos, no Oriente e no Ocidente?

Numa analogia, sem nenhuma idolatria mistificadora, mas numa simples analogia em sentido matemático, como 1 está para 3 assim como 2 está para 6, ou numa versão menos objetiva e mais imagética, o micróbio está para o gigante como a pusilanimidade está para a magnanimidade, eu diria, com o perdão do micróbio que não tem nada a ver com isso:

Moro, você é o Meleto dessa história.

E Lula, o Sócrates.

Luís Felipe Bellintani Ribeiro é Professor de Filosofia da UFF.

Créditos da foto: Miséria, Isidre Nonell Monturiol, 1904