Sociedade e Cultura

A história da revolução total

Hoje, o primeiro capítulo da excelente série Uma história do anarquismo, especial para a TV, abre as celebrações do Primeiro de Maio deste ano e desmistifica lendas que cercam o movimento político, indevidamente com uma face sombria

13/04/2018 07:29

Cena do documentário %u21CHistória do Anarquismo%u21D - Divulgação



Por Léa Maria Aarão Reis

Dentro de duas semanas, em primeiro de maio, o mundo ocidental voltará a parar para celebrar o Dia Internacional dos Trabalhadores. Poucos sabem que a data foi criada para relembrar um massacre, há um século e meio, na cidade francesa de Clichy, quando morreram, atacadas e assassinadas pela polícia, centenas de mulheres e crianças posicionadas na primeira fila dos pelotões de operários que protestavam contra as condições subumanas em que trabalhavam e viviam.

Este ano, a exibição do documentário História do Anarquismo - sem deuses nem mestres, de Tancrède Ramonet - produtor e cineasta e um dos filhos do célebre jornalista Inacio Ramonet - em três partes, abre as celebrações da data. Vale assistir o primeiro capítulo, hoje, no Canal Curta, às 23 horas. E nos dias seguintes em horários alternativos.*

Os filmes apresentam a luta operária na perspectiva do movimento anarquista nascido no mesmo berço do marxismo e do socialismo e cuja marca quase sempre, por equívoco, mostra uma face sombria que na verdade não é a sua.

O primeiro capítulo tem como título A paixão por destruição. Trata das origens do movimento anarquista, da ação/fundamento do francês Pierre-Joseph Proudhon (saudado pelo jovem Karl Marx como ‘’o novo arauto do movimento operário europeu’’) Saint Simon e Fourrier, e, em seguida, do movimento russo liderado pelo corajoso Mikhail Bakunin, o formulador mais importante do anarquismo, e seus seguidores logo espalhados pela Europa – o italiano Malatesta, o príncipe russo Kropotkin, o espanhol Anselmo Lorenzo, Elie e Elisée Reclus, o suiço James Guillaume. Todos, engrossando e endossando o movimento operário no período 1840/ 1906.

Para Bakunin, como narra o filme, ‘’a única forma de combater o Estado e o capitalismo é a revolução armada.’’

Cena do documentário “História do Anarquismo” - Divulgação

O documentário traz valiosos documentos, imagens e filmes de época praticamente desconhecidos até aqui, breves narrações em off e diversos comentários de historiadores, professores e intelectuais europeus, americanos e canadenses.

“Este inimigo do capitalismo suscita fantasmas que provocam mal entendidos,” diz um deles. “Os anarquistas históricos pretenderam transformar a dominação política, econômica e religiosa em um pensamento realmente revolucionário.’’

‘’Um dos valores fundamentais do anarquismo, e nada fácil de resolver, ‘’ diz o professor Normand Ballargon, da Universidade do Quebec, “é resolver o desafio, a contradição de conciliar liberdade e igualdade. Sem liberdade, diz ele, a igualdade não é completa. Muita igualdade sem liberdade é a prisão; e muita liberdade sem igualdade é a selva.

Para ilustrar a origem da palavra anarquismo - que pode trazer pensamentos confusos e histórias intrigantes, diz o narrador – é evocada a sua raiz grega: na-arkhe cujo significado é ausência de poder. Na sua interpretação negativa, desordem e caos.

O filme também comenta sobre as três correntes dos primórdios do movimento: a reformista, minoritária, que não acreditava na revolução: a segunda, marxista, qualificada pelos anarquistas de ‘’autoritária’’, que acreditava na ordem imposta com a ditadura do proletariado e a terceira, a corrente anarquista, de Bakunin, que rezava a destruição definitiva do aparelho estatal.

Um dos mais episódios mais importantes do documentário de Ramonet se refere ao tristemente célebre massacre de Chicago de 1880, quando a chefia da polícia local, da cidade que era uma das mais miseráveis dos EUA (e, por outro lado, também uma das mais ricas) estourou uma bomba no meio de uma imensa manifestação de operários como armadilha para justificar, em sequência, o julgamento e a condenação à morte - pela ‘’justiça’’ de ocasião - de cinco de seus líderes tidos como autores do atentado.

Apenas treze anos depois do massacre os cinco anarquistas foram reconhecidos inocentes. Foi quando se institucionalizou o primeiro de maio como Dia Internacional do Trabalhador.

No começo desse primeiro capítulo do fascinante doc, o narrador se refere ao anarquismo deste modo: “ A esses ventos de revoltas e de revoluções, nos cinco continentes, os governos sempre perseguiram e puniram.’’

E um pacifista fala, após a brutalidade chocante da repressão que se seguiu aos 73 dias da Comuna de Paris, “ o sonho de todos os anarquistas’’: ”A mudança não será pacífica pois se agirmos pacìficamente seremos sempre massacrados. Se você é pacifista, você será executado.’’

* Horários alternativos: dia 14, sábado, às 03 e às 13 horas. Dia 15, domingo, às 24 horas. Segunda, dia 16, ás 17 horas. Domingo 22, à meia-noite. Segunda-feira 23, às 17 e terça-feira 24, às 11. Sexta-feira, dia 27, às 23 horas e sábado, 28, às 03 e às 12 horas. Domingo 29, meia-noite.  Na próxima semana, capítulo dois: Terra e Liberdade.
 
 







Créditos da foto: Cena do documentário %u21CHistória do Anarquismo%u21D - Divulgação