Editorial

O ocaso de uma nação: comitês de luta pela democracia

 

11/04/2018 00:00

Ricardo Stucker

 
Os dados secos do tabuleiro político não desmentem quem enxergar no Brasil  atual o ocaso de uma   nação.

Assaltada  por assustadora  fragmentação de interesses, seu  sistema democrático carece de instrumentos, lideranças, projeto e credibilidade para repactuar a sociedade e o desenvolvimento.

Pior que isso.

A peça mais representativa dos interesses populares, indispensável a um mutirão reordenador, foi tirada do jogo em mais um  degrau do golpe parlamentar de 2016.

Desde sábado, o ex-presidente Lula está trancafiado em um  cela de 15 m2, em Curitiba, sob controle absoluto de quem deseja eliminá-lo para sempre da vida política nacional.

Não é perversidade apenas.

É um requisito incontornável da aposta conservadora.

Ou seja, manter a fachada institucional  e  conseguir ganhar uma eleição presidencial pela primeira vez em dezesseis anos.

Quatro derrotas  transcorreram  antes disso, sendo o projeto de restauração neoliberal rejeitado miseravelmente nas urnas.

As  pesquisas de opinião mostram que um quinto revés se desenhava no horizonte.

 Lula  lidera todas as sondagens de voto, em todos os cenários, contra  todos os adversários.

Ocupa essa primazia antes mesmo de  dispor de espaço televisivo para se defender do cerco diuturno contra a sua honra, o seu legado e seus propósitos.

Agora não mais.

Desde que saiu do palanque carregado por milhares de pessoas, em São Bernardo do Campo, no sábado, sete de abril, sua vida está sob o controle dos algozes.

Ele come  a comida que eles lhe destinarem ; bebe a água que eles filtrarem; respira o ar que lhe for direcionado; vê a luz do sol quando lhe permitirem; recebe as visitas que Sergio Moro quiser.

Nove governadores de estados brasileiros, revestidos da autoridade soberana das urnas, foram impedidos de entrar na prisão federal para visita-lo, 72 horas depois de ser trancafiado.

 ‘Nenhum privilégio’, determinou o juiz adestrado nos programas  de cooperação entre sistemas repressivos e judiciais do Brasil e dos EUA, intensificados a ponto de se tornarem o novo normal desde o golpe de 1964.

Colóquios de juízes, procuradores, delegados, policiais e militares brasileiros, com quadros do Departamento de Estado e  da CIA,  são rotina nesse intercambio de saturação ideológica e geopolítica.

O mecanismo vive dias de júbilo.

Lula foi capturado para permanecer doze longos anos no cárcere.

É só o começo.

Adestrados na arte de destruir lideranças populares, seus carcereiros já preparam o degrau seguinte de uma escalada perpétua.

Blogueiros embarcados nesse mutirão  –como o do jornal Estado de São Paulo-- falam em recursos para elevar em até 186 anos as penas sucessivas...

A  algaravia mental de Rosa Weber vai soprar uma bolha de oxigênio nesse túnel de asfixiante afunilamento?

O golpe não foi feito para fortalecer o Estado de Direito  na relação com os adversários.

Esse é um apanágio da democracia.

No Brasil atual ela soçobra em um Rubicão:  direitos e salvaguardas conquistados arduamente na luta pela redemocratização se relativizam.

Lula era um esteio simbólico desses avanços.

 Decepá-lo a machadadas de descrédito e suspeição; confina-lo em uma solitária perpétua, como quer Moro; arrancá-lo definitivamente do acervo de possibilidades eleitorais do presente e do futuro é o plano acalentado pelos interesses conservadores.

Mais grave que isso.

 Se  as forças contrapostas a essa lógica  --desde democratas e  liberais autênticos, passando por nacionalistas, socialistas e comunistas—não se unirem para uma resposta à altura,  não será apenas o personagem símbolo  que virá abaixo.

 Todo o entorno histórico arduamente sedimentado será aplastado.

Impiedosamente. 

Dúvidas devem ser remetidas à memória da derrubada de  Jango, no Brasil, em 1964; de Allende, no Chile, em 1973; de Torres, na Bolívia, em 1971...

