Sociedade e Cultura

Leituras de um brasileiro: "Táxis e radialistas"

... fui tomado de assalto por uma dessas rádios, que roubava minha paz com um pro-grama de comentários políticos

13/04/2018 15:49

 

 
Relendo o livro do Carlos Drummond de Andrade “Da notícia e não notícia faz-se a crônica”, de 1978, encontrei a história “Compre livro no taxi”, a respeito de um motorista, bastante simpático, com o qual o poeta teria trocado ideias sobre livros, escritores, poesia. Eu utilizo taxi frequentemente, desisti de dirigir em 2013; dias atrás, durante uma corrida logo de manhã, por volta das 8h30, nada de conversa, muito menos de livro... escutava-se, na rádio, um programa de comentários políticos.

Antes de desistir dos carros, eu desisti das rádios. Muitos anos atrás, dirigindo e ouvindo rádio, lembro-me de uma voz indefinida: perdido em seus próprios comentários, o radialista zombava de si mesmo, alimentando tolices com mais tolices. A crise era esta: um filme estava em cartaz no cinema; ele se chamava algo parecido a “Adagio Sostenuto”; o radialista se divertia porque não sabia o significado disso. “Adagio Sostenuto” é uma expressão do vocabulário musical, ditos tradicionalmente em Italiano; adagio, andante e alegro são, respectivamente, os andamentos musicais lento, médio e rápido. “Adagio sostenuto” significa interpretar a música lentamente, mas com volume, firmeza e força. Não saber disso não envergonha ninguém; não saber, porém, não é motivo para zombar de quem sabe, zombar da sonoridade da palavra... zombar de si mesmo. A partir de então, passei a controlar meu espaço sonoro por meio de CDs, coisa comum no passado, antes do celular com acesso ao Youtube e ao Spotify.

Naquela manhã... sem livros ou fones de ouvido, fui tomado de assalto por uma dessas rádios, que roubava minha paz com um programa de comentários políticos. Há tempos não ouvia tanta bobagem... aquilo era tudo, menos notícia, debate, opinião. Apesar de não saber os nomes dos radialistas, tratava-se antes da reprodução da fala de papeis sociais, com opiniões já prontas e fechadas, do que de pessoas capazes de refletir, sequer, sobre o que diziam ou sobre o tom utilizado para fazer isso. Por não se tratar de pessoas de verdade, mas de bonecos de corda descabeçados, consegui identificar, por meio do discurso, duas personagens padronizadas, habitantes desses programas de mau gosto: o Rábula e o Torvo.

A palavra “rábula” está no dicionário e significa “advogado que usa de ardis e chicanas para enredar as questões” ou “advogado muito falador, porém de poucos conhecimentos”. Sua personalidade de Rábula, nas rádios, só pode ser percebida por meio da voz, por isso mesmo, vamos às vozes, suas entonações, suas palavras preferidas. O Rábula, embora recorra a palavras ríspidas como “lixo”, “ladrão”, “corrupto”, fala mansamente, simulando calma, portanto, parecendo seguro de seus argumentos, já que não precisa gritar para se expressar. O Rábula se parece com outra personagem padrão, o “boco moco”. Em Português, a palavra “boco moco” é um adjetivo e significa “cafona, fora de moda, careta, ultrapassado, bocó, bobo”; com seus arcaísmos, o Rábula acredita ser homem sensato, quando não passa de reacionário.

Se o Rábula é menos prejudicial para as discussões políticas, pois parece pacífico, o Torvo é bem mais perigoso na exposição de sua violência. A palavra “torvo”, em Português, significa “raivoso, iracundo, irascível, colérico, possesso”. O Torvo das rádios fala grosso, quase grita; chega, em sua veemência, até a se perder nas palavras, enrolando a língua em expressões incompreensíveis. Diferentemente do Rábula, o Torvo se permite fazer xingamentos, bufar, blasfemar. Para supostamente se aproximar do povo, ele se vale das comparações mais estapafúrdias entre política e futebol, receitas de bolo, trechos de telenovela. Nessas comparações indevidas, o Torvo deixa entender toda sua falta de estudo.

Se muitas comparações podem ser esclarecedoras, sempre deve haver atenção para que, apesar das semelhanças entre os termos comparados, suas diferenças não causem deturpações, no mínimo, arriscadas. Enquanto os jogos de futebol reduzem-se às disputas entre dois times durante 90 minutos, cabendo às torcidas participação bastante limitada nos resultados finais, já que mal podem decidir a escalação dos jogadores, a política é bem mais complexa: ela dura o tempo da história; os conflitos entre as classes sociais dependem de relações econômicas e da construção de ideologias, e não simplesmente do preparo físico e técnico de atletas; não há torcida, mas eleitores, que, pelo menos na democracia, interferem diretamente na escolha de seus representantes. Os políticos, portanto, não deveriam ser vistos como jogadores, mas como legisladores; além do mais, jogos de futebol não definem os destinos dos países, como faz, contrariamente, todo ato político. Tais comparações revelam o despreparo do comentarista; falta-lhe conhecimentos de ciência política, por isso mesmo, seus comentários não passam de palpites, fundamentados somente pela cólera.

Por fim, não havia debate, todos eles diziam as mesmas tolices; Rábulas e Torvos se confraternizando desde logo cedo, em nome do desserviço desse tipo de informação.



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