Sociedade e Cultura

No Leste Europeu, Papa Francisco defende ''uma Igreja livre, criativa e aberta ao diálogo''

''Uma Igreja que não abre espaço para a aventura da liberdade, mesmo na vida espiritual, corre o risco de se tornar um lugar rígido e antipático. A Igreja não é uma fortaleza, não é um castelo situado sobre uma montanha, que olha o mundo com distância e autossuficiência'', afirmou o Sumo Pontífice

17/09/2021 10:15

(Luca Zennaro/EPA/PAP)

Créditos da foto: (Luca Zennaro/EPA/PAP)

 
Em seu segundo dia na Eslováquia, o Papa Francisco realizou inúmeros encontros com personagens do mundo político e religioso católico e judeu, destacando a necessidade da fraternidade neste período de pandemia, a importância da memória ao se referir ao Holocausto e pedindo que a Igreja incentive a liberdade, a criatividade e o diálogo. O pontífice não perdeu a oportunidade de sublinhar que a Eslováquia “é uma mensagem de paz no coração da Europa”, recordando que há 28 anos nasceram dois países independentes, a Eslováquia e a República Checa, que antes era a Tchecoslováquia, em um processo “sem conflito”.

“A listra azul em sua bandeira simboliza a fraternidade com os povos eslavos. E hoje temos grande necessidade de fraternidade para promover uma integração cada vez mais necessária, especialmente depois dos duros meses da pandemia”, destacou Francisco em sua mensagem dirigida ao governo eslovaco, liderado pela presidenta Zuzana Caputova – com quem se encontrou na segunda-feira (13/9) de manhã na capital, Bratislava.

Sobre a pandemia, acrescentou: “É o grande desafio do nosso tempo e nos ensinou como cedemos à desunião e terminamos pensando apenas em nós mesmos. Devemos recomeçar reconhecendo que somos todos frágeis e que necessitamos dos outros. Ninguém pode se isolar, nem como indivíduo nem como nação. Vamos receber esta crise da pandemia como um apelo a repensar o nosso estilo de vida”, continuou Francisco.

E dando continuidade à sua análise socioeconômica da pandemia, Francisco destacou que “não basta a recuperação econômica para trazer a paz social em um mundo em que todos estamos conectados, há outros problemas a superar, e enquanto as lutas pela supremacia continuam em várias frentes, este país reafirma sua mensagem de integração e paz”, felicitando o atual governo eslovaco por sua política menos hostil aos imigrantes, em comparação aos antecessores de direita.

O Papa também fez uma alusão tácita à solidariedade internacional que é necessária para ajudar países em conflito, como o Afeganistão, e também os refugiados africanos. Ele expressou sua esperança em que a Europa “se destaque por uma solidariedade para além das suas fronteiras, e que a coloque no centro da história”.

Encontro com membros da Igreja

Na Catedral de San Martino, onde se reuniu com bispos, padres e seminaristas eslovacos, o Papa Francisco destacou a necessidade de construir uma Igreja que “caminhe junto (com a sociedade)”, porque a Igreja “não é uma fortaleza, não é um castelo situado sobre uma montanha, que olha o mundo com distância e autossuficiência”, comentou, aludindo às lutas internas que existem entre os diversos setores da Igreja – presentes não só no Vaticano – e ao caminho de transformações que a Igreja deve seguir.

Francisco apresentou uma ideia muito aberta e progressista da Igreja, que, segundo ele, deve responder a três palavras: liberdade, criatividade e diálogo. “Sem liberdade não há verdadeira humanidade, porque o ser humano foi criado para ser livre (…) mas a liberdade não é uma conquista automática (…) é sempre um caminho muito cansativo que deve ser renovado continuamente (…) e hoje, muitas vezes, agimos de acordo com o que a mídia fala e perdemos a nossa liberdade”, alertou.