Etc.

 Esse é o curso dos acontecimentos.

A gravidade dos ponteiros históricos recomenda que os erros, ambiguidades e hesitações petistas no governo devam ser postas na quarentena das críticas e confrontações?

Ao contrário.

É necessário abordá-los no idioma da camaradagem crítica.

Em adequados ambientes, entre os quais não se inclui a mídia conservadora.

 A autocrítica e a dissecação  dos equívocos é crucial, por exemplo, para que se possa  enxergar além da neblina na encruzilhada angustiante  que atalhou o país.

 O debate fraterno ilumina a pertinência de uma frente ampla progressista em meio à dispersão das divergências.

Ilumina, sobretudo, a constatação de que cada crise tem uma contradição central.

 Ombreá-la em importância às demais costuma ser devastador, não importam as boas intenções do caminho.

Não é hora de insistir nesse erro originário de tantas derrotas.

As portas estão se fechando com rapidez angustiante  no Brasil dos coveiros da Carta de 1988.

Moro é o ferrolho mais buliçoso. Mas há todo um acervo de trancas, cadeados, correntes e fechaduras em movimento.

A própria realização das eleições presidenciais de outubro soçobra sob os ventos desse  outono institucional.

Os  sinais de alarme uniram Lula, Boulos, Manuela, centrais, movimentos sociais  e  intelectuais em defesa do Estado de Direito e das eleições.

Ou simplesmente ‘‘Lula livre’, como resume a rua.

É  importante agregar Ciro Gomes a essa frente para reforçar sua amplitude política, social e eleitoral.

O ex-governador cearense deve ter grandeza de caminhar até ela e os demais de irem ao encontro dele.

Não há salvação fora disso.

As plataformas mútuas são convergentes.

Mas dependem do lastro de unidade para se tornarem críveis.

 Se não forem críveis aos olhos da população, tornar-se-ão irrelevantes.

 O longo amanhecer de uma nação mais  justa não é uma obra linear.

 A cada avanço, não regredir já é um desafio considerável.

O  fim de um ciclo de crescimento abriu  o flanco para o golpe preventivo contra um novo estirão de avanços populares no Brasil.

O retrocesso posto em prática  é radical.

Mira-se a traquéia social e política de dezenas de milhões de famílias humildes que passaram a sorver ares de consumo, e a aspirar novos degraus de cidadania, após  década e meia  de governos progressistas.

 Esse conjunto forma hoje uma espécie de pré-sal de possibilidades sociais emancipadoras no século XXI brasileiro.

Como evitar  que a sua desilusão  se dilua em um avanço do extremismo fascista no país e nas urnas?

Um primeiro passo, indispensável, é não relativizar a centralidade do desafio a vencer.

 Identifica-lo como ‘os  erros petistas’,  repita-se, na desastrosa suposição de que  a indulgência conservadora abrirá, então, espaço à emergência dos ‘consequentes’, seria o suicídio político.

A sagacidade política de Ciro Gomes não lhe permitirá tal despautério.

O Brasil vive o esgotamento de um ciclo de crescimento.

Outro terá que ser construído.

O golpe é a resposta conservadora a esse divisor.

 A árdua  desconcentração do poder econômico e político até aqui foi pautada pela aglutinação de forças populares em nichos e  segmentos quase estanques.

Esse degrau não é mais suficiente para enfrentar a virulência da disputa em curso, na qual as elites parecem determinadas a escrever seu repto a Getúlio, Jango, aos levantes operários dos anos 70/80 no ABC paulista; à luta pelas Diretas; à Carta Cidadã de 1988; às quatro vitórias presidenciais progressistas de 2002, 2006, 2010 e 2014;

  É esse o torque do  pedral divisor.

 Há duas opções: saltar para um novo estirão democrático lastreada em maior participação  popular, ou regredir miseravelmente, perdendo-se quase tudo o que já se conquistou..

A capacidade progressista de reduzir o fosso entre as urgências e esperanças nacionais e a frágil contrapartida organizativa para alcança-las é a variável-chave.

Subestimar essa assimetria foi o pecado capital do ciclo petista encerrado pelo golpe.

