Sociedade e Cultura

Oniropolítica contra Necropolítica

 

12/04/2020 13:22

(Arte/Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte/Carta Maior)

 
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A chegada do Novo Coronavírus colheu o Brasil em meio a dois processos particulares: a divisão social discursiva e a pauperização da vida econômica e dos direitos trabalhistas. A retórica de campanha, tornada depois método de governo, baseada na produção contínua de inimigos imaginários e instrumentais se viu impactada pela chegada de um inimigo real, biológico e natural. Nada mais óbvio que isso gerasse a resposta descrita por Freud como negação. A negação se expressa pela admissão deum determinado conteúdo recalcado, que chega á consciência ou melhor ao pré-consciente, mas que é, em seguida abolido pela emergência de uma negativa. O exemplo clássico é: “sabe esta mulher no meu sonho? Pois bem, a única coisa que posso dizer é que ela não é minha mãe”. Disso se conclui que obviamente o sujeito não está querendo admitir que se trata justamente se sua mãe. Freud observa que nem toda negativa é uma negação. Há algumas características típicas: a intensificação exagerada, o deslocamento contextual, o fato de o sujeito livre e espontaneamente ter introduzido o tema. Observa, em sua vida cotidiana, quantas vezes o sujeito que começa frases como: “não quero te ofender, mas...” ou “não me leve a mal, mas...”, e sempre depois disso o sujeito faz o que ele anunciava que não iria fazer. Há um segundo estágio da negação, mais crônico e pernicioso que diz respeito ás práticas que visam confirmar, por exagero, uma dúvida que não queremos admitir em nós mesmos. Neste caso, a negação é realizada em grupos e mais frequentemente através do comportamento de massa. Chamemos este segundo tipo de negação, de negacionismo, porque ele frequentemente engendra e parasita crenças religiosas e visões de mundo. Tudo se passa, nesse caso, como se a negação coletiva, nos tornasse mais e mais imunes à dúvida, aumentando a nossa crença na medida que repudiamos a crença alheia. Percebe-se aqui a justeza da expressão reação, ou reacionário para designar este tipo de atitude.

Mas a negação que estava em curso antes da chegada do Novo Corona Vírus ao Brasil envolvia o que Mbembe, chama de necropolítica. Ou seja, uma derivação da biopolítica, que pensa a vida como um negócio da administração de populações, para a aplicação do princípio inverso, não o de preservação da vida, posto que ela é capital e potência de produção, mas a prática de deixar morrer e de negar o processo de extermínio, adoecimento ou desproteção que leva á morte. Enquanto a biopolítica nos oferece verdadeiros monumentos para o controle das populações, com a escola, os hospitais e os dispositivos de colonização, a necropolítica se caracteriza pela lentidão, pelo adiamento e pela manutenção de situações de miséria e desproteção. É isso que explica a lentidão na tomada de medias protetivas, a ignorância descara dos trabalhadores informais e a o pouco caso com avida das pessoas praticados pela pirotecnia presidencial. O que fazer com os milhões de pobres, miseráveis e desempregados? A resposta até aqui tem sido a denegação de existência. O vírus é este pequenos ingrediente que diz, em alto e bom som: mas estas pessoas existem, são vida. A prova é que elas podem, como você e eu, ser infectadas. A prova da existência de vidas para além da biopolítica e da necropolítica e que uma vida não precisa ser definida pela produção ou pelo consumo. Uma vida pode ser definida pela capacidade de sofrer e sonhar.

Não é um acaso que a condução do enfrentamento da epidemia tenha oposto tão bem, a ala militar esclarecida e a da saúde aliada dos planos privados, que operam segundo a velha biopolítica, e o grupo olavista e as celebrações públicas do presidente, diretas ou indiretas, contra a manutenção do isolamento social e da quarentena. Não é um acaso que no auge da crise e o momento fecundo das decisões que determinarão nosso futuro próximo, tenhamos voltado a uma discussão sobre a economia ou a vida. Claro que para manter a vida temos que fazer a economia funcionar e que por outro lado, sem a proteção da vida o circuito da produção econômica e do consumo fica abalado. Aqui o importante né justamente a gramática da polarização, que de tão óbvia nos faz aceitar esta alternativa como se ela fosse em si justa e correta. Isso é tão simples simplesmente porque já estava operando assim antes do Corona Vírus. Este só deu ensejo a que este raciocínio e este discurso se tornassem explícitos. A contabilidade de vidas, algumas que se perderão, deixa em aberto: mas quem decidirá? Quais vidas serão estas. É este ponto que age por baixo dos panos: os pobres, os negros, os periféricos, estes que já devíamos ter eliminado antes, agora serão deixados para morrer segundo nosso necropolítica.

Voltemos ao exemplo de Freud. A negação (Verneinung), traduzida também por denegação, para não ser confundida com qualquer declaração negativa, é exemplificada por um sonho. “Aquela mulher, do meu sonho... não é minha mãe”. Este é o elemento ausente na polarização e na lógica de produção de inimigos, que atualmente está retirando gradualmente a autoridade da presidência e dispersando-a por saberes técnicos e científicos. Nem sempre podemos sonhar. Nem sempre o sonho é levado a sério o suficiente para que tenhamos que negar nossos desejos como passo preliminar para admitirmos sua existência. O sonho é uma realização de desejos que partem do presente, ressuscitam desejos retidos de nossa história e se apresentam em uma imagem realizada do futuro. Por isso sonhos desconhecem condições e meios de execução, eles apenas apontam direções, não trazem manuais de instruções ou diretrizes estratégicas. Por isso também são necessários psicanalistas para interpretar, ou seja, ler sonhos, que se apresentam em sua linguagem específica.

 Ainda está por se formular, entre a bipolítica e a necropolítica, uma política do sonho, ou seja, uma oniropolítica (oniros= sonho em grego). Nela seremos capazes de dizer o que queremos, mais além das condições práticas de sua efetivação. Segundo nosso oniropolítica Bolsonaro não governa mais este país. Contudo, pedir seu afastamento agora é advogar a entrada de Mourão. O senado e o congressos não podem se reunir. As pessoas não podem ir as ruas, ainda que se manifestem do alto de suas panelas. Todos sabemos que ele cometeu muito mais infrações e crimes de responsabilidades do que a presidenta afastada. Todos sabem que em nome da luta contra a corrupção estamos a observar a corrupção se profissionalizar em forma de milícia e pela família do presidente. Sem falar nos resultados pífios da economia. Ainda que muitos economistas nos tivessem advertido, a promessa de campanha é que a redução de juros traria os investimentos de volta e a retomada crescimento e do PIB. Isso não aconteceu. Basta aplicar as mesmas regras e estaremos o mesmo campo do estelionato eleitoral e da pauta bomba usada para afastar Dilma. Sendo ou não a favor do PT, não seria o caso de sonhar com algum tipo de justiça neste processo?

Saímos então das pendências do presente, retomemos os desejos que ficaram suprimidos no passado e comecemos a dar forma e imagem para a realização de um futuro no qual a solidariedade e o sonho possam orientar nossa realidade.






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