Sociedade e Cultura

O bolsonarismo não é política, é religião!

 

03/05/2020 12:58

 

 
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Intrigada com a permanência de uma base de sustentação bolsonarista refratária a toda e qualquer catástrofe do discurso ou à ação genocida de Jair Messias Bolsonaro, parto para esta reflexão na qual tento me aproximar deste fenômeno inexplicável.

Para tal, busco alguns subsídios no estudo do arcaico freudiano, no mundo Ür ou originário de “Totem e tabu”, assim como me aproximo do “Ür fascismo” de Humberto Eco (fascismo originário, melhor que eterno, acredito, tal como foi traduzido). Veremos que no mito freudiano sobre as origens da civilização, o Ürvater, o pai originário ou primevo, encarna o pai tirânico e violento da horda humana primitiva, que se apropria de todas as formas de gozo, e é assassinado pelos filhos, ao se reunirem numa coalizão, constituindo posteriormente um pacto civilizatório primordial para a sociedade humana sobre a base dos interditos do incesto e do parricídio. Ele, o Ürvater freudiano, é também, numa anterioridade lógica a Mussolini, o protofascista da história (o fascista originário ou primordial), servindo-me aqui da interessante denominação de Ür fascismo com que Humberto Eco chamou o fascismo italiano, o do Duce. Outro Mito. Tanto o Ürvater quanto o Ürfascista de Eco foram assassinados ou executados, pagando com a vida, por justa causa, suas ações tenebrosas, e dando a vez a novos pactos.

 Vamos ao bolsonarismo como religião. Citando Goethe em “Mal-estar da civilização”, Freud extrai com pertinência para a nossa atualidade os seguintes versos: “Quem tem ciência e arte, também tem Religião; quem não tem ciência nem arte tenha religião!”.

Para o bom entendedor da psicanálise como pensamento crítico e revolucionário, que rompeu com vários paradigmas do saber do homem sobre ele próprio como sujeito e como espécie, Freud, um ateu, interpreta, com Goethe, a ciência e a arte como Religião, no primeiro verso, conferindo-lhes com essa metáfora o mais alto valor cultural em nosso processo civilizatório, ao ponto de se tornarem ideais de cultura! Deusas! Em outras palavras, ao nos identificarmos com esses ideais, os desejarmos, os valorizarmos, estaremos nos indenizando (através da sublimação das pulsões) pela renúncia à satisfação direta de nossos desejos mais prementes, e que nos é requerido continuamente pelo processo civilizatório (interdito ao incesto e ao parricídio, ou simplesmente ao desejo de assassinar). Esta renúncia causa mal-estar ao nível do sujeito e da cultura, assim como atitudes hostis ao próprio processo civilizatório e cultural.

Em “Construções em análise”, texto tardio de 1937, dois anos antes de sua morte em Londres, Freud dirá que a pulsão é o que há de mais Ür, de mais arcaico, no psiquismo humano, chamando-a de Ürtrieb, e reafirmando com isso que nosso psiquismo é constituído por forças arcaicas (no Isso ou Id) que nos submetem e nos impelem a agir à nossa revelia. O inconsciente é Ür.

Ao relançar a pulsão como Ürtrieb em 1937, Freud nos lembra sobre a importância de seu ensaio “Totem e Tabu” (1912), no qual ele reserva o prefixo Ür da língua alemã para caracterizar esta nebulosa originária, arcaica e mítica da fundação da sociedade humana (assim como em 1915 funda nosso eu-real-originário que subsiste junto com outros tempos de constituição do sujeito). Haja diferença, haja conflito!

Neste mito das origens, o sagrado e o crime primordial de parricídio embasam uma nascente moralidade, e estão estritamente vinculados entre si. Surge assim o vínculo religioso, totêmico (em substituição ao pai da horda assassinado), que os irmãos assassinos mantem entre si e com o Pai Morto (antepassado de Deus, dirá Freud em “O futuro de uma ilusão”), como a cicatriz de uma culpa originária, civilizatória, que os mantém unidos, embora desejosos, ainda assim, de imitar os malfeitos do pai tirânico assassinado...e tomar o seu lugar!

Vivemos essa temporalidade do arcaico das pulsões (esses seres míticos) simultaneamente às de outros extratos psíquicos mais diferenciados ou recentes, o que nos desafia em nossa arrogância moderna ou pós-moderna de pretensos civilizados. Haja vista a carnificina do século passado, a guerra permanente ou ilimitada deste jovem século (só lembrando o mais recente), para entendermos que teremos que conviver com este paradoxo de vários tempos simultâneos do psíquismo. O que nos permite, por conta de nossa meia civilidade, meia redenção, ficar perplexos diante da capacidade humana intrínseca, segundo Freud ao postular a pulsão de morte em 1920, de fazer o mal, de destruir, de destituir, de se apropriar, de explorar e de gozar com tudo isso, como nos primórdios da civilização humana, e como nos mostra incrivelmente Bolsonaro; e ao mesmo tempo nos dá a chance ou a vergonha de enxergarmos em nós mesmos, vez por outra, posições fascistas ou racistas, pequenas, médias ou grandes crueldades.