O  arrocho em curso repousa nesse hiato, ao mesmo tempo em que age para aprofunda-lo destruindo lideranças e estruturas populares.

É  preciso liquidar a fatura, late o canil midiático, de olho na  hesitação do adversário em se  compor em uma frente que a nação reclama e o mercado teme.

Comitês de Luta pela Democracia podem funcionar como uma espécie de linha de passagem entre as hesitações e a urgência da resposta unificadora.

Eles contemplariam a defesa de Lula; o indispensável debate de uma plataforma para repactuar a democracia e o desenvolvimento; favoreceriam a aglutinação progressista pela base; propiciariam a formação política de uma linha de frente popular e estenderiam  um poderosa capilaridade à mobilização eleitoral unificada.

O papel dos intelectuais nessa semeadura é decisivo.

O êxito dos cursos sobre o golpe de Estado nas universidades brasileiras evidenciou a sede de debate qualificado por parte da juventude e dos democratas em geral.

Escancarou, ademais, uma demanda reprimida pela desativação das escolas de formação política dos partidos, bem como uma lacuna de consistência nos veículos da mídia progressista. 

Em política não há vácuo.

Na ausência de um debate engajado sobre os desafios do desenvolvimento predomina a pauta  do jornalismo motivacional de mercado.

Há décadas ele tenta convencer os pobres brasileiros a se imolarem pelo bem do ajuste fiscal: menos Estado em troca de mais distribuição,  acenam.

 Onde foi que isso deu certo?

 Há trinta anos que o capitalismo não faz outra coisa a não ser desregular mercados urbi et orbi.

 Então, por que o motor da economia mundial não pegou nem com o tranco de liquidez de trilhões de dólares despejados pelo Fed?

Por que Trump foi eleito nas costas do ressentimento dos loosers do cinturão de ferrugem?

Por que o desemprego da juventude espanhola persiste como um convite estrutural à emigração, após década e meia de ajuste neoliberal, desde Zapatero?

Por que a França se tornou um museu do Bem-Estar -Social?

Por que, ao contrário, o dissidente Jeremy Corbyn derrotou o neoliberal Tony Blair no partido trabalhista da Inglaterra duas vezes seguidas nos últimos anos?

O desmonte do mundo do trabalho, a rendição socialdemocrata ao cuore neoliberal, a desregulação financeira, a nova geopolítica das cadeias globais de agregação de valor, a dissipação dos instrumentos convencionais de comando do desenvolvimento, a destruição do pleno emprego  agravada pela automação da quarta revolução industrial  --  todas essas determinações ajudam a entender por que essa  é a mais longa, frágil e incerta convalescença dentre as crises capitalistas registradas desde 1929.

Tudo o que é sólido se desmancha no ar.

Mas as contradições e seus protagonistas não se dissiparam.

Ao contrário, se adensaram.

A sofreguidão do desmanche golpista aqui, bem como a virulência de Moro contra Lula, reflete esse novo calibre histórico.

 O imenso areal movediço em escala global aproxima interesses da  juventude subempregada e os dos trabalhadores em tempo parcial, bem como os dos excluídos e sem-teto, assim como os das dezenas de milhões de famílias endividadas,  ademais de alinhar rombos fiscais ingovernáveis ao desespero de milhões de lares desprovidos de acesso a direitos universais básicos da civilização.

 É para esse  padrão de competitividade baseado na extração do suor, sem contrapartida de cidadania, que a coalizão  golpista quer conduzir o Brasil.

A abrangência dos interesses contrariados só é atenuada pela inexistência de um projeto que sacuda a sua prostração e descrença na luta democrática.

 A elite que se assumiu como tropa de ocupação dentro do próprio país sabe que paira sobre esse vácuo  a aura de um saque intolerável, ao qual se contrapõe o espectro de um referendo revogatório reordenador.

Uma frente ampla progressista ancorada em abrangente rede de Comitês de Luta pela Democracia pode injetar o tônus político que  falta para essa sombra se materializar em alavanca histórica renovadora.

É só um passo, mas sem ele a borda do abismo cederá sob os nossos pés.





Créditos da foto: Ricardo Stucker