Sociedade e Cultura

Nem Freud explica...

 

01/03/2020 16:50

 

 
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Nota da redação.

Carta Maior
tem nova coluna com forte incidência conjuntural, profundidade científica e incentivo à ação para ofertar @os leitores, batizada como:

Nem Freud explica...

Nestes tempos de obscuridade e negação das conquistas racionais, é fundamental se referenciar em alguns pilares do conhecimento humano, entre os quais Freud, Darwin e Marx, no século XIX - para não recorrer ao visionário e destemido fidalgo português Fernão de Magalhães, que comandou no século XVI (1519), uma frota de cinco barcos e ofereceu à humanidade a comprovação de que a Terra é redonda. Pouco tempo depois, em 1543, coube a Copérnico, descobrir que a Terra gira em torno do Sol.

Freud foi um revolucionário que descortinou a mente humana, revelando-nos o inconsciente, rompendo trevas e muito mais - assim como Darwin descreveu a "A Árvore da Vida", na Origem das Espécies e Marx desvendou o funcionamento da economia capitalista em O Capital.

Serão abordagens psicanalíticas que se entrelaçam e se tornam cada vez mais indispensáveis diante da atual conjuntura. A coluna será escrita por quatro psicanalistas, um por semana, postados sempre a partir do primeiro domingo de cada mês , que se revezarão para analisar os fatos da semana, preferencialmente sobre temas da realidade brasileira, mas que também poderão trazer aos nossos leitores suas visões a respeito do que passa pelo Mundo.

Já estão confirmadas duas importantes psicanalistas:

Glaucia Dunley, psicanalista, médica, mestre em Teoria Psicanalítica, doutora e pós-doutora em Comunicação e autora de vários livros, dentre os quais se destaca “O Silêncio da Acrópole – Freud e o Trágico “, Ed. Forense Universitária/Fio Cruz, que estará nas páginas da Carta Maior sempre no primeiro domingo da primeira semana de cada mês e inaugura hoje a nova coluna.

Maria Rita Kehl, psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária brasileira. Em 2010, venceu o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria “Educação, Psicologia e Psicanálise”, com o livro O Tempo e o Cão, Editora Boitempo. Maria Rita escreverá sempre nas terceiras semanas dos meses, também sempre aos domingos.

Os outros dois psicanalistas serão apresentados nos próximos dias.

Leia a seguir a primeira análise na nova coluna, escrita pela psicanalista Glaucia Dunley.

Boa leitura.

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Nem Freud explica...

Por Glaucia Dunley

 E agora, seremos ou não os covardes da nossa história?

Depois que o povo consumou de vez o Carnaval como a sua grande festa nacional de protesto, subvertendo pela beleza e pelo humor nossas mazelas antiquíssimas, e barrando com luz, cor, e muita emoção a sombra do fascismo que caiu sobre nós com a eleição de Bolsonaro, vemos estarrecidos (ou aliviados porque, quem sabe, daqui não passa!) a tentativa grave de golpe de Bolsonaro contra a Constituição e, em consequência, contra o Povo Brasileiro, ao estimular seus seguidores por via digital, como sempre, a se posicionarem nas ruas contra o Congresso Nacional, no dia 15 de março.

Numa declaração rápida, justa e muito dura, o decano do STF, Celso de Mello, afirmou que “o Presidente da República pode muito, mas não pode tudo”, aludindo sem meias palavras ao que nós, psicanalistas, chamamos de castração simbólica, ou de submissão à lei simbólica, sem o quê não estaremos aptos psiquicamente a conviver em sociedade. Este ser sinistro, que não se submete ao crivo do processo psíquico decisivo entre neurose, psicose ou perversão, foi elevado pela verdade da arte popular carnavalesca na noite de domingo àquilo que ele de fato é - um Palhaço Maléfico, esta figura maior da estranheza ou do ominoso em nossa história republicana.

Nota máxima para esta apreensão artística da estranheza que o Mal, precisamente a crueldade fascista, nos provoca quando ela retorna neste governo autoritário em todo o seu horror sob as bandeiras familiares da moralidade, da anti-corrupção, dos valores reacionários que dão obscuro alívio aos cordeiros que eram lobos.