Em poucas palavras, e me repetindo talvez, somos então, em maior grau ou menor grau, sapiens e trogloditas, em proporções variadas, segundo o contexto, e convivemos com o nosso arcaico e com o arcaico mais arcaico ainda de outros que precisam de um líder mítico, onipotente e cruel. No qual se espelham a imagem e semelhança, garantindo-lhe uma adesão ou claque permanente mediante a ilusão de que se trata de um Pai Protetor quando é na verdade um Pai da Horda, líder de fanáticos igualmente violentos e transgressores, que eles amam sem crítica, se identificam, e invejam.

Freud afirmava seu pertencimento à comunidade judaica, mas dizia que sua verdadeira religião era a mitologia grega, fonte dos mais altos ideais de cultura, e, entre eles, o saber. Através dessa “idolatria por Palas” (frase dele), criou sua mitologia da razão, a psicanálise, que trouxe à luz uma boa nova para os que gostam da verdade e não das ilusões: somos seres do conflito, e desde tempos imemoriais, desde a mais tenra infância, somos o palco das lutas psíquicas pela vida travadas entre Eros e Tanatos.

Estes Titãs, nossas pulsões de vida e de morte, atuam à nossa revelia sem nos dar tréguas e com uma força constante (Dräng). Esta força não consegue se inscrever totalmente nas representações psíquicas, sobrando sempre um resto ou um excesso pulsional (pulsão de morte) ao qual o eu responde com a produção de angústia. São esses daimons, estes seres mitológicos, sagrados, “que nossas amas tentam aplacar com suas cantigas de ninar...” (Mal-estar na civilização, 1929)

Dentre a rica experiência mitopoiética da qual Freud se serviu para pensar o obscuro, o sem origem, o inconsciente incognoscível, destaca-se o mito de fundação da sociedade humana imersa no caos primordial das pulsões de morte, que ele descreve em “Totem e Tabu”, em 1912. Neste ensaio, que ele poderia ter começado dizendo “No início era a força”, mas preferiu “No início era o ato” (parricida), Freud nos faz conhecer um mundo de intensidades, onde reina o princípio de nirvana sobre a pulsão de morte, um mundo ou tempo chamado por ele de Ür, arcaico, que servirá de matéria–prima para forjar vários conceitos importantíssimos da teoria freudiana, como o de supereu, na sua face feroz (o pai feroz, ou primevo, o Ürvater) e na sua face normativa (de pai simbólico, depois do assassinato do tirano ou protofascista).

A mensagem freudiana deste texto seminal, mas também de “O futuro de uma ilusão”, de “O mal-estar na civilização” e de “Moisés e o monoteísmo”, insuportável para mentes encharcadas de positivismo, é a de que descendemos de uma linhagem de assassinos, que (acrescento) por vezes idolatram fascistas assassinos, tornando-se fanáticos, seus clones em potencial. Seus idênticos, seus fiéis, apesar de toda a violência, pulsão de poder e crueldade que eles representam e com eles se identificam justamente por isso, com prazer, e entre si. E dessa posição libidinal não querem abrir mão. Posição de detentores do falo imaginário. Mais adiante falarei de algumas características do Ür fascismo e vocês sentirão certamente aquela estranha experiência do déjà-vu. Um espanto!

O arcaico é uma temporalidade interessante e primitiva que habita o psiquismo do sujeito e a civilização desde sempre, sendo barrado em suas irrupções destrutivas em proporções variadas, de acordo com a consistência dos pactos civilizatórios em curso, com a educação, ou pelas compensações advindas da cultura capazes de apaziguar nossas pulsões mais reacionárias... Estou sugerindo que as pulsões de morte são reacionárias (e não apenas conservadoras, como Freud afirma sobre as pulsões em geral) porque estas pulsões são forças que atuam no sentido do retorno ao estado anterior. Efetuam a volta ou o retorno ao inorgânico, ao inanimado (Freud), à morte, mais ou menos rapidamente, dependendo do Eros em jogo também, que agita a vida e retarda o fim. Esse outro Titã é responsável pela obra cultural que indeniza em parte o homem pela renúncia pulsional. Trata-se de um jogo de forças em que nada pode ser dito a priori. Por isso devemos insistir com o Eros revolucionário!

