Sociedade e Cultura

Bolsonaristas: eis algumas palavras especialmente para vocês

 

28/04/2020 14:28

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Créditos da foto: (Reprodução)

 
Caros leitores, hoje vou ocupar meu espaço mensal aqui na Carta Maior com dois textos que não são meus.

São de meu irmão, Luís Kehl. Ele tem escrito muito no facebook sobre a tragédia bolsonarista, e dessa vez lhe ocorreu algo diferente das vociferações indignadas que são de todos nós. Ele trata os bolsonaristas com uma espécie de comiseração. Como se fossem crianças desorientadas. Talvez sejam. Lembrem-se de que Freud usava a expressão "perverso polimorfo" para explicar o psiquismo das crianças pequenas. Porém... E como dizia Plínio Marcos, "sempre há um porém", a infantilidade só é bonitinha nas crianças. E mesmo assim, considerem que, quando frustradas e enfurecidas, as crianças só não matam seus pais e cuidadores porque são pequenas. A violência da fúria infantil não é brincadeira. Só que as crianças amam os progenitores a quem odeiam durante alguns minutos por dia. Já a ira bolsonarista, essa é consistente. Entre outras coisas, ela se alimenta também da raiva que sabe que sentimos por eles.

Escrevo isso porque é assim que Luís Kehl trata os bolsonaristas na primeira crônica (ele não se dirige ao Belzebu diretamente, só a seu séquito): como crianças assustadas. Na segunda crônica, o tema é a morte, essa que está tão próxima de nós e de todos que amamos. O cronista se dirige ao morto anônimo, este que ocupa o último escalão da dignidade dos mortos; este que ninguém sabe quem é. O morto anônimo é, nessa pandemia mal assistida pelas autoridades brasileiras, o que o desaparecido político foi durante a ditadura militar de 1964-85.

Esta que, por sinal, o mandatário do país não cansa de elogiar.

Maria Rita Kehl

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1) Queridos bolsonaristas, quero hoje escrever algumas palavras especialmente para vocês.

Tenho notado, em todas as suas manifestações, que vocês demonstram um medo enorme de alguma coisa, que para mim é difícil de identificar.

Alguns falam de um "comunismo", que não são capazes de definir o que seja. Outros falam de um "complô" contra o presidente, também sem especificar do que se trata. Outros ainda falam da "esquerda", e sob esse rótulo colocam tantas coisas disparatadas, que ficamos sem entender onde está o cerne dessa definição.

De um modo ou de outro, seja qual for o motivo, vocês parecem estar sempre com medo.

Vocês se comportam como pessoas extremamente assustadas, e isso fica muito evidente no modo como reagem e se expressam com o máximo de violência diante de qualquer coisa que lhes pareça uma ameaça.

Uma ameaça, a quê? Parece que vocês têm medo da vida, vocês temem o fluxo das coisas, vocês parecem preferir o represamento das águas ao rio que passa livre.

Vocês sabem que o mundo dá voltas, não sabem?

Então, por que razão reagem de forma tão apavorada a tudo o que possa representar mudança? Vocês querem aprisionar o presente, o passado, o futuro?

Tudo o que acontece é para vocês motivo de sobressalto. Não falo apenas da pandemia, cuja existência, de tão assustadora, vocês negam peremptoriamente.

Falo de qualquer coisa: de uma manifestação popular, de um inquérito que rola na justiça, de alguém que expressou uma opinião diferente. Tudo os deixa num estado de pânico, como se o mundo fosse acabar.

Queridos, tenham calma. Ninguém vai machucar vocês.

Olha, quando a esquerda (meu Deus, "a esquerda"!) estava no poder, ela sofreu processos aleatórios, campanhas difamatórias, prisões arbitrárias, ela foi retirada quase que à força do poder, mas ninguém da esquerda arrancou os cabelos, ameaçou de morte seus adversários, gritou contra seus algozes.

Mas vocês fazem isso todo o tempo. De que têm tanto medo?

Vocês sabem que existe uma coisa chamada "história", e que ela não se resume a um cabo de guerra entre o "bem" e o "mal". A história é uma somatória de fatores extremamente complexos e entrelaçados, e nós somos apenas uma minúscula parte deles. Não se deixem aterrorizar.

Deixem que a história siga seus rumos. Não é possível detê-la.

Procurem se acalmar, ficar em casa, tomar um chá. Ninguém vai fazer mal a vocês. O mundo está cheio de gente séria, que deseja o bem da Humanidade e que se esforça para diminuir o sofrimento das pessoas. Juntem-se a essas pessoas.

Não se preocupem em defender aqueles que já estão cheios de privilégios; eles são perfeitamente capazes de se defender sozinhos.

Pensem nas pessoas que mais precisam de ajuda, nos pobres, nos excluídos, nos necessitados. Pensem nas pessoas que estão morrendo em todo o mundo por causa dessa pandemia.

Sejam solidários. Essas pessoas não são seus inimigos.

Ninguém vai machucar vocês, eu repito. Por favor, não tenham tanto medo.

Abandonem essas trincheiras em que se esconderam. Venham para o abraço. Deixem essa guerra, que não existe, para aqueles que a inventaram. Eles são, no fundo, os mais medrosos de todos.

Existe uma grande coragem em aceitar as mudanças.

Se acalmem, queridos. Ninguém quer machucar vocês.

Beijos a todxs. (13/04/2020)

2) O morto anônimo segue mudo dentro do caixão vazio carregado por pessoas que dançam.

O morto não tem nome, não tem passado, não tem família. Ninguém chora por ele ali, nem ele está ali.

É um morto não morto, porque é ninguém. É só a alegoria de um morto, o espetáculo de um morto - sequer o espetáculo da morte.

Não é a morte que está sendo encenada, pois a morte é dura demais, ela é feia demais para ser encenada.

Mas o morto anônimo, inexistente, teórico, o morto "outro" - ah, esse é muito fácil, ele é leve, não precisa muita gente para transportá-lo, em meio à alegria dos que não o conhecem.

O morto anônimo, a chacota do morto.

O morto que se expôs bobamente à morte.

O morto fraco, o morto velho, o morto doente. O morto que não é parente.

Ao redor do seu caixão de papel, a morte que não está ali e desafiada. Mas não a morte real, ela é dura demais, ela é feia demais para ser desafiada.

A morte anônima, inexistente, teórica, a morte "outra". A morte do outro, aquele sem rosto, sem vísceras, sem conteúdo humano.

O outro, que foi desmontado de sua existência, de sua vida, de seus amores, suas esperanças, seus laços, e que é transportado agora, inexistente, num caixão de brinquedo.

A vida não é um circo. Aqui, os palhaços morrem. Os trapezistas caem de seus trapézios, o domador é devorado pelos leões.

É preciso respeitá-los. Eles deram o seu melhor.

É preciso velá-los com dignidade, com lágrimas. Cada história ali presente foi interrompida. Não era uma brincadeira. Era uma vida. (14/04/2020)



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