Sobre a liberdade na Igreja, o pontífice afirmou que “uma Igreja que não abre espaço para a aventura da liberdade, mesmo na vida espiritual, corre o risco de se tornar um lugar rígido e antipático”. Também lembrou que sobretudo as novas gerações “não são atraídas por uma proposta de fé que não permite a liberdade interior, por uma Igreja na qual todos pensam da mesma maneira e obedecem cegamente”.

Quanto à criatividade, Francisco sublinhou que a tarefa mais urgente da Igreja nos povos da Europa é encontrar “novos alfabetos” para anunciar a fé e deu o exemplo de Cirilo e Metódio, santos de origem eslava que viveram no Século IX, e que se distinguiram justamente por inventar um novo alfabeto para ler a Bíblia, e assim divulgá-la entre os povos eslavos que habitavam a região. Assim, eles se tornaram os apóstolos da inculturação da fé: “eles usaram sua criatividade para criar uma nova linguagem para transmitir o Evangelho, para traduzir a mensagem cristã”, frisou o Papa.

Por fim, sobre o diálogo, Francisco insistiu que a Igreja hoje deve dialogar com todos: “com os que seguem e os que não seguem religião ou crença. Temos que falar com todos, porque só assim o Evangelho pode gerar “a comunhão, a amizade e o diálogo entre os fiéis, entre as diversas religiões cristãs e entre os povos”.

Durante a tarde, Francisco visitou o Centro Belém de Bratislava, administrado por freiras da congregação de Madre Teresa de Calcutá, que ajudam os sem-teto que vivem na cidade.

Encontro com a comunidade judia

Na mesma tarde, Francisco conheceu a comunidade judia de Bratislava, em um evento realizado na praça Rybné Námestie, onde havia uma sinagoga bem perto de uma igreja, mas que foi destruída. Hoje, o local é uma espécie de monumento histórico para recordar as centenas de mortos no Holocausto. A palavra “zachor”, escrita no monumento, significa “lembre-se” em idioma hebreu. “A memória não pode e não deve ceder ao esquecimento”, disse o Papa, em sua mensagem.

“Hoje, não faltam os falsos ídolos, que desonram o nome do Altíssimo. Aqueles do poder, os do dinheiro, que prevalecem sobre a dignidade do homem. Aqueles da indiferença, os que olham para o outro lado, das manipulações que instrumentalizam a religião”, acrescentou o Papa.

O pontífice novamente destacou a importância da comunhão entre a Igreja Católica e a comunidade judia, e nesse sentido, foi categórico ao afirmar que “estamos unidos na condenação de todas as violências, de todas as formas de antissemitismo”.

As palavras de Francisco foram seguidas de outras mensagens, como a de algumas freiras que atuaram, junto com suas comunidades, para salvar crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse cenário, um testemunho de outra pessoa foi particularmente impressionante: o do professor Tomas Lang, um sobrevivente do Holocausto.

“Faço parte de uma comunidade que não conheceu seus avós, que nem mesmo se lembra de seus pais”, disse Lang, que sobreviveu, segundo ele, graças à ajuda de outras pessoas muito corajosas o ajudaram. Nascido em maio de 1942, quando tinha três meses, seu pai foi enviado para o front, e nunca voltou. Dois anos depois, sua mãe foi levada por pessoas que regressaram tempos depois com a versão de que ela “morreu durante a marcha da morte”, a evacuação dos campos de concentração antes do avanço do Exército Vermelho.

O professor Lang não deixou claro por quem ele foi cuidado durante a infância, mas contou que ele adoeceu um dia e foi levado ao hospital. As corajosas enfermeiras protegiam as crianças, colocando cartazes nas portas dos quartos que diziam “doenças infecciosas”, para que os nazistas não entrassem. Ele também foi salvo, junto com outras quatorze crianças, de um atentado a bomba em um hospital, graças às ações de outra enfermeira. “Infelizmente, nunca consegui encontrá-la para agradecer sinceramente”, concluiu.

*Publicado originalmente em 'Página/12' | Tradução de Victor Farinelli



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