No início era a força. Nem o ato, nem o verbo, perdoem-me Goethe e Freud pela audácia. A força das pulsões de morte num caos primordial. O arcaico é o tempo caótico da pulsão de morte, que coexiste na atualidade, junto ao tempo hipermoderno da tecnologia de ponta, estando diretamente implicado neste conjunto desconjuntado de mortificações em todos os níveis que hoje vivemos nesta versão bolsonaro do fascismo originário ou Ür fascismo. Esse fascismo originário que contem em si a enésima potência da repetição, própria à pulsão de morte, seu substrato, contém também a potência destruidora, agressiva, aniquiladora, sádica, racista da dita pulsão.

Por meio disso, tento lançar uma pista sobre o caráter religioso, moralista e mortífero do bolsonarismo, desta versão mais desconjuntada do que nunca do fascismo, e que mantem com a moral e a religião um vínculo estreito. Trata-se então da experiência do arcaico na atualidade em todo o seu horror, trazendo para fora de nossos bastidores psíquicos o que de pior existe em nós, o mais atrasado. Na cultura e no sujeito!

Estamos agora frente a isso no Brasil, diante de um vínculo religioso entre uma boa parcela da população e o presidente da república, formatado há anos com a colaboração dos cristãos neopentecostais, que foi eleito democraticamente (em que pese o volume das fakenews expedidas pela milícia virtual da familícia), e no contexto dolorosíssimo da pandemia pelo novo coronavírus, quando vemos este enésimo Protofascista (Ürfascista) semear uma cultura da pulsão de morte, cultura no sentido de meio de cultura ou cultivo da morte, do ódio ao não idêntico, da contradição em peso, da mentira, da guerra contra o povo e contra as instituições democráticas.

Acredito que seja esse nosso problema agora, em pleno governo teológico-militar, que entre inúmeras barbáries, destitui e ataca a arte, a ciência e a educação, restando-lhe lambuzar-se com a religião, dando ao Mito um lugar intocável, divino, e tirando das massas a possibilidade de sublimar suas pulsões de morte (agressivas, destrutivas) pela arte, pela ciência, pelos resultados de uma boa educação em geral, o que nos tiraria da miséria psicológica ímpar que estamos vivendo e da desigualdade social. Em lugar desse horizonte, vemos que a maioria da população não poderá nem ao menos desejará fazê-lo, já que está destinada ao empobrecimento gradativo da subjetividade e à falta de pensamento crítico. Ou seja, estaremos obrigados a conviver com trogloditas em níveis diferentes de evolução. Inclusive, com nossos próprios descendentes, que tantas vezes desconhecemos...

Peara finalizar, transcrevo algumas características do que Humberto Eco chamou de Ür Fascismo, em 1997, no livro “Cinco escritos morais”, e veremos com horror a repetição mortífera do jogo fascista no Brasil desde 2018. Como peculiaridade do nosso, aponto para a quantidade enorme de mentiras, de fraude eleitoral, de traições, de interferência norte-americana longamente gestada na compactuação com as elites civis e militares brasileiras.

- O culto ao tradicionalismo e ao conservadorismo. Todas as mensagens originais contêm sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva. Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem.

- o sincretismo que é o mesmo que colagem absurda de elementos disparatados . Ex.: Julius Evola, o principal teórico que aqui corresponderia ao Olavo de Carvalho, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios do Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano.

- a recusa da modernidade, vendo na razão Iluminista o início da depravação moderna! Daí o Ür fascismo poder ser definido como “irracionalismo”

- o culto da ação pela ação. Ela é bela em si e deve ser realizada antes de qualquer reflexão! Pensar é uma limitação.

- a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais. As universidades são um ninho de comunistas”. Tal e qual.

- Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ür fascismo, o desacordo é traição.

- O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ür Fascismo cresce e busca o consenso, desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ür Fascismo é, portanto, racista por definição

- O Ür Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia e o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

- Para os que se veem privados de qualquer identidade social, o Ür Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ür Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores precisam se sentir sitiados.

- Graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

- Para o Ür Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.

- O Ür Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder sabe que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e procuram um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

. - Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ür Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos franquistas era: “Viva la muerte!”

- O Ür Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ür Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral.

- Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ür Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares. Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi: “Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”...

- A “novilíngua”. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico.

As expressões de Umberto Eco em seus comentários introdutórios, a nebulosa do fascismo e fascismo “fuzzy”, falam do caráter confuso, impreciso, desfocado, extremamente contraditório, que são comuns ao nosso também, com suas peculiaridades. Entretanto segue o arcaico como palavra de ponta da lança que nos atinge profundamente.

Rio de Janeiro, 2 de maio de 2020



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