Em seu ensaio “O estranho” (Das Unheimliche), de 1919, Freud introduz o tema atualíssimo da angustiante estranheza, experimentada diante dos autômatos de forma humana que adquirem vida própria no Homem de Areia, dos Contos Fantásticos de Hoffmann, tomado por Freud naquele texto para expressar o terror surrealista que esta forma de angústia desperta. Principalmente diante dos autômatos que adquirem vida pública de alto escalão, como vemos!

Neste ensaio, Freud atribui a Schelling a afirmação de que o estranhamento se dá quando “algo que deveria ter ficado recalcado retorna...” O que estaria retornando? Significativamente, este ensaio foi escrito um ano antes de Freud lançar com todos os nomes sua concepção de pulsão de morte, sua crueldade indissociável, sua paixão pela repetição, sob forma de retorno do mesmo. Que não é o retorno do idêntico, daí os neofascismos, neonazismos e o mais.

O Palhaço Maléfico e seu séquito são os operadores diários desta estranheza inquietante que brota como um marketing nazista da angústia, inflando cada vez mais a crueldade fascista que retorna com força e sem tréguas, tornando-nos cada vez mais frágeis politicamente, confusos e desamparados num pesadelo que não acaba! Ao ponto de duvidarmos se aquilo poderia ser de fato real.

Desde 2016, com o último golpe, o Brasil virou o país do absurdo, vivendo em regressão social regada por esta angústia bizarra, que nos leva à perplexidade, à inibição e à paralisação quanto a tomar medidas politicamente eficazes para barrar o esfacelamento do país.

A volta da miserabilidade e da fome para milhões de brasileiros, a destruição dos direitos sociais, duramente conseguidos através de uma reforma da previdência aviltante, que nos fará seguir o caminho trágico de países como o Chile, o Japão, entre outros, onde os idosos se suicidam ou cometem pequenos delitos para serem presos, por não poderem contar com o recebimento minimamente digno de suas vidas de trabalho.

Uma verdadeira “economia do barracão”, típica de locais de grilagem no interior do país, se instalou no “pensamento” econômico deste país com esta reforma da previdência. Nela, os trabalhadores estão sempre devendo VIDA, TEMPO, TRABALHO. Ela abre a cova do povo também para a Reforma Trabalhista que a segue, outro exemplo da crueldade fascista, que vai precarizar ainda mais o trabalho e a vida da grande maioria.

Aqui mesmo em nossas periferias sírias, a meia hora de Copacabana, jovens negros se automutilam e tentam suicídio, por estarem expostos a uma violência sem fim, à falta crônica de futuro, à perseguição dos bandos de policiais oficiais e paralelos, além de presas fáceis dos narcotraficantes.

Isto não pode continuar já que, como acabamos de ver, a tristeza não é o nosso destino!

Carnavalizamos a desgraça, transformamos o horror em sublime e em humor, chacoteamos os tiranos, vamos às ruas agora para exigir a deposição deste Tirano, em termos do mítico ensaio fundador da sociedade humana “Totem e Tabu” (1912).

Nele, Freud mostra, mas não explica em termos contemporâneos, já que o sentimento de culpa que uniu os irmãos de então em torno do assassinato coletivo do Pai Tirânico e Gozador de todos os privilégios não é mais o nosso forte, que é possível haver uma coalizão entre irmãos (antes e) depois da deposição do Tirano, mesmo que cada um dos irmãos quisesse e continue querendo o poder e as regalias para si!!!

Isto serve para todos, e para a superação das desavenças e narcisismos intra e interpartidários em favor da união para atingir com urgência o objetivo comum: depor o Palhaço Maléfico, deflagrador de motins e da criação de matilhas milicianas em seu favor e contra o povo, como no Ceará. É um fascista.

Ao escrever este texto, de um só golpe libertador, descobri que não somos covardes. Como disse, estamos reféns de uma estranha angústia diante do Mal e da sua crueldade que imobiliza o exercício de poder do povo!

A frágil garantia de que o eterno motim humano pode e deve ser barrado é um conjunto de leis chamado CONSTITUIÇÃO! A nossa, que é um primor, precisa ser protegida do Mal da vez.

Glaucia Dunley é psicanalista











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